Uma Camponesa

6 11 2017

Oi gente, um forte abraço. O nosso ultimo texto foi “O Retrato da Vida”. Veja a nossa nova mensagem.

Luís Antonio, um cidadão que brindava em meio a sociedade em status bem elevado, era um orador famoso na região, suas palestras arrancavam aplausos da multidão. Este rico empresário no ramo de cosméticos focava suas palestras em estética e beleza feminina, e atraía desta forma enorme público.
Sexta-feira, dezesseis horas, fim de semana, é hora de afrouxar a gravata. Luís Antonio e seu filho Eduardo Augusto entram no carro e seguem rumo à mansão em que residem junto à Madalena, esposa do empresário.
Depois de alguns Km’s percorridos, um carro encosta na traseira da Mercedez do empresário e da um sinal de luz e algumas businadas.
– Filho, aguarde uns minutos, é o Sr. Felipe, um empresário amigo meu.
Luís Antonio coloca o carro no acostamento e desce do veículo, ali, à beira da estrada conversam sem nenhuma pressa de ir embora. Eduardo percebendo que não demoraria breves minutos resolve descer do carro para tomar um ar, anda uns passos, observa os arredores, e avista pouco abaixo dali uma arvore frondosa, cuja sombra por si só já era muito convidativa, e sobre a sombra desta arvore avista uma moça, cujo semblante aparentava demasiadamente cansado.
Eduardo se aproxima bem lentamente e resolve puxar conversa:
– Oi moça, que coisa rara de se ver, uma jovem tão bonita embaixo de uma arvore à beira da pista, está esperando por alguém?
– Estou esperando pelo ônibus rural que vai pra Estrada Cancioneira. Há dez quilômetros de onde eu moro, na mesma estrada tem uma Vila Rural, esse ônibus trás as pessoas de lá pra trabalhar aqui na cidade pela manhã, e leva de volta agora de tarde.
– Fica longe daqui?
– Não muito.
– Entendo… Ah! Que mau hábito meu, estou aqui te fazendo perguntas e nem me apresentei ainda, meu nome é Eduardo Augusto… poderia me dizer seu nome?
– Alice.
– Seu nome é tão bonito quanto você, é um prazer te conhecer Alice!
Os dois se cumprimentam, a moça um pouco tímida com os galanteios do jovem rapaz, e a uns 30 metros dali, os dois empresários continuam conversando como se não houvesse amanhã.
Eduardo então continua seus cortejos à moça:
– Estou realmente encantado, pelas várias cidades as quais passei jamais me deparei com tão pura beleza, jamais imaginaria às margens do asfalto encontrar tão bela flor.
Alice mantém um leve sorriso na boca.
– Fico agradecida… peço porém, que pare com vossos galanteios, pois nada mais me parece querer, além de gracejar de mim.
– Oras, mas claro que não, tudo que sai de mim é sincero como o choro de um recém-nascido, porque diz tais coisas?
Neste momento a menina olha em direção ao veículo no acostamento.
– Aquele carro é de seu pai não é?
– É sim, mas o que há de errado nisso?
– É uma Mercedez! Suas vestes e sua aparência, seu linguajar também não me engana, você diz coisas bonitas com tanta facilidade, logo ve-se que tem muita cultura. O que alguém como você iria querer com uma camponesa como eu? Você provavelmente é muito rico.
– Em partes você está certa, minha família realmente é rica, meu pai é um dos maiores empresários de toda esta região, mas isso não diz respeito ao meu caráter e meu jeito de ser. Eu não tenho todo esse apego que meu pai tem pelo acúmulo de fortuna. Das grandezas da vida o que me cativa são as coisas mais simples, como o canto dos pássaros acima das árvores e o correr das águas de um rio que são suaves e serenas, mas mostram sua enorme força quando suas correntezas se encontram com os rochedos. A natureza e a simplicidade me emocionam, e devo lhe firmar que eu jamais diria tais palavras em vão.
– É realmente bonito ouvir você falar, é como um poeta que coloca toda sua emoção em cada palavra.
– Quem me dera ser um poeta, para que de minha boca, com facilidade saíssem as palavras que emocionam as pessoas. Eu porém não tenho tal dom, toda poesia que me vem à boca neste momento é fruto de uma inspiração….
Alice mostra-se um pouco tímida com as palavras de Eduardo.
