Debaixo do Pé de Ingá

18 04 2017

Oi gente, um forte abraço. O nosso último texto foi há bastante tempo, você se lembra? Seu título era “Sinos do Amor”, e se encontra postado no site em três partes. Veja nossa nova mensagem que vai mexer com sua imaginação.

Dono de centenas de alqueires de terra e o maior criadouro de suínos e gado confinado da região, além de um número descomunal de empregados, o latifundiário Sr Manuel Antunes Martins, conhecido pela região como “Manézão” era reverenciado por todos da região como um rei. Vivia com sua família na Fazenda Boa Esperança, junto à sua esposa, Dª Fernanda, Manézão tinha uma única filha, Rosi, de nove anos. Toda carne que era comercializada na região vinha de seu frigorífico, era a riqueza do fazendeiro que movimentava quase todo o comércio do lugarejo, o que fazia dele uma pessoa muito importante.

Na fazenda onde morava, seu braço de direito era o Sr. Fernando Godói do Nascimento, era ele o seu administrador, a família do seu Fernando, ele, sua esposa e o seu único filho de onze anos de nome Marcelo, moravam bem perto do casarão do fazendeiro. Enquanto o Manezão se deslumbrava com sua riqueza, o Fernando se deslumbrava com a boa administração que fazia na fazenda onde ficava o criadouro de porcos.
Rosi, ou melhor, Rosinha, como todos a chamavam deleitava-se de uma infância feliz juntamente com Marcelinho: iam juntos para escola que ficava perto de suas casas, depois passavam o dia todo juntos, correndo pelo terreiro, brincando, sorrindo.

Com o passar dos outonos, nascia o início de seus sonhos. Agora na adolescência, os corações do casal de jovens batiam agora em outro ritmo, o do Amor! E já não mais conseguiam viver longe um do outro. Anos mais se passaram, Marcelinho com dezenove anos e Rosinha com dezessete, se tornaram almas gêmeas e só pensam agora em ficar juntos por toda uma vida.
Rosinha, porém, sabia que o namoro não teria a aprovação de seus pais, pelo seguinte motivo: os dois desejavam primordialmente ter um filho homem para fazê-lo doutor, o que não era mais possível, pois pouco tempo depois de Dona Fernanda conceber a luz à Rosinha, os médicos descobriram um mioma, e fez-se necessário a cirurgia de remoção de útero, destruindo assim a chance de tentarem ter outro filho.
Rosinha e Marcelinho escondiam o namoro com muita incumbência para não serem descobertos. O cenário romântico que embelezava o amor de Rosinha e Marcelo era uma mata debaixo de um frondoso pé de ingá centenário que ficava do outro lado do rio, o lugar era seguro para os encontros, a correnteza era rasa e fácil de atravessar, ali o pai de Rosinha nunca tinha pisado, era outra propriedade. Debaixo daquele pé de ingá, sob o cantar dos pássaros e o som melodioso das águas cristalinas que escorriam suavemente por entre as pedras é que o casal trocava juras de amor e passavam momentos felizes. Com um canivete desenhavam no tronco do ingazeiro muitos corações e escreviam lindas frases de amor e desejos para o futuro.
Um amor puro assim, que nasceu na infância e teve seus sonhos desabrochados nos corações de dois jovens na adolescência, ardente como brasa viva, um amor que nasceu e cresceu como o cedro do Líbano e floresceu como a mais bela palmeira, tal amor deveria ser aclamado pelas estrelas, pelas nuvens e até pelas águas do mais profundo oceano, deveria ser ungido da forma mais suntuosa, com galardão e honrarias, mas o que esperava esse amor tão lindo, tão puro e inocente era um cálice muito amargo.
Manezão, um homem que conhecia muito bem o valor do dinheiro, mas não conhecia o valor da vida, do sentimento, das pessoas; não conhecia o valor do amor. Ao perceber que sua filha estava gostando do empregado, esbravejou e proibiu o encontro de ambos, jamais permitiria que sua filha se casasse com um moço que cuidava dos porcos. O Manezão da fazenda que era venerado como rei pelo povo de toda uma cidade não tinha nada de Majestade, seu aspecto de rei era apenas por seus caprichos, por sua maldade estava destruindo sem piedade a felicidade da própria filha e do seu empregado que nasceu e cresceu em sua fazenda.

Dias depois para evitar que Rosinha continuasse se encontrando com Marcelo, Seu Manuel convida um doutor recém formado para vir à sua casa conhecer sua filha. O jovem médico se encanta pela beleza de Rosi e assim iniciou-se um namoro forçado por intermédio do pai. Rosinha não tirava Marcelinho do pensamento, chorava pelos cantos da casa, amargurada sem deixar ninguém perceber o seu sofrimento, mas quando tinha oportunidade lá estavam, Rosi e Marcelo trocando juras de amor embaixo do ingazeiro.
Um ano de namoro e o casamento é marcado pelo fazendeiro, a alma de Rosinha e Marcelinho está em fel de amargura, a maldade do velho parecia que iria mesmo por um final naquela história de amor.
Dois dias antes do casamento, Marcelo está aflito, não consegue dormir, vai até a cozinha, pega papel e caneta e começa a escrever.

“Rosinha, você foi o meu primeiro amor e será também o meu inesquecível amor, eu jamais te esquecerei, você sempre será a minha doce lembrança. Você se lembra quando íamos juntos pra escola? É, era eu que levava sua mochila, eu era o seu segundo professor, te ensinava as coisas que você não sabia. Nós crescemos juntos, nunca nos separamos por nada, começamos a nos amar ainda éramos crianças, quando ainda escrevíamos cebola com s e sapo com c. Quantos corações, quantas frases de amor escrevemos lá naquele pé de ingá. Aquele ingaseiro será testemunha por toda vida do nosso amor. O canivete que usávamos para escrever, para desenhar tantos corações está aqui ao meu lado, eu vou te mandar de presente. Guarde-a em um baú e a deixe envelhecer, e daqui há muitos anos tire-a do baú, toda enferrujada e lembre-se que ela selou o nosso amor lá no ingaseiro. Você se lembra daquele verso que você escreveu com ela? Você ainda era uma menina. A frase que você escreveu era assim: “Quando eu crescer meu bem, eu serei só sua e você será somente meu”. Os corações, as lindas frases de amor não se apagarão no ingaseiro, o nosso amor também não se apagará, mesmo separados eu desejo a você muitas felicidades, eu quero que você seja feliz. Mas ainda há em meu coração um restinho de esperança, se você se lembrar de mim antes de dizer sim lá em frente ao altar, eu estarei te esperando lá debaixo do ingaseiro. Deixarei um carro atrás da igreja para te resgatar se antes de dizer o sim você disser um não. Lembre-se disso Rosinha, quando você estiver lá na igreja perante o altar, eu ainda estarei te esperando uma última vez, um beijo, meu inesquecível amor. Ass. Marcelinho”.

FIM DA PRIMEIRA PARTE

Rosinha conversava com as empregadas na cozinha quando alguém lhe trouxe algo: uma carta, entregue juntamente com uma lâmina. Ao ver o canivete, disfarçadamente saiu andando e foi para o seu quarto, trancou a porta, abriu a carta e começou a ler. Antes mesmo do findar da carta, lágrimas escorriam por sua face, e um grito silencioso de dor martirizava em sua garganta. Ninguém podia ouvir, mas pelo casarão propagou-se um sentimento de profunda tristeza. As empregadas, que sabiam dos sentimentos de Rosinha, eram complacentes de todo seu sofrimento.
Finalmente é chegado o dia do casamento, Manezão, Dona Fernanda e o noivo doutor Ronaldo estão todos felizes, exceto a noiva.
A cidadezinha está em festa. Nunca antes tinha se visto tanta gente granfina no lugarejo, o pátio da igreja, a praça da matriz, esta repleto de pessoas importantes, a igreja está com flores, toda enfeitada como nunca tivera antes, lá estão os convidados do fazendeiro e do doutor Ronaldo, apenas parentes e pessoas muito importantes ocupavam o interior da Igreja, todos aguardavam ansiosos a chegada da noiva. Era sábado, duas e quinze da tarde, vinte e sete de maio, esse é o mês das noivas, o carro para na porta da igreja e dele desce Rosinha que ia se casar com outro por ordem do pai e da mãe, mas não tirava Marcelinho do pensamento, do coração. Ela sobe bem lentamente as escadarias da Igreja, chega à porta e começa então a marcha nupcial, ela é o alvo de todas as atenções, como está linda a noiva, todos felizes menos a noiva que está com um semblante triste, não consegue esconder. O Manezão vem a seu encontro e a leva perante o altar.

Lá debaixo do ingaseiro está Marcelinho sentado e encostado ao tronco da imensa arvore descascando alguns frutos do ingaseiro e jogando os caroços pelo chão para disfarçar o nervosismo e a dor que sua alma sente, mas ainda com um restinho de esperança em seu coração.
Lá na igreja é chegado o momento de dizer o sim que iria separar um lindo amor que nasceu na infância e duraria com toda certeza por toda uma vida. O padre olha para o noivo e faz a pergunta, a resposta do noivo é sim. O padre olha para noiva e faz a pergunta. O silencio da noiva deixa a igreja em silencio, Rosinha calada desce do altar e tira da manga do vestido aquela lamina cortante e em prantos de choro e gritos começa a cortar, a retalhar o seu belo vestido de noiva e vai saindo em direção à porta, corre atrás da igreja e lá está o carro mencionado na carta à sua espera. A mesma lamina que foi motivo de tanta felicidade foi na igreja motivo de pânico. O fazendeiro fica com a cara de manezão da roça, tem um enfarto, e Dona Fernanda desmaia e são levados para um hospital. Os convidados estão atônitos e perplexos, não conseguem entender o motivo da tragédia. O noivo ficou pasmo no altar, também com a cara de manezão, por essa ele não esperava, o seu diploma não teve nenhuma influencia no coração da noiva. O que falou alto foi o amor de Rosinha por Marcelinho.
E Marcelinho está debaixo do pé de ingá quando escuta um grito ecoar na mata. “- Marcelinhoooo” e de repente aparece na sua frente Rosinha com o vestido todo retalhado.

Os dois se abraçam, se beijam com ternuras e depois um choro que durou vinte minutos, Marcelo pega Rosi no colo e sai da mata com ela nos braços e vai para o carro que está à sua espera, e os dois seguem para a casa do tio que fica a vinte km dali, e sabia da história.
Os pais de Rosi saem do hospital após oito dias e vão para casa. Dona Fernanda está bem de saúde apenas abalada. Mais alguns dias se passam, Rosi e Marcelo estão na casa do tio do rapaz, quando Fernando bate à porta. Ele veio buscá-los a pedido de Dona Fernanda.
Ao chegarem no casarão, Marcelinho e Rosinha entram na sala já ouvem o choro da mãe e o alvoroço de todos que estão por ali. Manezão teve outro infarto, e desta vez foi fulminante. Manuel Antunes Martins acabara de falecer.
Rosinha chora muito, apesar de todo sofrimento que lhe causara, uma boa filha nunca deixaria de amar o próprio pai. Tudo parecia estar sem rumo.
Fernanda, porém, tinha mais um motivo para mandar chamá-los: estava muito abalada, desorientada, e não sabia se sozinha poderia continuar; queria que a filha estivesse com ela, e precisava de alguém para administrar a fazenda e os bens da família. Pediu desculpas ao casal por todo infortúnio, pediu-lhes também para que viessem morar no casarão com ela, e claro, disse que deveriam se casar.
Rosinha, porém estava muito abatida para pensar em casamento, a tristeza da morte do pai a consumia. Em comum acordo, decidiram marcar o casamento para ser realizado em algumas semanas, Rosinha insistiu para que não houvesse nenhum cortejo festivo, que fosse de um jeito simples e bem discreto.
Rosinha e Marcelinho, muito embora de forma trágica, deslumbram agora de uma imensa riqueza que veio para completar uma felicidade plena de um grande amor que nasceu ainda na infância.
Assim chegamos ao fim de mais uma linda história de amor. Que Deus nos abençoe e até a próxima.