Neste momento o pai do rapaz buzina e sem tempo para se despedir Eduardo corre em direção ao carro, com medo de que seu velho se zangue. De longe, embaixo do grande arvoredo Alice podia ver a silhueta de Eduardo acenando através do vidro fumê, que seu pai mantinha fechado por causa do ar condicionado.
– Quem era a moça com quem você conversava?
O rapaz disfarça com perfeição.
– É uma amiga, ela estuda na mesma faculdade que eu.
– Eu vi você conversando com ela e ai eu pensei no dia do seu casamento. Meu filho, quando você se casar eu vou fazer a maior festa da região, parece que eu estou vendo a Igreja repleta de pessoas granfinas e o recinto todo colorido com lindas flores e lá do altar até a porta um tapete vermelho estendido pra você caminhar por cima dele com uma linda noiva, e é claro né, uma moça granfina, filha de doutor ou de empresário bem rico, parece que eu já estou até ouvindo a marcha nupcial da noiva que está indo a seu encontro.
Eduardo não sentia nenhuma emoção ao ouvir o pai proferir tais palavras, pensava apenas na camponesa que acabara de conhecer embaixo daquela arvore à beira da estrada.
No outro dia bem cedo, em sua casa, Eduardo chama sua mãe em seu quarto e diz à ela:
– Mãe, me diz uma coisa, a senhora acredita em amor à primeira vista?
– Meu filho, porque você me faz essa pergunta?
– Mãe, eu conheço tantas moças bonitas e elegantes lá na faculdade, mas nunca me senti atraído por nenhuma delas, mas hoje minha mãe o meu coração se derreteu como cera sobre o sol escaldante, que emoção! Minhas pernas bambearam e eu quase não consegui segurar meu corpo.
– E quem é essa moça que balançou o seu coração?
– Mãe, é uma camponesa.
Dona Madalena fica estática.
– Eduardo Augusto eu não acredito que você foi se engraçar logo com uma camponesa, se o seu pai souber eu não sei o que pode acontecer, ele sonha em ver você se casar com uma moça granfina da alta sociedade, mas não com uma camponesa, o seu pai meu filho é um homem orgulhoso, arrogante, tem mania de grandezas, discrimina as pessoas, não se da bem com pobreza, ele gosta mesmo é de gente rica, gente granfina, ele meu filho jamais aceitará o seu casamento com uma camponesa.
O rapaz nem ouve o que sua mãe fala, está ansioso, esperar passar o sábado e o domingo, e na segunda-feira a tarde pega o carro e segue em direção aquela mesma árvore, e lá está Alice novamente.
– Oi Alice, tudo bem?
– Oi! Tudo bem Eduardo, eu não esperava te ver novamente.
– E eu não esperava ter que passar mais um dia sem te ver.
A moça fica toda tímida com a resposta de Eduardo.
– Olha, eu estou com o carro aqui, são apenas alguns minutos até sua casa, que tal eu te levar pra gente se conhecer melhor nesse meio tempo?
A moça dá um sorriso, o rapaz também sorri. E ela responde:
– Não Eduardo, meu pai acharia estranho e ficaria bravo comigo ao me ver chegar de carro com um rapaz desconhecido.
O rapaz fica meio sem jeito.
– Ah, você tem razão, que idéia a minha…
As palavras desaparecem por alguns segundos, mas um pouco depois Alice sugere:
– Bom, e que tal assim, perto de minha casa tem um rio, você poderia ir lá no domingo e assim podemos pescar um tempo juntos. Você gosta de pescar? Ou melhor, você sabe pescar? – diz a moça sorrindo.
– É claro que eu sei pescar, e aposto que pego mais peixes que você!
Os dois sorriem e que sorriso bonito se estampa em suas faces.
– Então eu vou te esperar no domingo Eduardo, mas com uma condição, se você não pescar mais peixes do que eu você vai ter que deixar o carro e voltar embora a pé certo?!
Novamente um belo sorriso, e o moço conclui:
– Combinado!
Os dois se despedem.
– Até domingo!
O ônibus encosta e a moça vai embora.
Eduardo chega eufórico em sua casa.
– Minha mãe me abraça, me beija, me pega no colo e me diz que eu cresci mais que ainda sou o seu bebê e que você me ama.
– Meu filho que alegria é essa, de onde vem tanta felicidade?
– Eu me encontrei de novo com ela e vou domingo cedo na casa dela conhecer sua família e depois nós vamos pescar.
– No domingo seu pai não vai estar em casa, vai dar uma palestra em uma cidade há uns 200km daqui. Eduardo, eu vou com você, pois quero conhecer essa moça.