Jair Garcia Martins (Jair Padeiro)





Sinos do Amor

18 04 2017

Oi gente, um forte abraço.

O nosso ultimo texto foi “Bodas de Ouro”. Veja a nossa nova mensagem:

Pablo e Juarez com o sobrenome de Rodrigues Gonsales. Dois irmãos gêmeos que eram donos de uma fazenda com oitocentos alqueires de terra e muitas outras propriedades no fundo do sertão mexicano. Dois fazendeiros sagazes, tiranos e cruéis que se enriqueceram em cima de uma mão de obra escrava.

Pablo morava na cidade, tinha um único filho por nome de Ruanito, onde estava o pai também estava o filho, nos eventos sociais, nas reuniões da alta granfinagem, nas festas comemorativas, o Sr. Pablo Rodrigues Gonsales tinha um status bem elevado em meio a alta sociedade e com uma imensa satisfação dizia para todos: “Esse é o meu único herdeiro” – se referindo ao filho Ruanito Rodrigues Gonsales.

A cento e vinte km dali na fazenda cafezal morava Juarez Rodrigues Gonsales, duas almas gêmeas que tinham em seus corações o mesmo sentimento, eram duas personalidades que jamais permitiram que o sino do amor batesse em seus corações.

Na fazenda havia uma imensa colonha com noventa e oito casas que eram todas ocupadas pelos empregados da fazenda, duzentos e noventa e seis trabalhadores moravam ali naquelas casas em uma extrema pobreza, todos ali na colonha viviam em um desconforto lamentável. Dezenas de famílias vivendo uma mão de obra escrava, disfarçada de emprego, que eram imposto pelos irmãos gêmeos.

A quatro km dali separado por uma mata virgem estava a sede da fazenda, quatro mil metros quadrados cercado por um alto alambrado, uma verdadeira fortaleza, ali estava a casa de Juarez Rodrigues Gonsales. O coronel do sertão.

 

Domingo

         14 de Março, 11h40m

         O fazendeiro está na varanda e avista ao longe um carro vindo em direção da sua casa, calça as botas, coloca o seu chapéu panamá e vai até o portão com dois empregados, o carro para em frente ao portão que está trancado, descem três pessoas do carro, seu irmão, sua cunhada por nome Estelita e o filho andam pelo belo jardim e se encantam com a beleza das flores. Enquanto isso na varanda os irmãos conversam.

“Ruanito se formou em agronomia há um mês e eu vou deixá-lo na fazenda por uns seis meses, ele está ansioso por umas férias prolongadas”.

“Nada melhor que a fazenda pra ele que é agrônomo recém formado, você está fazendo certo meu irmão, aqui ele será bem cuidado, ele vai adorar essas férias, tenho certeza”.

E nisso chega Estelita e o filho, e todos vão para o almoço.

 

15 de Março, 15h40m

         É hora da volta, todos se despedem e Ruanito fica com o tio para as tão sonhadas férias.

         Será que Ruanito voltaria? Muita coisa iria acontecer nesse tempo com o jovem ali na fazenda. Veremos mais adiante.

 

Tia e sobrinho sentam na varanda e Juarez lhe dirige essas palavras.

“Amanhã é o grande dia, vai se iniciar a colheita do café e você nunca esteve aqui em tempos de colheita, eu quero que você veja como é bonito de ver quase trezentas pessoas trabalhando em um cafezal. É dali Ruanito que veio a nossa fortuna”.

“É tio, essa é a segunda vez que venho na fazenda, na verdade eu só conheço a sede e nada mais, eu quero conhecer tudo por aqui, tempo eu terei de sobra e confesso que estou ansioso para ver como é feito a colheita do café”.

Um novo dia amanhece naquele sertão, são seis da manhã, Juarez está fazendo o café e o sobrinho aparece.

“Oi tio, bom dia”.

“Bom dia menino, que surpresa você também levanta cedo”.

“Só na fazenda”. – E da um sorriso.

“Eu sempre me levanto cedo para fazer o café depois que fiquei viúvo”.

“Ruanito hoje é o grande dia vamos iniciar a colheita do café”.

“Depois quero ir lá, estou curioso para ver o povo colhendo café”.

“Daqui a pouco você sobe lá, é só seguir essa estrada que fica atrás do pomar e você vê o primeiro talhão do cafezal”.

São quatorze horas, lá está o jovem andando pelo cafezal, Ruanito olha com muita atenção cada movimento dos colhedores, são quase trezentas pessoas a serviço do pai e do tio, uns estão derrubando o café pelo chão, outros abanando o café com uma enorme peneira, outros ensacam o café, e outros usam o rastelo e amontoam o café, assim por diante.

Ruanito sobe até o final do cafezal e ao pé de um morro ele vê algo que lhe deixa impressionado. Um pé de ipê amarelo todo florido e em baixo dele um homem tomando café e ao lado uma moça com duas moringas, Ruanito se aproxima e cumprimenta o homem, e diz que é o sobrinho de Juarez e filho de Pablo, que é um agrônomo recém formado e que vai ficar na fazenda por um bom tempo. E faz para o homem uma pergunta.

“O senhor é colhedor de café?”

“Sim, colho café, capino, o que precisar”.

“E essa moça é sua filha?”

“É a minha filha caçula, tenho três filhas”.

“Ela também colhe café?”

“Não, ela é bombeira”.

“Bombeira?!” – olhou pra moça e sorriu, a moça também sorriu e disse para o pai:

“Meu pai, explica melhor pra ele, ele não sabe as coisas da roça”.

O homem da um sorriso e conclui:

“Bombeiro são as pessoas que puxam água com uma moringa para o povo beber”.

“Ah sim, agora eu entendi, bombeiro na cidade são as pessoas que apagam fogo”. – Olha pra moça e os dois dão um belo sorriso.

E nesse momento chega o fazendeiro.

“E ai, já aprendeu a colher café Ruanito?”

“Nossa tio, eu estou encantando, nem imaginaria que era assim, tão divertido no meio desse povo”.

Os dois desceram para casa e bem perto do casarão o moço faz uma pergunta.

“Tio, quem é aquela moça tão linda lá debaixo do pé de ipê?”

“Aquela moça meu jovem é a rainha do sertão, ela já encantou muitos corações aqui no sertão, mas parece que não quer compromisso, ou ainda não se encontrou com um príncipe encantado”.

“Só pode ser isso, ela é linda demais e me parece ser uma moça bem humilde, eu também fiquei encantando por ela”.

Que felicidade Ruanito estava sentindo.

 

         29 de Março

A colheita está a todo vapor, Ruanito já conheceu as paisagens mais bonitas da fazenda, já andou a cavalo, já caminhou pelos campos verdejantes, pelas campinas floridas, já nadou, já pescou no belo rio que passa no fundo da fazenda, já foi de manhã na mata, já foi de tardezinha para ver a revoada e o canto dos passarinhos, a orquestra da natureza, louvando ao criador. Como canta bonito o sabiá, o bem-te-vi, o urupuru, como pia bonito o nhambu lá no baixadão. A beleza do sertão deixou o jovem fascinado, mais até o momento o que mais encantou Ruanito foi a beleza da moça que ele conheceu lá debaixo do pé de ipê todo florido.

Já era quatro de abril e ele não esquecia, não tirava a Rebeca do pensamento, pela primeira vez em seus vinte e dois anos ele se encantou por uma moça, mais ele não tinha mais visto a bela moça, seu tio o manteve ocupado todos esses dias para arrumar a sacaria que iria ser usada na colheita do café. E lá na roça a Rebeca conversava com seu pai.

“Pai, cadê o Ruanito, ele não veio mais aqui, porque será?”

“Você conhece bem o Juarez não conhece? Deve estar usando ele pra trabalhar, coitado do rapaz, aonde ele veio tirar férias”.

         Rebeca também nos seus dezenove anos pela primeira vez se encantou por um moço. Será que haverá um novo encontro? Veremos mais adiante.

“Hoje é domingo ninguém está trabalhando, a Rebeca deve estar em sua casa”. – Pensava consigo mesmo o rapaz. O jovem estava ainda na flor da idade se despontando para a vida, tinha um coração de ouro, não adquiriu nada do pai e nem do tio. Herdara toda bondade que tinha sua mãe, falava bem devagar, suas doces palavras eram bem pensadas antes de serem pronunciadas, era elegante, sabia se vestir muito bem, era inteligente e lidava de um modo bem educado com as pessoas, mas tinha defeitos como todos nos também temos. O seu defeito era a timidez, era muito tímido, não conhecia os meios que um homem tem para conquistar uma mulher, sua timidez o deixava separado das moças que o admirava. Ele tinha um metro e oitenta e cinco, era moreno, olhos bem verdes, era muito bonito, tinha um porte atlético invejável, mas vivia sozinho, nunca teve uma namorada, nunca desfrutou da doçura que é ter carinhos de uma mulher.

A jovem que ele conhecera lá na sombra do ipê florido era linda, também era morena, olhos castanhos, tinha um metro e setenta, cabelos negros e longos, o seu corpo, ah! Não dava pra descrever, era uma sereia! Que encanto de mulher! Tinha a beleza de uma tarde sertaneja, era conhecida e chamada por todos da colonha por Rainha do Sertão.

São oito horas da manhã, o dia está ensolarado, Ruanito está aflito, quer ver novamente aquela moça, e faz uma pergunta para o tio.

“Aonde mora toda aquela gente que estava colhendo café?”

“Aquele povo mora na colonha, são noventa e oito casas, na quinta casa mora o Sanches nosso administrador, eu já falei com ele a seu respeito e pedi que ele falasse com o pessoal sobre você, vai lá conhecer aquela gente, de agora em diante você está livre para desfrutar das suas férias”.

“Onde fica a colonha?”

O tio explica e o jovem segue rumo a colonha, anda por meia hora e avista a vila.

Na quinta casa ele vê um homem na porta, era Sanches, o administrador.

“Bom dia Sanches”.

“Bom dia Ruanito, entre vamos tomar um café, eu já falei com todo pessoal sobre você”.

Ruanito entra e enquanto eles conversam a esposa do Sanches faz um café. O jovem está perplexo, nunca antes se deparou com tanta pobreza, o piso era o chão, os quartos não tinham portas, não havia sala e nem banheiro, era um mictório no quintal. Um fogãozinho a lenha e paredes pretas. No terreiro brincam crianças magrinhas e desnutridas. Um cenário de pobreza de cortar a alma.

Ruanito parecia não acreditar no que via e pensava consigo mesmo: “se esse homem é o administrador e vive nesse estado, como vivem os demais empregados do meu pai que moram nessa colonha?! O que eu estou vendo é uma escravidão a céu aberto”. Ruanito está de abeca baixa pensativo e o Sanches lhe pergunta:

“Você está bem, você quer mais um café?”

“Obrigado Sanches, eu estou apenas um pouco chateado, está tudo bem”. Despede-se de Sanches e a esposa e sai dali com os olhos embaçados pelas lágrimas, mais adiante já na décima casa vê uma senhora com uma criança no colo e pergunta:

“A Senhora poderia me dizer onde mora o Manuel, o pai de Rebeca?”

“Mora na última casa moço, é bem longe”.