Enquanto isso lá na casa de Alice.
– Mãe, sente aqui do meu lado eu preciso lhe contar uma coisa. A senhora acha que é possível um moço rico gostar de uma moça pobre?
– Porque a pergunta, não me diga que você está pensando em se casar com um moço rico. – as duas sorriem.
– Não, não é isso mãe, na sexta-feira como de rotina La estava eu debaixo da arvore quando parou dois carros no acostamento e dois homens granfinos, um de terno cinza e outro de terno preto ficaram conversando, e em seguida um moço desceu do carro e veio ao meu encontro, conversamos por alguns minutos.. ah mãe, que moço bonito, ele me falou tanta coisa bonita, ele parecia um poeta, suas palavras eram ditas com emoção. – a moça dá um suspiro fundo e deita a cabeça no colo da mãe e continua o assunto.
– Eu tenho dezoito anos e nunca tive um namorado, nunca me atraí por ninguém, mas hoje eu me emocionei ao conversar com um moço, confesso minha mãe, que me encantei por um homem.
– E esse moço é rico minha filha?
– Sim, ele é o filho do maior empresário aqui da região.
– Mas conforme a sua pergunta, se um moço rico pode gostar de uma moça pobre a minha resposta pra você é que sim, minha filha, assim como tem gente pobre que gosta de ostentar granfinagem, compram carro financiado, sem ter condições de pagar a prestação, que gostam de viver de aparências, tem também pessoas ricas que não gostam de ostentar, não se exibem para mostrar que são ricas, tem gente rica minha filha que gosta das coisas simples e é possível sim um moço rico gostar e até se casar com uma moça pobre.
– Minha mãe, domingo ele vai vir aqui em casa.
E no domingo bem cedo lá está Eduardo e Madalena, todos se apresentam e se conhecem, entram na sala para conversar e conforme o combinado Alice e Eduardo descem no rio para uma pescaria.
– Eduardo, arrume a sua vara que eu vou arrumar a minha.
Depois de alguns minutos.
– Não é assim que ajeita a vara pra pescar, você fez tudo errado, essa linha é muito grossa, linha grossa só se usa em molinete pra se pescar peixe grande, e não em vara pra pescar piau, piapara ou lambari, pra esses peixes tem que ser fina, e essa bóia, essa chumbada e esse anzol que você colocou, ta tudo errado, vamos trocar tudo.
A moça ajeitou tudo.
– Agora sim, agora você vai conseguir pegar peixe Eduardo. Você sabe pescar?
– É claro que eu sei.
– Você mentiu pra mim, geralmente quem não sabe entalhar uma vara é porque não sabe pescar.
Ela olha pro moço e os dois sorriem. Alice senta a dez metros pra cima de Eduardo, e assim os dois iniciam a pescaria.
Meia hora depois.
– Peguei mais um Eduardo, e você não pega por quê?
– Você é muito esperta, é ai nesse poço que está o peixe.
– Deixa eu ver o jeito que você está pescando.
Alice senta ao lado do moço e fica observando a sua pescaria.
– Eduardo, não é assim que se pesca, eu vou te ensinar. A água está correndo rápido, você tem que soltar a bóia bem devagar, segura a vara, não deixe correr porque se a bóia descer muito rápido o peixe não consegue pegar a isca, desce a bóia bem lentamente e quando a bóia tremer você da um soquinho de leve, não puxe com força se não você tira a isca da boca do peixe e não consegue fisgar entendeu? É assim que se pega peixe, e tem mais uma coisa, você tem que achar o fundo do rio.
– E como é que se acha o fundo do rio Alice?
– É muito fácil, você joga a bóia na água mais parada e vai subindo a bóia na linha, isso vai aumentando a fundura do anzol e quando a bóia deitar é porque você pegou o fundo do rio, ai você levanta a bóia um palmo e faz um teste, se ela correr de pé é ali que você vai pegar o peixe, porque o peixe fica no fundo do rio comendo o trato que a gente joga na água, a isca tem que passar perto dele, entendeu agora como é que se pega peixe, e agora você se lembra do nosso trato, você vai ter que andar vários quilômetros a pé até sua casa!
Os dois sorriem, que sorriso de felicidade se estampa na face dos dois.
Duas horas depois.
– Alice, eu estou com sede.
– Ali em cima tem uma mina, vamos lá beber água.
– Os dois sobem rio acima de mãos dadas e num instante chegam na mina.
– Nossa, que lugar bonito.
Eles tomam água.
– Vamos sentar um pouquinho ali naquela sombra.
E debaixo daquela imensa árvore na beira do rio ao lado da mina que momento feliz que hora inesquecível passou aquele casal. Ele sentou-se e encostou o corpo no tronco da árvore e ela sentou-se ao seu lado e ele bem de leve alisava os seus lindos cabelos negros e longos que desciam quase até sua cintura.
– Alice, que cabelo mais lindo você tem, como você é bonita, meiga e amável.
– Bondade sua, eu não sou bonita.
Os dois se viram de frente, e ela diz:
– Você é que é um moço bonito, gentil e amável Eduardo.
A emoção foi muito forte, um olhar penetrante de lá e outro olhar penetrante de cá. Os dois corações estão batendo forte com um açoite, os passarinhos cantam por cima das arvores e os raios solares penetram por entre as folhas daquela robusta árvore, parecia estar iluminando aquele amor tão puro e inocente que nasceu por acaso embaixo de uma arvore, e agora ali em meio a natureza os dois se beijam com ternuras, foi o primeiro beijo dos muitos que viriam para selar um grande amor nas margens daquele rio. – explode coração.
Uma hora depois.
– Eduardo, o sol já está alto, vamos pra casa, o almoço já deve estar pronto.
Ao chegarem em casa, Seu Manoel pergunta:
– E daí, vocês pegam muito peixe?
A moça se desmancha de rir, olha para o rapaz e diz:
– Sim, pegamos bastante peixe.
Dona Madalena diz:
– O meu filho nunca pescou.
A Dona Vitória olha pra filha e conclui:
– Ah, agora eu entendi o sorriso de Alice.
Madalena está toda feliz ali na casa dos camponeses e diz para o filho.
– Nós vamos embora a noitinha meu filho.
Duas horas da tarde.
– Eduardo, agora nós vamos andar a cavalo.
Os dois montam.
– Segure na minha cintura. – diz Alice.
A moça solta as rédeas e o cavalo sai a galopear.
Duas horas de passeio e depois os dois sentam na sombra e a moça pergunta:
– E daí Eduardo, você gostar de passar o dia comigo?
– Eu adorei ficar todo esse tempo com você Alice, estou encantando, você foi a coisa mais linda que aconteceu na minha vida, eu sinto que não conseguiria viver nem mais um dia sem você. Alice, eu te amo.
– Você também foi a coisa mais maravilhosa que me aconteceu, eu também não consigo mais viver sem você, eu também te amo Eduardo.
Os dois se olham, ela está com a cabeça deitada em seu colo e os dois fazem uma chuva de beijos. – explode coração.
Que amor lindo nascia naquele casal, uma plebéia que morava no sertão, uma camponesa e um moço rico que morava na cidade. O sol já está se declinando e os dois chegam em casa.
– É meu filho, chegou a hora de irmos embora.
– Eduardo então pede a moça em namoro e sob algumas recomendações fica tudo acertado, e todos se despedem.
O carro sai do carreador e entra na estrada do Cancioneiro, atravessa o rio e em poucos minutos já entra na cidade. Esse trajeto foi feito por três anos no mais absoluto sigilo por mãe e filho, enquanto o empresário fazia suas palestras por todo país, aumentando a sua riqueza, Eduardo e Madalena passavam dias felizes ali na chácara Boa Esperança, junto com Alice e sua família.
Mas como não existe crime perfeito, Luís Antonio começa a perceber que o filho está escondendo alguma coisa e o namoro escondido começa a vir à tona, o empresário começa a perceber que o carro andou uma estrada de terra, chama um de seus empregados e lhe designa uma missão, para vigiar o filho quando ele viajar para fazer suas palestras, o caso então é descoberto, e o empresário furioso obriga Madalena a lhe dar explicação, e a mulher debaixo de lágrimas é obrigada a contar toda a história, o Sr. Luís Antonio então da o ultimato, o filho está terminantemente proibido de ir à chácara Boa Esperança.
Uma Camponesa (Segunda Parte)
Após a decisão maldosa, cruel e tirana tomada pelo empresário de separar e acabar com o namoro do filho com Alice, o cenário que antes era de felicidades se deslumbra agora em tristezas e melancólicas lembranças de um amor que era lindo e que a vida fez nascer em dois corações que queimavam como uma brasa viva em um ardente desejo de se unirem por toda vida. A camponesa que sentiu em sua vida a primeira vez a doçura e a felicidade em ver o amor bater como um sino, o som do amor em seu coração, está agora com a alma dilacerada vivendo somente de recordações daqueles momentos felizes que ela viveu com Eduardo Augusto, o primeiro e grande amor da sua vida.