“Vou até lá, obrigado”.

Ruanito vai bem devagar em direção da casa de Rebeca, cumprimenta as pessoas pelo caminho, as que estão na porta, brinca com as crianças que estão no terreiro e finalmente chega na ultima casa. Manuel está na porta. Ruanito se aproxima e o cumprimenta e ambos entram.

“Senta Ruanito, Joana faz um café pra nóis”. – As duas irmãs da Rebeca vêm e cumprimentam o jovem.

O moço fica ali por uma hora e meia conversando, sorrindo como se já o conhecesse há bastante tempo, deixou sua timidez de lado, mas está ansioso, cadê a Rebeca..

Não mais consegue se contiver e pergunta.

“E a Rebeca Manuel, onde está?

“Ela está lá na mina lavando a roupa e só volta a tarde”.

“Onde fica essa mina?”

“É só seguir essa estradinha e entrar no primeiro carreador, a direita bem no pé de uma montanha já é a mina, não tem como errar de longe você vai escutar o barulho da cachoeira que desce bem perto da mina”.

“Eu posso ir até lá conversar com ela?”

“É claro que pode meu filho”.

E lá está Ruanito depois de vários dias, pertinho da moça, ela nem percebe a sua chegada por causa do barulho da cachoeira, ele senta atrás dela, ela está lavando a roupa, e ele diz:

“Oi bombeira” – bem alto.

Ela vira de frente com ele e diz essas palavras:

“Ah Ruanito, que susto você quase me mata do coração”. – E dá um lindo sorriso junto com o rapaz. E conclui:

“Nossa, até que enfim apareceu”.

“É, eu demorei, mas estou de novo com você, parece que o seu negócio é mesmo mexer com água né, os dias da semana você é bombeira e no domingo você passa o dia lavando roupa né?”

“É a minha vida do sertão Ruanito”.

“Você não gostaria de morar na cidade, ter uma casa de luxo com todo conforte Rebeca?”

“Ha, quem sou eu moço para um ia ser uma madame, nasci no sertão, sou muito pobre e acho que vou viver para sempre assim, não posso sonhar com grandezas Ruanito”.

“Engano seu Rebeca, você sabia que Deus pode mudar a vida da gente a hora que Ele quiser?”

“Se Deus quiser moço ele pode fazer isso pra gente sim, mas nós aqui dessa colonha somos um povo esquecido do resto do mundo, trabalhamos o dia todo como se fossemos escravos e o que ganhamos não da para comer”. Algumas lágrimas deslizam pela face da moça e outras lágrimas também deslizam na face de Ruanito.

“Me desculpe por eu estar falando assim, o seu pai e o seu tio é nosso patrão”.

“Que isso Rebeca eu é que estou chateado e muito revoltado com isso, espero que você me perdoe por isso”.

“Você não tem culpa Ruanito”. Depois eles mudam de assunto.

Eles estão ali sentados um perto doutro, conversando sorrindo como duas crianças, depois a moça se levanta e termina de lavar a roupa e os dois sobem a estrada e Ruanito faz a ela uma pergunta.

“Amanhã você vai ser bombeira lá no cafezal?

“Sim, vou estar lá o dia todo”.

“Será que eu posso ser bombeiro junto com você?”

“Ah Ruanito, é claro que sim”. Os dois sorriem, e que sorriso bonito se estampou na face de ambos. O sino do amor estava começando a abater em dois corações ali no sertão.

E no dia seguinte lá estava Ruanito e Rebeca dando água para o povo no cafezal. Ruanito entrava por uma rua e Rebeca por outra. O jovem brincava com as pessoas, sorria, conversava e em poucos dias todos o amavam, Ruanito era muito bondoso. Os dois juntos, ele e a Rebeca desciam pra mina buscar água, subiam da mina, sorrindo, brincando, assim foi por muitas semanas. Ruanito estava batendo o sino do amor no meio daquele povo.

Novamente é um domingo. Rebeca está na mina e Ruanito aparece de surpresa e diz bem alto.

“Oi bombeira”.

“Ah Ruanito, de novo, assim você me mata”. Sorrisos.

“Não, eu não quero te matar.” – A moça se distrai e o sabão cai na água.

“Viu o que voe fez, por sua causa o sabão caiu na água e agora?”

“Eu pego pra você, não fique zangada comigo Rebeca.”

Abaixou-se e pegou o sabão da água e colocou de um jeito bem carinhoso na mão da moça.

“Rebeca o meu tio me falou que você já encantou muitos corações é verdade?”

“Ruanito eu nunca tive namorado, eu nunca namorei, eu Ruanito, nunca beijei um homem”.

“Eu também Rebeca nunca tive uma namorada eu ainda não sei o que é beijar uma mulher, então, nós somos iguais”.

“Será que eu posso acreditar nisso Ruanito?”

“Eu jamais mentiria pra você Rebeca, uma moça tão amável, tão meiga não pode ser enganada, ainda mais quando ela é conhecida por todos como rainha do Sertão.

“Uma rainha sem um palácio, sem um trono e sem um rei, assim sou eu Ruanito”.

“Engano seu Rebeca, o seu rei está aqui bem pertinho de você, bem na sua frente”.

Os dois estão a um palmo de distancia, um olhar penetrante nos olhos de Ruanito vai na alma de Rebeca, outro olhar penetrante de Rebeca vai na alma de Ruanito. Não deu mais para segurar, o coração está dilacerado, se derretendo como cera. Os dois se abraçam e Ruanito acaricia bem lentamente os cabelos negros e longos de Rebeca que está com a cabeça apoiada em seu peito. Em seguida um novo olhar e os dois se beijam com ternuras. O sino do amor bateu forte em dois corações em pleno sertão. A cachoeira, as águas cristalinas daquela mina, o sol, o lindo céu azul, enfim toda natureza foram testemunhas de um lindo amor que marcaria uma vida inteira de felicidades.

Enquanto tudo isso acontecia no sertão, lá na cidade Pablo se prepara para buscar o filho. Os cinco meses e alguns dias se passaram, já era fim das férias que o pai dera para o filho. Será que Ruanito voltaria com o pai? Veremos adiante.

São dezoito horas, Pablo e Estelita chegam na fazenda.

“E daí meu filho, conta o que você achou das férias prolongadas aqui na fazenda”.

“Foi muito emocionante meu pai, pra dizer a verdade pra mim aqui é um paraíso na terra, quase tudo aqui é muito bonito, amei, adorei ficar aqui por esses cinco meses e alguns dias”.

Juarez e Pablo se emocionam com as palavras de Ruanito, Estelita apenas ouve e fica calada, não tem nenhum entusiasmo ao ouvir o filho falar apenas da beleza que tem a fazenda. Ela conhecia muito bem a pobreza da colonha que o pai escondeu do filho por todos esses anos, sabia da mão de obra escrava e outros meios sujos dos irmãos para se enriquecerem. A mãe percebe que o filho queria dizer algo mais, mas se cala. As mães percebem o sentimento dos filhos sem que eles falem. Será que um dia Ruanito falaria para o pai sobre a colonha? Veremos adiante.

A noite passa e no dia seguinte acontece o inesperado, algo que Pablo nem imaginaria, chama o filho para o carro e o filho abre o jogo com essas palavras.

“Pai eu não vou voltar, pretendo ficar aqui até o término da colheita e depois vou me decidir o que eu faço. Meu pai eu conheci aqui na fazenda uma moça que será um dia a minha esposa, eu não vou embora sem a minha Rebeca”.

O pai entra em pânico, se desespera, não se conforma, não quer voltar sem o filho ao seu lado. Não aceita ver o filho se casar com uma moça pobre, insiste com o filho, mas não adianta. Sendo assim o pai volta só com a esposa que apóia o filho, pois queria ver a felicidade do filho. Assim é o amor de mãe.

E a rotina na fazenda voltaria ao normal, muitos dias se vão, semanas se passam e mais uma vez o inesperado acontece. Juarez tem um AVC e fica em uma cadeira de rodas, está sob os cuidados da irmã de Rebeca. Pablo está na cidade inconformado, irado sofrendo muito a separação do filho e a dor é grande pelo incidente do irmão. Três semanas depois ele também tem um AVC e vai parar em uma cadeira de rodas.

O filho busca o pai e a mãe para morar na fazenda, algumas semanas depois é o fim da colheita. Ruanito convida todo povo para vir até a sede e pela primeira vez aquela gente entra pelo portão e fica em frente ao casarão ocupando aquele espaço ajardinado em volta da casa. Lá na varanda estão Estelita, Rebeca e Ruanito, Sanches e ao fundo da varanda estão Pablo e Juarez em uma cadeira de rodas.

Ruanito ergue os braços e pede silencio para o povo e faz um discurso com essas palavras:

“Honrado povo da fazenda Cafezal que agora passará a se chamar Fazenda Sinos do Amor. Meu pai e meu tio não estão bem de saúde e passaram para mim o direito de posse dessa fazenda, eu sou o único herdeiro dessas terras e já foi me dado o direito de assumir a fazenda e a partir de hoje eu sou o vosso patrão. Sanches continuará sendo o administrador. Podem ter uma certeza que o cenário aqui vai mudar, será bem diferente da atual. A vila em que vocês moram será em breve apenas barracos para armazenas insumos agrícolas. Em breve vocês irão morar em casas de alvenaria com todo conforto. Vocês terão salário digno para cuidar bem das vossas famílias. Só uma coisa peço a todo vocês. Plantem amor que vocês irão colher amor. Estelita chorava de emoção ao ouvir o filho falar. Rebeca também chorava muito. Sanches abraça Ruanito e o povo todo se emociona.

Os fazendeiros estão sentados nas cadeiras de roda, abatidos, estáticos, perplexos e envergonhados com tanta maldade que cometeram com aquela gente. De repente quatro homens sobem a escada e põem Ruanito nos ombros e saem pelo jardim e todo povo grita “Viva Ruanito!”.

Dois meses depois Ruanito e Rebeca se casam, uma grande festa com o povo pelo fim da colheita e pelo casamento de Ruanito e Rebeca. Alguns anos já se passaram, Pablo e Juarez já faleceram, mas pagaram um alto preço por tanta maldade que cometeram com aquele povo. Uma colonha co cento e dezenove casas de alvenaria com todo conforto fora construída para os trabalhadores da fazenda. Todos recebiam salários dignos s conforme o prometido por Ruanito. Acabou-se a escravidão, o Sino do Amor bateu bem alto em pleno sertão.

No casarão mora Ruanito, Rebeca e Estelita com dois netinhos. Lá no portão bem no alto um grande sino simbolizando o nome da fazenda com essas palavras:

“Fazenda Sinos do Amor. Que Deus nos abençoe e que nunca deixemos de bater o sino do amor”.

 

Até a próxima se ele assim nos permitir.