Chácara Boa Esperança, domingo, dez da manhã.
O casarão de madeira que está bem próximo de belas palmeiras ao lado de uma paineira toda florida está em silencio, ali no interior daquele recinto se vive uma enorme tristeza, aquele casal de camponeses está penalizado com a tristeza da filha, a mãe tenta amenizar a dor que a filha sente, eles entram no quarto e sentam na beira da cama e mencionam essas palavras:
– Minha filha, não fique assim, você está nos deixando muito tristes com sua tristeza, onde está aquele teu sorriso bonito que se estampava em sua face a todo momento, onde está sua alegria, aquela felicidade que irradiava em sua face tão angelical. Alice, nós te amamos muito e não queremos te ver assim tão triste, levante, vai pescar com o teu pai, ou andar um pouco na beira do rio e ouvir o canto dos passarinhos, admirar a beleza da natureza, o dia está lindo minha filha, nós sabemos que o que lhe aconteceu é doloroso, mas você não deve ficar assim, já se foram várias semanas e ele não apareceu, algo deve ter acontecido, o pai dele deve ter descoberto de vocês e o proibiu de vir aqui, não fique assim, não perca a esperança, se ele tiver que ser seu, uma hora ou outra ele vai aparecer.
Seu Manoel acrescenta:
– Eu tenho minhas duvidas, eu acho que o rapaz quis apenas brincar de amor com os seus sentimentos Alice. Vitória, nós somos camponeses, o Eduardo é um moço rico e filho do maior empresário da região, o seu Luís é dono de uma fortuna, ele jamais vai permitir que o seu filho, seu único herdeiro se case com uma camponesa pobre como nossa filha, o Eduardo já deve ter compromisso com uma moça granfina da alta sociedade.
– Eu não acredito nisso meu pai, o Eduardo é um moço maravilhoso, quando eu o conheci embaixo daquela arvore eu também pensei que ele queria brincar comigo, mas ele não tem essa maldade, é um moço sincero, o nosso namoro nesses quase três anos me mostrou isso.
E nesse momento a moça coloca a mão sobre o rosto com um choro espremido, comove seus pais, Manoel sai do quarto para não chorar perto da filha, a mãe fica emocionada e também não contém as lágrimas, e ouve a filha dizer essas palavras:
– Mãe, quantas saudades eu tenho dos dias felizes que passei com o Eduardo aqui na chácara, quantas saudades eu sinto das horas que passamos na beira do rio, das nossas pescarias, eu me lembro do dia em que eu o ensinei a pescar, como ele aprendeu a pegar peixes, minha mãe que saudades daqueles dias que ele tocava o violão por horas na sombra de uma arvore e eu ficava ouvindo bem ao seu lado, como ele toca o violão de um jeito bonito, minha mãe que saudades da nossa cavalgada nessas colinas, nessas estradas por entre a mata e depois do nosso passeio a cavalo a gente sentava em uma sombra e trocávamos juras de amor e fazíamos planos para o nosso futuro, ele dizia que queria morar aqui na chácara quando a gente se casasse, mãe eu tenho certeza de que o Eduardo me ama.
E depois dessas palavras as duas se abraçam e choram juntas.
E lá em um condomínio fechado em um bairro nobre da cidade, em uma mansão luxuosa onde se brinda somente a nobreza, o senhor Luís Godói do Nascimento transbordava no coração um só sentimento, ele só tinha um objetivo, era o de casar o seu filho com uma granfina da alta sociedade e continua irredutível em sua decisão, não aceitava em hipótese alguma o namoro do filho com uma camponesa.
Dona Madalena era uma pessoa muito amável e não concordava com a tirania do esposo em não aceitar o namoro pelo simples fato da moça ser uma camponesa, filha de uma família humilde, dessa forma ela tenta convencer o esposo com essas palavras:
– Luís, o nosso filho está ficando doente, só fala em Alice, não tem mais animo pra nada, está entrando em uma depressão profunda, se você não tomar uma atitude eu não sei o que será do nosso filho, Luís, ele ama essa moça, ela é a única que ele amou até hoje, deixe ele ir na casa de Alice.
– Madalena, eu sou o empresário mais influente da região, nas minhas palestras só vão pessoas granfinas da alta sociedade, minha oratória é sobre estética, luxo e vaidades, em meu discurso eu sempre menciono a elegância que o dinheiro nos oferece nas passarelas da vida, Madalena como eu, com o padrão de vida que tenho, com o status elevado que vivo em meio a sociedade posso permitir que o nosso filho se case com uma camponesa, isso para mim seria um desastroso, isso sairia na mídia em todos os meios de comunicação, onde iria minha reputação, o nosso filho Madalena tem que namorar e se casar com uma moça granfina e jamais com uma camponesa.
Uma Camponesa (Terceira Parte)
Três meses já se passaram, Eduardo Augusto e Madalena vivem dias de angústia, estão sob vigilância vinte e quatro horas por dia. Lá na chácara a tristeza assolava Alice e sua família, ninguém sabia o motivo da ausência de Eduardo e sua mãe. Mas tem um ditado que diz que não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe. O amor de Alice e Eduardo, mesmo separados, aumentava a cada dia, mas a maldade do senhor Luís Antonio estava com os dias contados; mais dois meses se vão, são agora cinco meses de separação.
Domingo, quatro horas da tarde, o empresário está eloqüente dando a sua palestra, o assunto é o de sempre, a eficácia da estética dos cosméticos. De repente ele passa mal e é levado as pressas para o hospital, e lá, depois de vários exames o médico informa que Luís Antonio tem uma leucemia já em estado avançado.
O empresário, sempre focado em acumular riquezas deixava passar os leves sintomas do surgimento de sua doença que acontecia de tempos em tempos.
O médico então recomenda o tratamento de transplante de medula óssea para tentar reverter essa situação, que o empresário, sem supor, deixou chegar. Uma doença tão grave à tanto tempo se manifestando e Luís Antonio jamais parou para fazer um check up completo, priorizando somente uma vida cheia de futilidades e mesquinharias, no fulgor e agitação daquela intensa correria, que, se misturam ao seu materialismo e insensibilidade; menosprezando assim, sinais internos que seu corpo manifestava, gritava, pedia socorro.
Mais do que imediatamente mandam anunciar nos jornais e em todas as rádios que o empresário Luís Antonio Godói do Nascimento, o empresário mais bem sucedido da região, está internado e necessitando de uma doação de medula óssea. A família do empresário oferecia como gratificação uma enorme quantia em dinheiro. Mais que rapidamente várias pessoas apareceram para fazer o teste de compatibilidade, pensando no dinheiro que receberiam como recompensa, porém, entre todos que se apresentaram não havia doadores compatíveis.
Dias depois, Madalena diz para o filho que está muito nervosa, e quer ficar um dia em um lugar bem calmo para se recompor. Nada melhor que a casa de Alice, e é pra lá que eles vão. Uma hora depois mãe e filho estão na casa do senhor Manoel, contando toda a história, os fatos mencionados comovem e entristecem toda a família. Alice então toma a palavra e diz que quer fazer os exames e que se for compatível ela vai salvar o senhor Antonio daquele sofrimento. Todos se abraçam e a comoção toma conta de todos ali. A moça e as duas famílias se apresentam no hospital para fazer os exames e a pedido da moça, tudo terá que ser feito no mais absoluto sigilo. Dois dias depois, todos estão ali, na sala do médico, à espera do resultado. O Dr. chega com os papéis na mão e pergunta:
– Quem é Alice Alcântara Camilo?
– Sou eu doutor.
O médico faz uma pausa e fita com um terno olhar todos ali e diz de um jeito bem suave:
– Você Alice, mostrou-se uma moça corajosa, sua atitude merece aplausos, você é digna de muita gratidão.
À medida que o médico falava todos se emocionavam, e o médico conclui:
– Alice, só você pode salvar este homem.
Os abraços e o choro entre as duas famílias comoveram a todos ali.
Um tempo depois o empresário já recuperado pergunta quem foi o doador que lhe salvou a vida, Madalena ainda comovida pela atitude da moça não consegue guardar o segredo e conta tudo.
– Luís, quem salvou a sua vida não foram as pessoas que você gosta, não foi um burguês, um empresário… quem lhe salvou a vida foi Alice, aquela moça que você não gosta, aquela que encantou o nosso filho, foi ela, foi Alice a doadora que você precisava.