Bodas de Ouro

1 08 2016

Oi, gente, um forte abraço. O nosso último texto foi “Praça Getúlio Vargas”. Veja a nossa nova mensagem, em forma de conto.
Sou Márcio Antunes de Oliveira, um doutor renomado. Moro em um bairro nobre, a minha casa é muito bonita, cercada por jardins e em sua volta uma imensa varanda, nela eu vivo sozinho me recordando com muitas saudades da felicidade que eu já vivi em minha longa vida.
O interior da bela casa em que moro é uma obra prima, minha saudosa esposa tinha maestria no arranjo e na escolha dos móveis que ocupam todo espaço da casa em que juntos vivemos por sessenta e um anos.
Bodas de ouro, como ela iniciou-se no coração de dois jovens que despontavam para a vida. Foi assim, veja a minha história de amor:
14 de outubro, 20h40m
Lá estava eu, sentado na mureta do pátio da faculdade onde eu fazia curso do meu segundo ano de medicina, o pátio repleto de estudantes que aos poucos seguiam rumo aos corredores para entrar nas salas de aula, e em poucos minutos o pátio ficou vazio.
E nesse momento passou por mim uma moça em direção ao portão, de cabeça baixa, sentou-se, no final da mureta, bem perto da saída, apoiou a cabeça no pilar que fica no término da mureta, colocou as mãos no rosto, eu fiquei por alguns minutos olhando aquela cena que para mim não era normal, fiquei preocupado e fui caminhando bem lentamente, e parei à sua frente, e fiz a ela uma pergunta:
bodas
– Oi moça, você está bem?
– Não estou muito bem não, estou com uma dor de cabeça…
– Qual é o seu nome, estou vendo que você precisa de ajuda, eu posso lhe ajudar, o meu nome é Márcio…
– Meu nome é Márcia, que coincidência, pode ficar em paz, eu não quero lhe incomodar.
– Essa dor de cabeça é constante?
– Não, uma hora ou outra.
– E que remédio você toma?
– Algumas gotas de dipirona e logo passa…
– A uns três quarteirões daqui tem uma farmácia, eu vou buscar um remédio pra você.
– Não, não é preciso, eu não quero lhe incomodar.
– Não é nenhum incômodo, eu posso fazer isso pra você, mas terá que cuidar do meu material, certo?
Ela olhou para mim e deu um leve sorriso:
– Eu prometo que cuido.
Fui buscar o remédio, que ela prontamente tomou, e depois de alguns minutos, ela exclama:
– Nossa que alívio, obrigada, Márcio!
– Não precisa me agradecer. Onde você mora?
– Eu moro bem longe desse bairro…
– E como você vai embora?
– O meu pai, ele vem me buscar… e você, mora por aqui?
– Não, eu também moro longe, mas estou de carro, chego rápido em casa, o lugar por onde vou o trânsito é tranquilo.
– Isso é ótimo.
– Quais sãos os seus planos para o futuro, que curso você está fazendo Márcia?
– Estou cursando Medicina, é o meu primeiro ano nessa longa caminhada.
– Nossa, então eu dei um remédio pra uma futura médica, olha como estou importante. E juntos nós demos um belo sorriso, e logo após um breve silêncio, vem a pergunta dela para mim.
– E você, que curso está fazendo? Quais são os seus planos para o futuro, o que você está sonhando?
– Eu também sonho em ser um doutor, e esse é também o sonho dos meus pais.
– Ainda hoje eu conheci o futuro Dr. Márcio e ele já me curou, que coisa gratificante!
E que lindo sorriso estampou em nossa face… Começou então a chover, ficamos ali por uma hora e meia, talvez um pouco mais, não sei ao certo, entre risos e prosas.
De repente para um carro em frente ao portão e ela me diz:
– É o meu pai. Tchau, Márcio.Untitled2
E depois dessa sexta-feira, quem ficou com a cabeça perturbada fui eu. Estava encantando pela beleza da Márcia, até aquele momento eu ainda não tinha visto tanta delicadeza em uma moça, ela me deixou fascinado, o meu coração ficou apertado, e eu fui pra minha casa muito emocionado.
– Meu Deus, que momento feliz que vivi ali no pátio da faculdade!
Eu só pensava na próxima segunda-feira, e me perguntava em cada minuto: será que ela tem namorado, será que haverá um novo encontro?
Que fim de semana demorado foi aquele… mas passou.
Untitled3 É segunda-feira, lá eu estou sentado na mureta no mesmo lugar, ansioso para encontrá-la novamente. De repente ela passa por mim, mas não me viu, vestia uma calça jeans e uma blusa verde folha, com os cabelos jogados no ombro esquerdo… Meu Deus, quanta beleza em um único ser! Acho que não sou digno… Então ela caminhou na mesma direção e sentou-se no mesmo lugar da sexta anterior.
Saí andando bem devagar e fui em sua direção, parei então à sua frente:
– Oi, Márcia, tudo bem, como foi seu fim de semana, alguma novidade?
– Não, nada diferente do normal, não saí de casa, não tinha motivos para sair.
– E daí, a cabeça não doeu?
Nós dois sorrimos juntos, e que sorriso de felicidade, um breve silêncio e a resposta.
– Não, Márcio, não doeu, mas se doer o meu anjo da guarda está ao meu lado para me socorrer.
E novamente um belo sorriso se estampou em nossa face.Untitled4
E assim nossos encontros foram acontecendo ali na faculdade, os dias se vão.
14 de novembro
Quantos momentos, quanta gente bonita, moços e moças haviam ali naquela faculdade, mas ninguém mais pôde nos separar, eu só tinha olhos para ela, e ela só tinha olhos para mim, entre nós nasceu um grande amor que seria inseparável.
Não deu mais para segurar a barra, eu tinha que selar aquele amor, aquele namoro com a aprovação dos seus pais, então me decidi.

– Márcia, diga para seu pai que domingo eu irei até sua casa, quero conversar com ele sobre nós.
– Que bom Márcio, já falei com eles a seu respeito, quer dizer, a nosso respeito, eles querem mesmo te conhecer.
E no domingo fui até a sua casa e ela já me esperava, abriu o portão e eu entrei com o carro a pedido dela, a casa ficava bem no alto, que bela mansão e lá no alto estavam seus pais, na varanda que dá acesso à sala. Confesso que minhas pernas nesse momento sentiram o peso do meu corpo e tremeram. Éramos ainda muito jovens e o nosso compromisso com o estudo era muito sério, o momento era difícil, não sabia qual seria a reação de seus pais.
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Márcia pegou em meu braço e me apresentou a eles.
– Esse é o meu pai, e esta minha mãe.
– Muito prazer rapaz, eu sou Ângelo e esta é minha esposa Ester.
– Obrigado por me receberem, o prazer é todo meu em conhecê-los.
Fui convidado a entrar, e confesso que fiquei encantando, tanto com a belíssima casa, quanto com os pais de Márcia.
Fiz o que deveria fazer e sai dali muito feliz, tivemos a aprovação do nosso namoro.
Seu Ângelo e a dona Ester me deram alguns conselhos muito bonitos e profundos, que guardei por toda minha vida. Eu e a Márcia não precisaríamos nos preocupar com o lado financeiro, nossos pais tinham uma situação financeira bem privilegiada e nos ajudariam em tudo aquilo que fosse preciso. Precisaríamos sim nos preocupar com nossos estudos, com o diploma, foi essa recomendação que nos deram. A medicina era um sonho de todos.
Foi uma longa espera, mas os anos se foram e finalmente, que felicidades para todos, somos agora diplomados em uma faculdade renomada. Somos agora o Dr. Márcio e a Dra. Márcia. Casamos e saímos felizes em lua de mel, fomos pra Europa e ali ficamos cinqüenta e quatro dias.
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Quando voltamos, que surpresa tivemos de nossos pais, uma bela clínica toda nossa estava a nossa espera.
E assim eu e a Márcia começamos a nossa independência financeira, aos poucos fomos ficando conhecidos, nossos clientes aumentavam a cada dia. Os anos se vão e foram muitos, cabelos grisalhos, calvície, cansaço, pouca audição, vista fraca, a pele perde o brilho e a elasticidade, aparecem as rugas, os desejos desaparecem, o sono foge da cama, o apetite quase acaba, o corpo surrado começa a adoecer, nossos sonhos começam a desaparecer, são os sinais dos longos anos, da nossa velhice.
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Se durante a nossa vida não fizermos uma boa semeadura, na nossa velhice nós não teremos frutos para colher ai seremos um velho moribundo e abatido andando pela casa ou talvez deitado em uma cama sem ter uma boa lembrança da vida. E a lei natural das coisas que acontecerá conosco se não semearmos uma boa semente.
Hoje na minha velhice, quantas lembranças boas tenho da vida, quantas lembranças tenho da minha clínica que hoje é dirigida por meus filhos, são quatro, três médicos e uma médica. Veja as palavras que um dia Jesus disse para seus seguidores: “O olho é a candeia do corpo, se o teu olho for bom todo o teu corpo será luminoso, mas se o teu olho for mal todo o teu corpo será trevas”.
A doutora Márcia só tinha olhos para o amor, ela nunca olhou o lado financeiro dos doentes, ela olhava sempre a dor e o sofrimento que as pessoas sentiam. E confesso que fizemos muita caridade para os pobres. Como era bondosa a doutora Márcia.
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Uma dor de cabeça, um simples dipirona foi o inicio de um grande amor, um amor que teve sessenta e um anos de convivência, só o destino pode separar, já faz dois anos, mas parece que foi ontem.
18 de janeiro
Eu estava andando pelo jardim e a empregada veio me chamar, me disse que a Márcia queria me ver, fui até o quarto, ela estava deitada, não estava boa e me disse essas palavras.
– Meu velho, eu quero tirar uma foto com você”.
Sua voz quase não saiu, um soluço embargou a minha alma, eu disse que ia até a cozinha tomar água e voltaria para tirar a foto. Eu sai pra não chorar na sua presença, e chorei amargamente no quintal para que ela não me ouvisse soluçar, voltei para o quarto, ela na beira da cama, eu sentei a seu lado e fomos fotografados.
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Ela se deitou e me disse para lhe trazer algumas gotas de dipirona porque sua cabeça doía um pouco, lhe dei o remédio, sai pra fora e chorei novamente. Nesse momento o meu pensamento viajou e eu entrei no túnel do tempo, a lembrança me levou La no pátio da faculdade quando eu a conheci, com uma dor de cabeça e lhe dei o mesmo remédio.
Logo em seguida a empregada me chamou no jardim novamente, entrei no quarto e me deparei com a cena mais triste da minha vida, foi a sua despedida. A bondosa doutora Márcia estava morta.
Uma dor de cabeça e um simples dipirona uniu um amor que brindou bodas de ouro e uma década e mais um ano. E uma dor de cabeça e algumas gotas de dipirona foi a nossa despedida. Essa foi uma longa história de amor.. Que Deus nos abençoe e até a próxima se assim nos permitir.





Mundo Colorido

1 08 2016

Oi gente, um forte abraço. O nosso último texto foi “Amor de Estações”. Veja a nossa nova mensagem.
Vinte e quatro de maio, dezesseis horas e vinte minutos; eu estava dando os retoques finais em um carro, era uma sexta-feira para terminar o serviço eu precisava de uma peça, fechei a oficina e fui até a loja de acessórios comprar o que precisava, vinha bem devagar andando pela calçada já com a peça em minha mão, um pouco mais a frente vi uma cena que me comoveu, era um rapaz tentando a força colocar uma moça em seu carro. Me aproximei e perguntei para a jovem que gritava por socorro. “O que está acontecendo?”. Essa foi sua resposta, “Esse homem quer me colocar em seu carro a força”. “Ah, é isso então rapaz? Se você não deixá-la em paz eu chamo a policia, ou eu mesmo posso resolver essa situação”. O moço não reagiu, saiu em disparada.
A jovem chorava muito, escondendo o rosto nos cadernos. “Não tenha medo senhorita, eu só quero lhe ajudar, qual é o seu nome?”. “Eu me chamo Juliana”. “Vejo que está com alguns cadernos e alguns livros em suas mãos, vem da faculdade?”. “Sim, eu estou vindo da faculdade”. “Meu nome é Roberto, se você não se incomodar eu posso lhe acompanhar em sua caminhada, é claro, se você se sentir bem com minha presença”. “Não, eu não vou me incomodar, de modo algum, porque assim fico mais tranqüila”. “Deixe-me levar o seu material, vejo que você está muito abatida”. “Ah sim, é muita gentileza da sua parte”. “Sua faculdade é longe?”. “Não, daqui nós podemos avistá-la”. Apontando a mão me mostrou. “E a sua casa é longe?”. “Não, fica a seis quadras daqui, a minha caminhada da faculdade até minha casa da no máximo uns mil metros”.
E assim caminham juntos Roberto e Juliana pela calçada sem nenhuma pressa. Em alguns momentos alguns sorrisos em outros o silencio, só o silencio e uma troca de olhares.
“Porque você faz essa caminhada a pé?”. “Caminhar é uma recomendação do médico para mim e esse lugar não é perigoso, aquele moço deveria estar drogado, nunca antes nada de ruim me aconteceu”. “Eu vejo que você é mecânico pois está com uma roupa de oficina”. “Sim, sou um mecânico, um moço pobre, nunca pude ingressar em uma faculdade sempre tive que trabalhar muito para sustentar a casa, meu saudoso pai era muito doente, minha mãe também já se foi e me deixou saudades. Moro sozinho não muito longe da sua faculdade”.
E finalmente os dois estão passando em frente a uma bela mansão e a moça para “É aqui que eu moro”. “Nossa Juliana, essa é a sua casa?”. “Sim, porque você está assustado?”. “Meu Deus, que casa linda, que mansão imponente Juliana, você é muito rica, o que que eu estou fazendo aqui com você?”. A moça da um lindo sorriso e coloca a mão no ombro de Roberto e diz olhando em seus olhos com uma humildade que comove o rapaz. “Que isso Roberto, rico e pobre são iguais, todos são filhos de Deus”. “Você deve ser muito feliz, morando nessa bela casa”. “Felicidade é outra coisa, não é riqueza que vai trazer sua felicidade ou a pobreza que impedirá você de ser feliz. Felicidade é algo que nasce do amor que temos em nossos corações Roberto”.
E nesse momento surge um carro extremamente luxuoso e entra na garagem. “Aquele é o meu pai”. E no momento um cidadão ricamente vestido vem ao lado. “Oi pai, esse é Roberto, ele, esse moço me livrou das mãos de um homem que queria me colocar no carro a força”. Que Deus te abençoe meu jovem, por ter ajudo a minha filha, vamos entrar, tomar uma bebida, conversar um pouco”.
“Desculpe, mas eu preciso ir embora”.
“Tudo bem, eu lhe agradeço novamente, sinta-se a vontade”.
Dizendo essas palavras seu Otavio sai e deixa ambos sozinhos.
“Roberto eu quero te ver mais vezes, vai La na faculdade segunda-feira me buscar, eu vou te esperar”. Os dois se despedem e o moço está encantando pelo modo que foi recebido por seu Otavio e também fascinado por Juliana.
Segunda-Feira, dezesseis horas, lá está Roberto no portão da faculdade, a moça chega e os dois caminham juntos, mas não vão de imediato para a bela mansão onde mora Juliana, vão dar um passeio, andam pela cidade e depois vão a uma sorveteria e em seguida rumam em direção a uma praça e ali ficam por duas horas e vinte minutos. A moça não tem pressa de ir embora, seus pais já sabiam que o horário da chegada nesse dia seria outro. Roberto idem, também não tem nenhuma pressa de sair de perto de Juliana.
Os dois estão felizes, brincam, sorriem como duas crianças. Já está anoitecendo é o momento de irem embora, Roberto pede pra moça fechar os olhos, vai até o maio do jardim e apanha duas rosas vermelhas e coloca nos cabelos de Juliana. “Agora você pode abrir os olhos, o que é que você tem em seu cabelo?”.
A moça passa a mão e diz “São duas flores”. Roberto desliza as mãos nos cabelos longos e negros de Juliana e tira as duas flores e coloca nas mãos da moça. “Roberto, rosas vermelhas são as flores que eu mais gosto”.
O mecânico pede o caderno de Juliana e vai folheando lentamente e desfolha também uma rosa e coloca em cada folha do caderno uma pétala da linda flor.
“Essa flor você vai levar para escola sem que ninguém perceba e essa outra você vai colocar em um vaso e enfeitar sua linda sala”.
O coração de Juliana está transbordando. Nas horas que o casal ficou ali, nenhum beijo ou abraço foi visto pelas pessoas que por ali caminhavam, apenas risos e felicidades. Esse foi o segundo encontro de Roberto e Juliana, a moça sempre viveu em meio à alta sociedade, estudou nas melhores escolas, mas nunca conheceu um moço tão amável como Roberto.
Vinte e sete de maio segunda-feira dia de aula o rapaz não consegue esquecer aquele encontro, não dorme, não consegue trabalhar com atenção no que faz, sói pensa em Juliana, mas quer evitar um novo encontro, os dias se passam trinta de maio já é quinta-feira três horas e dez minutos o telefone toca é Juliana. “Oi Roberto, amanhã já é sexta e já fazem oito dias que nós nos conhecemos e você não veio nem um dia pára me levar até a minha casa, por todos esses dias eu te esperei”. “é que eu ando muito ocupado, não tenho tempo para sair da oficina Juliana”.
“Será tempo mesmo ou você não quer mais ser meu amigo?”. “Não, não é isso, bem que eu gostaria mas eu não posso, eu não devo ser seu amigo Juliana, eu já sofri muito e não quero mais sofrer, não quero mais sonhar com algo que não é para mim”.
E assim foi vários telefonemas mas Roberto não ia se encontrar com a moça. Motivos: mundos diferentes, medo de sofrer, as lembranças de um antigo amor que lhe trouxe muita dor por ele ser pobre. Um romance que terminou sem ter um adeus. Patrícia foi o seu primeiro amor, era uma moça rica que também amava Roberto mas não teve a permissão do namoro e foi levada para longe e o moço nunca mais pode vê-la. Por todos esses motivos o mecânico queria evitar um novo relacionamento amoroso com Juliana que era também uma moça rica.
Quatro de junho Roberto está trabalhando e o telefone toca novamente é Juliana “Oi Roberto tudo bom com você?” por todos esses dias após a aula eu te esperei, mas você não apareceu, amanhã eu vou novamente te esperar, talvez essa será a minha ultima vez que eu te esperarei, lá naquela praça perto da faculdade, as quatro e meia, não esqueça, precisamos conversar”.
E no horário marcado por Juliana, lá estão juntos Roberto e Juliana após vários dias e vários telefonemas. “E Roberto por todos esses dias eu te esperei pra você me levar até a minha casa, mas você não apareceu”. “Juliana, eu não devo mais me encontrar com você, pobre e rico não da certo Juliana, eu não devo ser seu amigo, você deve ser amiga de um moço rico, Juliana você é uma moça já quase diplomada, uma linda mulher, inteligente, meiga e muito bondosa, eu Juliana sou um caboclo, um simples mecânico, sou um homem pobre você deve se casar, Juliana com um moço rico, eu nunca poderei te dar felicidades”. “Você não é pobre Roberto ai dentro do seu coração tem uma imensa riqueza”. Eu sei que você gosta de mim e eu também gosto de você Roberto já é hora de assumirmos essa realidade. Eu não preciso de riqueza Roberto a riqueza meu pai já me deu, a sua fidelidade, o seu amor será a minha maior riqueza, Roberto a maior riqueza que um homem poder dar a uma mulher é o amor e a fidelidade”. “Algumas lagrimas serenas deslizam pela face de Roberto e Juliana. Um abraço e o primeiro beijo, as arvores, os pássaros e as flores presenciaram um lindo amor que estava nascendo em dois corações.
Cinco de junho nesse dia iniciou-se um relacionamento afetivo entre Roberto e Juliana. Dias depois o jovem é levado pela moça para que ele conheça melhor a sua família.
Roberto é recebido com muito carinho pela família, mãe e pai, Otavio e Helena. O namoro tem total aprovação. Porém, deve ser com muita seriedade, Juliana era filha única e muito amada por seus pais.
Dois anos se passaram, a felicidade inundava os corações de Roberto e Juliana, o mundo era colorido de azul e rosas, tudo era felicidades.
Finalmente chega o dia do casamento os dois se casam e vão morar na casa onde Roberto sempre morou com seus pais. Juliana não tinha vaidades era uma moça com pureza em sua alma e não exigiu de Roberto uma casa de mais conforto. Era feliz vivendo ao lado de Roberto naquela casa pobre.
Três anos se passaram os dias pareciam voar e os dois viviam como se ainda estivessem em plena lua de mel, em um mundo colorido.
Quatorze de agosto, esse dia porém começaria uma nova historia na vida do casal.
A oficina está fechada apenas a porta do fundo está aberta, o mecânico esta limpando o almoxarifado bem distraído quando para um carro no pequeno pátio em frente sua oficina, para ele tudo normal, e continua limpando o cômodo que está bem bagunçado. O rapaz vira o corpo para pegar um objeto e se depara com uma cena que parece não ser real.
Não é possível, estou sonhando, não pode ser. Roberto quase tem um AVC, quem é que está de pé na porta, Patrícia a sua primeira namorada o seu antigo amor.
“Oi Roberto, como você está, tudo bem?”.
“Tudo bem, e com você está tudo bem?”
“Sim, tudo certo… nossaquantos anos já se passaram hein Roberto?! Hoje sou uma mulher casada, tenho dois filhos, o tempo passou os nossos sonhos de amor ficaram no passado; eu estou aqui para me despedir de você para sempre Roberto! Nosso amor foi tão lindo mas não tivemos uma despedida, meu pai não aceitou o nosso casamento porque você era um moço pobre, me levou embora para bem longe, nos separando, mas, eu sempre dizia comigo mesma que um dia eu voltaria para te ver e te dizer adeus para sempre.Uma tão linda historia não poderia ser simplesmente soprado longe pelo vento, esquecida ao pé de uma árvore, mergulhada à melodia de uma velha canção, já perdida e abandonada pelo seu próprio compositor… não Roberto, amor verdadeiro não se extingue assim…não se acaba…recordarei sempre! E um dia, quando muito velha já, viajarei nessa longa, triste e fria tarde , e ao abrir o baú de minhas recordações, só o que terei será saudades! Hoje estou aqui bem na sua frente para te dizer adeus para sempre. Roberto você foi o meu primeiro amor, você é um homem maravilhoso, o homem que sempre sonhei em ter ao meu lado, mas o destino não nos uniu simplesmente por você ser um moço pobre, talvez seja essa a última vez que nos encontramos, moro muito longe, estou de passagem, mas você ficara eternamente em minha lembrança”.
“É Patrícia, quanto tempo já se passou, eu, com apenas dezoito anos, praticamente um menino, começando a viver, quando te conheci, como eu te amava, e assimforam três anos de namoro escondido. Meu Deus quanta felicidade! Sei que você ainda se lembra dos planos que fazíamos, dos nossos sonhos de amor, sei que você ainda se lembra das nossas aventuras e do nosso namoro escondido, e ainda está na minha lembrança os momentos felizes que vivemos. O nosso mundo era todo colorido. Mas o destino não nos uniu como você disse, seu pai tirou você de mim, dos meus braços de um jeito brutal assim como um homem maldoso tira o doce de uma criança, assim como uma pessoa má que não vê a beleza de uma flor e a esmaga com ira , a joga pelo chão e nem percebe o perfume que as flores tem. Assim ele fez com o nosso amor, destruiu sem piedade. Mas não tenho magoa dele, ele é seu pai. E tudo isso por eu ser um moço pobre. Para nos separar ele te levou para bem longe e ficou em meu coração a tristeza, a saudade, a amargura e a solidão. Patrícia, você também foi meu primeiro amor, hoje também sou um homem casado, não tenho ainda filhos e amo muito minha esposa, esse será realmente nosso último encontro, mas você estará eternamente nas minhas lembranças.
Já está quase escurecendo e Juliana está preocupada com Roberto, pois ele nunca chega depois das dezenove horas e resolve ir até a oficina que não é muito longe; sai em passos bem apressados. Nesse momento lá no almoxarifado Roberto e Patrícia vão se despedir para nunca mais, um eterno adeus. Os dois se abraçam como duas pessoas que se amam e do abraço carinhoso surge um ardente desejo de um doce beijo e assim movido pela emoção e pelas lágrimas os dois se beijam com ternura. Nesse momento chega Juliana e acha estranho aquele carro de longa distância no pátio da oficina que esta só com a porta do fundo aberta. Vai pelo corredor em passos bem lentos e flagra a cena cinematográfica do beijo. Sendo ela uma mulher de cultura elevada, uma mulher com muitas virtudes não quis fazer escândalos, volta na ponta dos pés e vai embora sem que ninguém perceba. Chega em casa, faz uma mala e vai para casa do seu pai. Após deixar um bilhete com os seguinte dizeres: “Roberto eu sempre te disse que sua fidelidade seria a minha maior riqueza, vou embora para casa do meu pai, por favor eu te peço, nunca mais me procure”.
Roberto volta para casa e não encontra Juliana, a casa está vazia, mas encontra o bilhete. Sai em desespero e vai até a casa de seu Otavio mas não é atendido, volta, o mundo desabou encima da sua cabeça. A dor é tanta que sufoca a alma, sua angústia o abate até os céus. Não há remédio que possa curar a sua dor, nada poderá lhe dar consolo. Ao amanhecer o dia seu Otávio leva sua filha para passar algum tempo na casa do seu irmão que fica a trezentos km de distancia até que tudo se normalize.
Onze meses já se passaram Roberto está inconsolável com a separação mas nada pode fazer para provar sua inocência. O mecânico está na oficina consertando um carro muito abatido de cabeça baixa quando chega um amigo muito íntimo e lhe dirige essas palavras. “Porque você está triste Roberto?”.
“Porque acha que estou triste? Minha vida acabou amigo”.
“Eu acho que não, a esperança nunca pode morrer em nossos corações”.
“Por que você me diz isso”?
“Ela voltou, eu a vi”.
“Ela quem?”.
“Juliana, oras!”.
O rapaz quase tem um AVC, as ferramentas caem de suas mãos. Roberto está estático.
“Você tem certeza disso?”.
“Eu a vi quando seu pai a deixou no portão da sua casa com uma mala na mão”.
Três dias depois Roberto vai tentar sua última sorte, sua última esperança vai ser colocada em jogo, vai escrever pra Juliana uma carta de amor. E assim…
Juliana:
Meu inesquecível amor, não sei se você vai ler a minha carta, mas, se chegar a ler desde já eu quero suplicar lhe que me perdoe . Quando você foi embora, levou consigo a minha felicidade, sem você a vida não tem sentido, sei que sabes o quanto eu te amo como é lindo o nosso amor, o nosso mundo é todo colorido Juliana! Ainda sou o seu rei e você sempre será a minha rainha e que sem você aqui o nosso castelo desmoronou.Feliz serei, se tiver novamente em meus braços corpo tão adorável, exalando em minhas narinas tão suave perfume. E então minha flor, terei o prazer de regar mais linda rosa, com esse amor que emana e transborda do jardim chamado coração…transborda, escorre, suplica o seu perdão em forma de orvalho, transformado em lágrimas! Amo- te! Amo- te demais pra suportar viver sem sua presença sublime! Me perdoe meu amor, volta pra mim!!!
E no final da carta ele explicou o motivo da cena do beijo.
Dois meses se passaram, era domingo de manhã, o mecânico está sentado, pensativo e nesse momento o telefone toca. Era Juliana!
“Oi Roberto, como está, tudo bem?”.
“Estou vivendo por viver Juliana, minha vida não tem mais sentido sem você”.
“Mais tarde eu vou até a nossa casa para termos uma conversa, eu li a sua carta e confesso que ela me deixou comovida”.
Roberto fica eufórico, arruma toda casa, coloca as cortinas na janela, pois elas estavam no fundo do baú há muito tempo, coloca flores sobre a mesa, as flores que ela gosta, rosas vermelhas. E as horas vão passando o dia parece uma eternidade, Roberto está impaciente, não vê a hora de Juliana aparecer frente a porta.
São duas horas, para um carro em frente à sua casa, dele desce seu Otavio, Dona Helena e finalmente Juliana. Todos entram pelo corredor e chega à porta. Seu Otavio cumprimenta Roberto, Helena também pega em mão e o cumprimenta. Todos entram, sentam e depois de alguma conversa Juliana olha bem nos olhos de Roberto e diz com um terno olhar. “Eu te perdôo”. Por um instante um silêncio, a comoção toma conta de todos que estão ali, os dois se abraçam com um abraço caloroso. Colocando assim um final feliz encima de uma solidão angustiante. A carta de amor salvou o seu casamento.
Roberto, um moço pobre, um simples mecânico, que não cursou nenhuma faculdade mas tinha em seu coração uma cultura invejável, a cultura do amor. Amou duas moças ricas, foi amado pelas duas, bebeu dois cálices amargos, foi feliz as duas vezes que amou e vive atualmente com Juliana um amor imarcescível, em um mundo colorido! Fiquem com Deus e até a próxima, se Ele assim nos permitir!