Luís Antonio ao ouvir tais palavras quase tem um colapso nervoso, ao saber que aquela camponesa, aquela que, recolhido em sua extrema arrogância outrora lhe humilhou… ah meu Deus! Meu pai…por quê? Por que tão tarde me fizeste enxergar a vida? Os valores humanos, não os valores “reais”? Não consigo me perdoar por ter feito tanta maldade, esta pobre criatura não guardou nenhum rancor! E só então, percebe que não acordou tarde. Tarde seria se estive debaixo da terra, numa campa fria, sem esperança alguma! E percebe também, que pra ser digno de uma nova chance, precisa perdoar antes de tudo a si mesmo. É o início de toda redenção. Sua alma está chorando. Passado alguns dias, pede para o filho o levar até a casa da moça. Dez horas da manhã o carro para em frente a casa e a família de seu Manoel vem ao encontro do carro, e a família do empresário é convidada a entrar. Todos entram na sala e o empresário não se contém e pergunta:
– Filho, essa moça é Alice?
– Sim meu pai, essa moça é Alice.
O homem da um abraço na moça e chora como criança com a cabeça apoiada em seu ombro, quer falar alguma coisa, mas as palavras não saem, um clima leve paira no ar, comovendo e contagiando a todos que ali estão. Depois de alguns instantes, se recompondo, o senhor Antonio toma a palavra:
– Eu vim aqui para conhecer o anjo que me salvou, e, também para dizer a todos que eu estou muito feliz e algo muito importante para mim é saber qual será a data do casamento de Eduardo e Alice.
Ao ouvir tais palavras Eduardo abraça sua amada, e vendo os dois ali, tão plenamente apaixonados, a impressão que as famílias têm, é de que, história romântica não existe, o que de fato existe é a vida real; com seus protagonistas vencendo os antagonistas, num enredo repleto de falhas, insensibilidade, mas que no final, são todos vencidos pelo amor! E aquelas pessoas todas ali, todas elas sem exceção, compondo o palco da vida! E já no crepúsculo da noite, após terem passado um dia juntos, tudo fica acertado em comum acordo: o empresário vai construir uma bela casa na Chácara do senhor Manoel e dar de presente para Alice e o filho Eduardo morar após o casamento, pois esse é o desejo do filho, quer morar perto da sogra, e em forma de gratidão vai construir também uma linda casa para Manoel e Vitória, e diz que a mobilha da casa nova também será por sua conta. O casamento é mercado para maio, pois esse é o mês das noivas, e não está tão longe, faltam apenas seis meses, é o tempo para os preparativos e a construção das duas casas. Madalena está em estado de graça, quanta felicidade uma camponesa trouxe para sua família.
Seis meses depois Alice e Eduardo estão eufóricos, o dia está chegando, mas antes do dia marcado para o enlace matrimonial o empresário quer dar uma palestra e dessa vez a palestra será em sua cidade, convida a imprensa e é claro não poderão faltar os camponeses da região. Esse é o pedido do Sr. Luís Antônio.
Chega então o dia da palestra, o maior salão da cidade está lotado, todos querem ouvir o maior orador da região falar sobre cosméticos, sobre a estética e sua eficácia. Mas o empresário pega todos de surpresa e muda o tema do discurso. Veja a sua oratória:
– Boa noite a todos que me ouvem, quero externar os meus sinceros agradecimentos nessa noite aos ouvintes que me ouvem através das ondas e a todos os aqui presentes. Todos sabem que o tema do meu discurso sempre foi sobre estética e cosmética, mas hoje o discurso tomará um novo rumo, vou falar sim da estética, mas de um modo diferenciado. As mulheres são vaidosas por natureza, isso está no DNA feminino, e as mulheres que não tem uma beleza natural, quando vão a um salão de beleza, elas saem de lá belas, bonitas, isso prova o poder que tem a estética e os cosméticos. A estética tem o poder de retardar o envelhecimento, ela esconde as rugas no rosto das madames, já avançadas em idade. A estética, os cosméticos, deixam as mulheres mais belas e mais joviais. Mas ela, a estética, queridos ouvintes, não tem nenhum poder de arrancar as rugas que temos na alma, as rugas que trazemos na alma é só o amor que pode arrancar. Eu era um cidadão cheio de mim, estava “acentado” em um alto pedestal. Talvez a minha fortuna me deixou assim, tão orgulhoso e arrogante. Eu me considerava um homem poderoso e invulnerável. Isso se chama rugas na alma, mas a vida me ensinou que temos que ter uma alma bondosa, pois só assim nós nos encontramos com a felicidade e irradiamos beleza, independente do nosso estado físico.