Paraíso Ameaçado

1 08 2016

Oi gente, um forte abraço. O nosso último texto foi “Sela de Prata”. Veja a nossa nova mensagem, e novamente em forma de conto.
O Sr. Mattos Alves de Oliveira é o último remanescente de uma família que desbravou parte do sertão de Goiás, quase divisa com o Estado do Mato Grosso.
Alves, como é chamado por todos, é proprietário de um pequeno sítio com onze alqueires de terra. A propriedade do Sr. Mattos é, por assim dizer, uma parte do paraíso na terra; a beleza daquele rincão sertanejo sequer pode ser descrita.
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Foi nesse pedaço de chão abençoado por Deus que ele e sua esposa, Dona Júlia, criaram seus quatro filhos; e com muito trabalho, de sol a sol, que três deles se formaram. O primogênito, José Roberto, cursou medicina eexerce seu ofício atualmente na cidade de Goiânia; Ester é arquiteta, mora na cidade de Itumbiara; já Henrique formou-se farmacêutico e trabalha em laboratório, também na cidade de Goiânia. O caçula da família, Manoel, que por todos é tratado como “Manoelito”, mora com os pais no Sítio Paraíso; não quis sentar-se nos bancos de uma faculdade, dizia que ficaria na casa dos pais para cuidá-losna velhice, e cuidar do sítio, pois, para duas pessoas de idade, o serviço se torna bem pesado; comprometeu-se em ficar e cuidar dos pais, pois sabia que ambos jamais deixariam aquele rincão sertanejo para morar na cidade com qualquer um dos filhos que fosse.
Manoelito era muito amoroso, mesmo não sendo filho biológico, isso nunca fez nenhuma diferença na vida daquela família, zelava com carinho dos pais e do sítio que era o orgulho da família. A paz reinava naquele pedaço de chão, e ali vivia uma família feliz. E para completar aquela felicidade, os donos da fazenda vizinha, que fazia divisa com o pequeno sítio, era um casal bondoso e amicíssimo da família Alves, o Sr. João e a Dona Antônia.
O sol da felicidade brilhava naquele lindo céuazul, e assim foi por muitos anos.
Porém, existe um ditado que diz assim, “não há mal que sempre dure, não há amor que não acabe”. A vida é cheia de imprevistos, nunca sabemos o que nos espera na próxima esquina. Com o Sr. Mattos e família não poderia ser diferente.
Foi numa manhã de Domingo, 18 de Março…
Alves estava no estábulo tirando leite, D. Júlia estava fazendo pães e Manoelito cortava cana para tratar dos animais, quando a notícia chegou por meio de um moço que seu João havia falecido na madrugada, de infarto fulminante.
A partir desse dia, as coisas começariam a mudar para a família Alves. Uma semana depois outra notícia, D. Antônia, para não ficar sozinha, foi morar com o filho em Campo Grande, e vendeu a fazenda para um latifundiário, o maior criador de gado de Mato Grosso, o senhor Gutièrre Andrade, homem sagaz e obcecado por invernadas, seu objetivo era o único e exclusivo de criar gados.
18h21m, Sexta-feira, 14 de Maio…
É fim de tarde, o astro luminoso já se debruça por detrás das altivas montanhas, a família Alves está na varanda descansando quando avistam um carro de luxo vindo na direção da casa.
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O carro para defronte à varanda, as porta se abrem e duas pessoas descem.
– Boa tarde, eu sou Gutièrre Andrade, e esse é meu filho Renan, sou seu novo vizinho, comprei a fazenda ao lado, que faz divisa com suas terras, e por isso venho cumprimentá-lo, imagino que o senhor seja Mattos Alves de Oliveira, certo?
– Sim, sou eu mesmo, e essa é minha esposa, Julia, e esse émeu filho caçula, Manoelito.
– O que pretende plantar em suas novas terras, Sr. Andrade?
– Vou transformar a fazenda toda em invernada, o meu negócio é criar gado.
– E o senhor, seu Alves, o que cultiva em sua terra? Quantos alqueires têm seu sítio?
– Terra mecanizada são apenas oito alqueires, não tenho muitogado, de pastosó dois alqueires,e um alqueire é um belo pomarcercado por mato, ao todo são onze alqueires.
– Há muito tempo que tem esse sítio?
– Eu sou a quarta geração da família que viveu nesta terra, meus pais, avós e bisavós foram os donos anteriores, é uma herança de família que pretendo passar também aos meus filhos, mesmo que usem apenas para passar seus fins de semana, já que todos têm sua própria profissão.
Mais alguns minutos, um cafezinho, um “boa noite”, pai e filho entram no carro e saem bem lentamente. No carro pai e filho conversam: “Vou comprar esse sítio, você viu que belo rio tem lá na divisa? vou levar a invernada até lá, é ali que vou fazer o bebedouro do meu gado!”, diz o pai, ao que o filho retruca: “Pelo que vi o senhordessa vez não vai conseguir aumentar sua fazenda, meu pai, seu Alves parece que não tem interesse em vender o sítio”.
– Meu filho, aprenda com o paizão aqui, sou um homem poderoso não por acaso, e não vou perder essa parada, o dinheiro fala alto, de um jeito ou de outro esse sítio será meu!
18 de Julho
Novamente Gutièrre aparece frente à varanda.
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Boa tarde, hoje eu vim em seu sítio especialmente para lhe fazer uma proposta, gostaria de comprar suas terras, seu Alves.
– Meu pedaço de chão não está à venda, seu Andrade.
– Mesmo que me desse sua fazenda repleta de gado eu não faria a troca, eu não teria a aprovação da minha família e eu também não tenho interesse em sair daqui, pois eu apagaria de minhas lembranças a memória dos meus antepassados.
– O senhor tem esse direito, a terra é sua. Boa tarde e até mais, seu Alves, caso mude de ideia, me avise.
Dizendo essas palavras, Gutièrre e seus dois guarda-costas sobem na caminhonete sob os olhares espantados da família Alves. Na caminhonete a conversa muda:
“É, meus amigos, terei que me utilizar de outros meios para adquirir essa propriedade”, disse Gutièrre para os dois criados que o acompanhavam.
E dali em diante, o paraíso da família Alves, que já vinha da quarta geração, passou a ser ameaçado. De madrugada os cachorros latiam, no dia seguinte, cerca derrubada, animais desapareciam, e assim foi por muitos dias, coisas estranhas e aterrorizantes aconteciam diariamente no Sítio Paraíso.
Novas propostas vinham até seu Alves, novas recusas iam até seu Andrade. A família Alves percebia a maldade de seu Andrade, mas preferia deixar que o tempo, apenas o tempo, trouxesse solução para o caso.
A família Alves tinha esperança de que um dia o sol dissiparia aquela nuvem negra que pairou no ar e a paz voltasse a reinar novamente em seu sítio.
Os dias se passaram.
19 de Outubro…
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ouvindo a reportagem sobre um acidente ocorrido na BR 364 que liga Goiás até Cuiabá e que um homem por nome Gutièrre Andrade, o rei do gado, estava no hospital entre a vida e a morte, à espera de um doador de sangue do tipo hh, que era raridade, visto que tal sangue que possuí o fenótipo Bombaim; e que, se em três dias não aparecesse um doador, seu Gutièrre morreria com certeza, e diante disso, a família do acidentado daria uma grande soma de dinheiro para o doador que salvasse seu Andrade.
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Manoelito conta para o pai, e o seu Alves fica penalizado, pensativo e diz para o filho: “Esse é o tipo do seu sangue, Manoelito, você pode salvar esse homem”. O moço com sua imensa bondade então não pensa duas vezes e se apresenta no hospital, perante a diretoria hospitalar, dizendo que veio para ser o doador que Gutièrre precisava, pois o seu sangue era do tipo Bombaim. Mas impôs uma condição aos familiares de seu Gutièrre: queria apenas doar e não receber nada em troca, e tudo teria que ficar no mais absoluto sigilo. “O sigilo será absoluto”, responde a junta médica. Todos os exames foram feitos, tudo compatível, o rapaz tinha o mesmo tipo de sangue. E assim Manoelito Alves de Oliveira salvou a vida de Gutièrre Andrade.
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Seu Andrade, após a recuperação, não tinha paz, queria a todo custo saber quem foi o doador que lhe salvou a vida, e após tanta insistência, uma enfermeira foi a válvula de escape para que seu Gutièrre soubesse que foi Manoelito, o vizinho de sua nova fazenda, que lhe salvara a vida.

08h01m, Domingo, 23 de Setembro
A primavera florescia o sertão, a casa de seu Mattos está aberta, todos estão ali bem descontraídos quando um carro de luxo para em frente à varanda que fica bem no alto. Do carro desce Gutièrre, sua esposa,Beatriz, e seu filho Renan. A família Alves sai na varanda e convida a família Andrade para que entrem. Gutièrre é o primeiro a subir, bem lentamente, a escada, cabeça baixa, segurando no corrimão, abre o pequeno portão e é recebido por Manoelito. Seu Andrade não contém a emoção e as lágrimas descendo em seu rosto clamam em alta voz, e em forma de gratidão abraça Manoelito e depois abraça Dona Julia e ali o que se vê entre todos é choro e abraços, e o último abraço foi entre Gutièrre e seu Alves, com um pedido de perdão de seu Gutièrre.
Após a comoção, alguns instantes de silêncio, pois não havia palavras para se expressar diante de tanta gratidão e de tanto amor, Manoelito toma a palavra e diz para seu Andrade:
– Nós, seu Gutièrre, temos o mesmo sangue, o sangue Bombaim corre em nossas veias, mas não tivemos a mesma sorte, o senhor tem centenas de alqueires de terra, centenas de cabeças de gados, tem uma fortuna que causa admiração para qualquer um. Nós, a família Alves, só temos esse pedacinho de terra e apenas quatro vacas leiteiras, o nosso pequeno sítio passa de pai para filho e já é a quarta geração.Esse pequeno sítio foi desbravado com foice e machado, seu Andrade,o trabalho duro é o que engrandece um homem, e não importa o que façamos nessa vida, sem família e sem amor nada somos.
Seu Gutièrre olha embaixo daquele pé de paineira, onde nesse exato momento canta um sabiá, ele está todo florido e sua paina está caindo por toda parte ao seu redor.
Todos que estão ali naquela sala ficam emocionados, o senhor Gutièrre apoia a mão sobre o coração de Manoelito, seus olhos transbordam, e as palavras que deveriam sair de sua boca silenciam-se, e tudo que se vê são lágrimas.
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11 de Outubro
Exatamente quatorze horas e treze minutos, pára um caminhão em frente à casa da família Alvese em cima da carroceria um belo trator vindo direto da agência. O motorista entrega um bilhete para Manoelito com alguns dizeres; – Manoelito, nem toda minha fortuna pagaria a imensa bondade sua e de sua família, mas aceite esse singelo presente. Gutièrre Andrade.
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Dessa vez o dinheiro não falou alto, a ganância foi diluída pela bondade, e assim o sítio da família Alves teve apenas ameaçado o seu semblante paradisíaco, mas não deixaria de continuar a ser o bom e velho Sítio Paraíso.





Amor de Estações

1 08 2016

Oi gente, um forte abraço. O nosso último texto foi “Paraíso Ameaçado”. No alto da colina, uma velha porteira e em um dos mourões um coração não terminado com juras de amor é o que marca o nosso novo texto.

A trezentos metros morro abaixo está a casinha branca onde mora o casal Seu Antonio e Dona Mariana, com seu filho Daniel; pouco mais à frente, cerca de cem metros dali está o casarão do renomado Sr. Romão, o Coronel do Café, com ele sua esposa Elvira e a filha Aline.

Sr. Romão é o proprietário de toda a fazenda, onde Antonio e Mariana trabalham de empregados há alguns anos; seus filhos Daniel e Aline foram criados juntos, brincando pelos floridos bosques da primavera, vendo camélias desabrochar a cada inverno.

Agora na flor da idade, tornaram-se jovens sonhadores, e sentiam na alma um calor que não era só do verão; após tantas estações juntos o amor nasceu em seus corações, para aquecê-los de inverno a inverno.

Foi, porém, sempre dito, que toda luz cria sombras, e como uma nuvem frente ao sol, Sr. Romão não aceitava o romance de sua filha com o filho de seu empregado; entendeu o que se passava quando, certa vez num domingo, foi desligar a bomba d’água que fica há alguns metros da casa e os viu sob a sombra de um salgueiro, trocando juras de amor enquanto Daniel vogava seus dedos por entre os cabelos dourados de Aline, deitada serena em seu colo; não os abordou, antes que pudessem notá-lo fez o que foi fazer e retornou ao casarão, visivelmente tempestuoso proferiu à sua esposa:

– Atente-se bem ao que lhe digo Elvira, não quero nossa filha de gracejos com o empregado, se não fosse por seus pais o estagnaria daqui nesse mesmo momento; (…) Daniel continuará a trabalhar na lavoura, porém, está terminantemente proibido de se encontrar com Aline.

Elvira não ousou responder, pois via em que ira se encontrava Romão, porém, entristeceu-se ao ouvir tais palavras, pois estimava muito Daniel, e não se importava que ele e Aline se apreciassem, muito pelo contrário, sabia que Daniel herdara dos pais o caráter e amabilidade e adoraria tê-lo como genro.

Passados alguns dias, Elvira e Mariana sentem na alma a dor que os filhos estão vivendo por estarem separados sem ao menos se verem de perto. Mariana está limpando a casa com o semblante triste, Elvira pede para que ela se sente:

– “Se não tomarmos uma atitude logo teremos um cortejo fúnebre em nossa casa”.

“Eu concordo plenamente com a senhora, Aline e Daniel estão a ponto de morrerem”.

-“Só há uma saída Mariana, nos momentos em que Romão for à cidade ou estiver ocupado com trabalhos demorados, deixaremos nossos filhos se encontrarem na velha estrada, mesmo que ele algum dia desconfie, não subirá a ladeira sem ter certeza, pois tem muita dificuldade por causa do problema na perna”.

– É uma ótima idéia D. Elvira, e como há muito tempo ninguém vai lá, custará a procurar, e se precisarmos, teremos tempo para apartá-los.

– Com toda certeza.

Dito isto, poucos dias se passaram e Sr. Romão foi à cidade para uma reunião com os cafeicultores da região e só voltaria por volta do cair da noite. Como combinado, D. Mariana e Elvira disseram aos filhos para se encontrar na estrada abandonada, não demorarem muito e é claro, terem juízo.

Ambos, ao ouvirem isso saem imediatamente pela porta, como pássaros que por muito tempo ficaram cativos e um dia encontraram a porta da gaiola aberta, com passos menos acelerados apenas do que seus próprios corações, voavam alto direção à colina da esperança, que depois de tantos dias de profunda solidão, restaurava novamente seus sonhos. Os dois se reencontraram e de mãos dadas sobem a montanha pela estradinha abandonada, chegam ao velho mourão da porteira. O sol parece ter parado para brilhar aquele amor tão lindo de Daniel e Aline. As nuvens parecem estar enciumadas diante de tanta felicidade, as horas, porém, passam rápido, e logo o sol já esta indo embora; chegado o momento de descer a montanha.

Daniel tira do bolso um canivete, desliza-o sobre a madeira e desenha no mourão da velha porteira um coração muito grande, e ali no desenho eles escrevem lindos versos de amor;

“Daniel se esse for o nosso último encontro, esse mourão será por testemunha do quanto nos amamos”.

“Queira Deus que um dia n..

E antes que terminasse de gravar suas juras, Daniel e Aline avistaram ao longe um carro se aproximando da fazenda, era o Sr. Romão!

Ambos descem a colina correndo, e em meio ao caminho se despedem, ainda aos risos de tanta felicidade.

Aline chega em casa antes de Sr. Romão, e este nada desconfia. Este foi o primeiro encontro de muitos que estavam por vir.

Sempre que Sr. Romão estava ocupado, sempre que havia uma brecha, o casal apaixonado se encontrava naquele mesmo lugar, e davam vida nova aos planos de seu futuro juntos.

Certo dia, em uma dessas saídas, seu Romão viu da janela do armazém sua filha saindo de casa, achou muito estranho, e parou o que estava fazendo para segui-la.

Saiu apressado tentando não perdê-la de vista, e mesmo com muita dificuldade começou a subir rumo à estrada abandonada. Já na subida, com muito esforço e já em um ritmo bem menor por causa da perna que sofreu miopatia, seu Romão acaba ficando para trás. Depois de alguns minutos caminhando, persistente, passa pela porteira e alguns metros a frente ouve a voz de Aline chamando por Daniel; fica enfurecido e com o intuito de pegá-los de surpresa move-se o mais rápido que pode em direção à voz de Aline.

O universo porém, parecia se mover mais rápido em prol deste casal, e o que Romão ouviu nada foi além do eco da voz de Aline que ressoou pelas discrepâncias da colina; os dois confidentes já haviam matado a saudade, e o grito que rompeu os céus já era uma despedida, ambos já haviam descido a colina.

Aline já estava em casa, e Daniel também, quando lembrou-se do coração no velho mourão, que não havia terminado da primeira vez que encontrou-se ali com sua amada.

– Vou voltar e terminar de escrever minhas juras de amor, e a próxima vez que ali encontrar-me com Aline, mostrar-lhe-ei para que se alegre.

Deu meia volta, e logo estava novamente frente ao mourão; pegou no bolso o canivete e antes que pudesse escrever uma única letra ouviu o que parecia ser alguém pedindo por socorro.

Achou estranho, mas como ele e Aline sempre se encontravam ali ficou com medo de que sua amada também tivesse voltado e estivesse em perigo.

Saiu correndo e logo ouviu novamente alguém clamando por ajuda; aproximou-se da ribanceira, e agora, mais nitidamente podia ouvir a voz masculina; chegou à borda, abaixou-se e olhou para baixo; seus olhos não podiam acreditar no que via, era Sr. Romão pendurado à borda da colina.

Seu Romão havia corrido rumo à voz, e antes que pudesse perceber, chegou à borda de uma ribanceira, escorregou, e usando todas as forças que tinha arrastou as mãos pelo chão e fez muitas feridas tentando segurar-se, caiu ficando pendurado apenas por algumas raízes, tendo as mãos cortadas, muito ensangüentadas.

Quando Romão viu Daniel disse rapidamente: -“Ajude-me Daniel, minhas forças estão acabando”.

Daniel tinha um bom coração estava sempre pronto para estender a mão para ajudar os outros; dessa vez porém, sentiu uma sensação diferente…





Sela de Prata

10 06 2015

Sela de Prata
Oi gente, um forte abraço. O nosso último texto foi “uma nova inspiração”.

Veja a nossa nova mensagem, em forma de conto.

Mississipi, região dos Estados Unidos da América.

Bem longe da cidade, ao fundo do sertão norte americano, um distante lugarejo por nome Mirotaus; e à 18 km dali, a fazenda de duas irmãs. A primogênita, Virginia, tinha vinte e oito anos, e sua irmã, Diana, apenas treze.

As irmãs trabalhavam duro para manter a ordem e ganhar a vida em cima de suas terras. Duas moças vivendo sozinhas em pleno sertão.

14 de setembro, domingo, 17h23m.

O sol se declina por detrás das montanhas azuis; no céu formam-se riscos avermelhados. Os pássaros em revoada procuram a mata para se abrigar. As irmãs estavam sentadas à varanda quando notam na estrada um homem vindo em direção à sua casa trazendo consigo um cavalo que parece estar trôpego.

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O homem se aproxima, passando pela porteira entreaberta.

– Com licença, desculpem-me por ir entrando assim de repente em suas terras, mas meu cavalo pisou em falso e torceu a junta; está ofegante e eu como venho caminhando também já estou muito desgastado, para ser sincero, estou a ponto de desmaiar e ainda tenho um longo caminho a percorrer; preciso de estadia por alguns dias, apenas para cuidar do meu cavalo e depois irei embora.

Dizendo estas palavras, puxou da guaiaca um punhado de dólares:

– Eu posso pagar a estadia, ficarei no celeiro, ou sob qualquer teto que melhor lhe convir, e comerei qualquer coisa que a senhorita puder me oferecer.

– Isso é muito inusitado, dê nos licença por um momento.

As irmãs estão assustadas diante da situação, pedem licença para o viajante e se afastam a uma distancia em que o rapaz não ouviria a conversa. Virginia diz para a irmã:

– O que faremos? E Diana responde:

– Ele me parece ser uma boa pessoa.

Sim, nós podemos estar diante de um homem bom, ou também estar perante um criminoso, um bandido. – Conclui Virginia”.

E diante da difícil situação, ambas resolveram deixar que o moço ficasse ali aquela noite.

– O senhor pode ficar por hoje, já esta escurecendo e não há como você cavalgar com esse cavalo, pode dormir lá no porão, ali é o lugar que o meu pai descansava, tem tudo o que você precisa para dormir uma noite. Amanhã veremos o que pode ser feito.

O rapaz agradece, coloca o cavalo no estábulo e segue rumo ao porão. As irmãs entram na casa e trancam a porta.

As horas passam, é chegada a hora de dormir.

15 de setembro, segunda, 05h02m.

O vento sopra as cortinas pelas janelas entreabertas, as irmãs dormem um sono profundo; em pouco tempo, o vento vai aumentando e com poucos minutos forma-se um forte vendaval; o barulho acorda as irmãs.

Idem, 06h11m.

Alvorece o dia, o vento passou. Virginia e Diana saem e se deparam com a catástrofe. Parte do telhado foi arrancado e jogado ao chão. O estábulo ficou todo danificado, o galpão ficou sem as janelas e uma parede foi derrubada; havia telhas e pedaços de madeira por toda parte. O desespero das irmãs afligia o coração.

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O rapaz sai do porão e se depara com a cena, se aproxima de Virgínia e pergunta:

– O que houve?

– Você não acordou com todos aqueles estrondos?

– Não me coibi dizer que não, pois desmaiado estava de cansaço.

As irmãs dizem para o moço que um forte vento causou tudo aquilo, e que não sabiam como consertar tudo aquilo que foi danificado.

– Eu sei bem como usar o martelo e o serrote e posso consertar pra você, se você quiser.

– Devo dizer que não estou muito tranqüila com o senhor por aqui, mas como pode ver, preciso de mão de obra; Não tenho outra escolha, vou te dar um voto de confiança, apesar de não te conhecer.

– Desculpe minha indelicadeza, permita que eu me apresente; meu nome é Johnny Davis Carter, venho de Carolina do Sul e estou indo para o Texas, agora que já me conhece, não fica mais tranqüila? – Diz o rapaz sorrindo.

– As ferramentas e a madeira estão no galpão, pode iniciar o trabalho assim que possível senhor Carter.

– Começarei imediatamente senhorita, apenas mais uma coisa…

– Pois não?

– Eu me apresentei, mas ainda não sei o seu nome, qual vossa graça?

– Meu nome é Virginia Mitchell, e esta é minha irmã, Diana.

– É um prazer conhecê-las.

As moças entram, e o rapaz vai em direção ao galpão.

As horas vão passando e Virgínia escuta durante todo o dia as batidas do martelo e o vai e vem do serrote. Diana está sempre ao lado de Johnny lhe auxiliando no serviço, os dois, conversam e dão muitas risadas; Virgínia está sempre observando e pedindo para que a menina tenha cuidado, pois está diante de um estranho.

28 de setembro, 18h10m.

O moço está dando o retoque final no telhado da casa, a primeira parte já esta reconstruida. Virginia aparece.

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– Parece que a casa já esta arrumada…

– Sim. – responde o cavaleiro.

– Você fez um ótimo trabalho.

– Eu fiz o possível. Meu pai me ensinou carpintaria.

– Então você tem uma profissão.

Sim tenho. – Responde o moço de forma humilde. – Mas meus planos e sonhos são outros, quero ir ao Texas, e viver a vida domando cavalos e corcéis selvagens.

29 de setembro, 07h05m.

Um novo dia surge naquele sertão norte americano, Virginia vai ao porão levar um café para Johnny.

– Bom dia.

– Bom dia Virginia, como está?

– Muito bem, obrigada.

Os dois trocam alguns assuntos e logo surge o silêncio, no ar os olhares se cruzam, e uma pergunta de Johnny:

– O que eu conserto agora, o seleiro?

– Sim, o seleiro.

11 de outubro, 17h15m.

O seleiro também já está pronto, o cavaleiro está lustrando sua sela de prata, a moça aparece.

– O seleiro está ótimo, um bom trabalho, está bem firme, vejo que seu pai lhe ensinou muito bem a profissão.

– Obrigado. Sim ele me ensinou muito bem. – e continuou limpando sua sela.

– Mas que bela sela você tem ai.

– É realmente bonita não é mesmo? Eu a ganhei de meu pai.

– Você se lembra do seu pai, gostava dele?

– Sim, ele era um bom homem. Ainda me lembro de seus conselhos, ele me dizia sempre para nunca fazer o mal, nunca mentir, nunca fumar, nunca beber, sabe? Coisas que todo pai fala, mas que nem todo filho escuta.

– Você não escutou?

– Quase tudo, eu gosto de tomar um bom vinho às vezes sabe?! – Os dois riem.

E em seguida, um breve silencio, uma troca de olhares, um flerte e uma emoção bateu forte em seus corações. A moça sai em silencio, sobe a escada da varanda, suas pernas estão tremulas, naquele momento ela percebe que está diante de um bom homem, um moço trabalhador, gentil e que tem uma alma bondosa. Pela primeira vez ela sentiu a doçura de amar um homem, a presença do amor toca o seu coração.

            04 de novembro, 09h37m.

Quase tudo esta reformado, Johnny está no seleiro cortando a crina do seu tordilho negro, ele vai dar um passeio para testar se o cavalo está melhor. Virginia novamente aparece.

– Você já está terminando o seu trabalho em poucos dias já estará livre

– Estar livre nem sempre significa poder ir adiante, a liberdade é muito mais um estado de espírito do que o direito de ir e vir.

Virginia fica em silêncio…

– Meu pai costumava me dizer isso.

– Você vai mesmo embora? Vai para o Texas domar cavalos?

– Esse é o meu plano e meu sonho há muito tempo.

– Diane vai sentir muito a sua falta, ela se apegou muito a você.

– Eu também vou sentir muito, ela é uma menina muito especial.

[Silêncio]

– E vou sentir falta de você também, Virginia.

A moça fica corada, e Johnny continua:

– E você, vai sentir minha falta?

Sem dar tempo para que ele insistisse na pergunta, ela muda de assunto e sai rapidamente.

– Vou lhe buscar um café.

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16 de novembro, 10h06m.

Tudo está, finalmente em sua devida ordem. É chegado o momento do adeus, da despedida. Johnny está colocando a sela no cavalo, e Virginia está ali perto. Quem olhasse veria sentada naquela varanda uma flor com o coração apertado.

– Vou dar uma volta, para ver se o meu amigo aqui já está realmente bom para seguirmos viagem. – Termina de ajeitar a sela e olha para Virginia.

– Quer vir comigo?

– Nunca andei a cavalo, tenho medo.

– Eu prometo que não vou correr e nem deixá-la cair.

Johnny subiu no cavalo e esticou o braço. A moça colou o pé no estribo e o rapaz a puxou pela mão.

A cavalgada durou mais de duas horas, e o passeio findou-se frente à varanda.

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Johnny desce do cavalo e carinhosamente pega a moça pela cintura e a coloca no solo.

– Gostou do passeio?

– Gostei muito Johnny.

– É Virginia, um cavalo bravo não tem nenhum valor, mas um cavalo domado, manso, tem muita utilidade, leva um homem de um estado para outro, um casal, dois amigos, todos podem passear em um cavalo que foi domado. Eu domei esse tordilho negro na região da Geórgia, e esta sela de prata que eu uso, meu pai ganhou em um torneio lá no Texas, no mesmo dia em que conheceu minha mãe. Eu ainda era criança quando ele me disse que um dia eu poderia ser um grande cavaleiro, ir para o Texas, vencer um torneio e ganhar também uma sela de prata.

– Quando ele me deu esta sela de presente porque o tempo levou embora seu vigor físico e a ele não permitia mais subir em um cavalo, deu-me também sua força de vontade, e um sonho que eu pudesse seguir. E me disse também, antes de me deixar para sempre, que um dia no Texas, com minha sela de prata, carregaria comigo uma linda princesa em meu cavalo.

Os olhos de Virginia enchem de lágrimas.

– Espero que você encontre sua princesa lá no Texas.

– Virginia, não vai ser no Texas que eu vou encontrar minha princesa.

– Então porque você não fica por aqui? Porque não fica aqui comigo?

– Todos os meus sonhos e planos não importam mais, eu abdico a tudo para estar contigo, pelo resto da minha vida. Virginia, aceita se casar comigo?

– É tudo o que eu mais quero.

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Um abraço, beijo infindo, e a completa felicidade. O amor que nasceu na simplicidade daquele sertão não podia ser medido, era mais puro que as águas cristalinas do mar, maior que o número de estrelas no céu, mais bonito que a própria vida.

Jair Garcia Martins (Jair Padeiro) – 06-06-2015