O empresário encosta em Alice:
– Queridos ouvintes, eu fazia acepção de pessoas, mas Deus colocou essa camponesa no meu caminho para que eu descobrisse a real beleza da vida, sim caros ouvintes, foi essa camponesa que me salvou e também mudou minha vida.
O salão está repleto, uma mescla de burguesia e camponeses. Quatro homens que moram no campo, movidos pela emoção eloqüente do empresário se adiantam pelo corredor do salão e colocam Luís Antonio nos ombros, e a platéia fica em pé e aplaudem, e aclamam em voz alta:
– Viva o senhor Luís!
– Viva!
No outro dia, a mídia anuncia que o discurso do empresário, o rei da estética, prega uma verdadeira lição de vida, e faz muita gente pensar e repensar sobre o orgulho, a prepotência e a mania de grandeza.
E suas últimas palavras, após inflamar o euforismo da platéia, foi um convite para o casamento do seu filho.
E o dia mágico, tão sonhado e esperado, enfim, chega. A igreja está o próprio Jardim do Éden, colorida numa mistura de variadas flores, um tapete vermelho é colocado no imenso corredor da igreja, no recinto, não mais há rico ou pobre; todos os rostos se misturam, formando um belo retrato da humanidade, onde nnão há lugar para diferenças sociais. No altar, os padrinhos e o padre todo entusiasmado a espera dos noivos. A noiva que está magnificamente bela irradiando simpatia, pisa no corredor da igreja, todos se levantam e a camponesa que foi um milagre divino da família de Luís Antonio é reverenciada com muitas honrarias; sob uma chuva de flores, inicia-se a marcha nupcial e o juramento de se amarem por toda vida, na alegria ou na dor até que a morte os separe, foi feito perante o altar. E assim Luís Antonio Godói do Nascimento teve o seu sonho realizado, viu o filho, o seu único herdeiro , Eduardo Augusto, se casar em uma igreja toda colorida de flores, a igreja estava repleta, muito embora não foi como ele sonhava. Na igreja, não tinha a alta sociedade, a noiva não era possuía bens,não era filha de um doutor ou de um empresário. A multidão estava meio a meio, toda mistura com granfinos e com os camponeses da região. A noiva era uma plebéia, era uma camponesa. Mas Luís Antonio estava irradiando felicidades junto com sua esposa, hoje ele é um cidadão amado por todos, porque agora sim o empresário é um homem rico por completo. O que a estética e os cosméticos com sua eficácia não conseguiram fazer, o amor conseguiu, foi arrancar as rugas da sua alma, e tudo isso foi graças a uma bondosa menina, uma camponesa.
E assim, caros leitores, chegamos ao fim de mais uma dramática história de amor.

Que Deus nos ilumine e nos dê sabedoria para que tenhamos uma alma bondosa.
Jair Garcia Martins, o Jair Padeiro.

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O Boiadeiro e a Gaita Encantada (completo)

11 08 2017

Oi, gente, um forte abraço. O nosso último texto foi “Debaixo do Pé de Ingá”. Veja a nossa nova mensagem.

            Você já ouviu falar da tropa de boiadeiros mais famosa da região do Texas? Veja o elenco que formava essa tropa. Estrelando Sr Scott e seus três filhos, Marlom, Antony e o filho caçula Silver. Os outros três peões eram filhos do irmão de Scott, eram eles Nero, Steven e Robert. Silver era o boiadeiro mais novo da tropa, esse moço com apenas dezoito anos era o melhor boiadeiro da região do Texas, sabia, como ninguém, conduzir uma boiada, o seu berrante parecia falar com os bois. Mas não era só o berrante que ele assoprava com perfeição – quando ele assoprava sua gaita no sertão, até a natureza parecia que lhe aplaudia, sua gaita parecia ser encantada.

            Essa era a tropa do senhor Scott. Sete homens e um só destino: conduzir boiada no sertão do Texas, percorrer por muitos Quilômetros por entre as matas na estrada boiadeira, que também era conhecida como Avenida dos Bois. O destino da boiada era sempre o mesmo: a Fazenda América.

            Nove de abril, oito horas da manhã, todos os peões já estão no lombo do cavalo. Silver toca o berrante e a boiada sai a passos lentos rumo à Fazenda América. As horas passam, já são onze horas e dez minutos, hora do descanso, o gado sacia a sede no rio e sai para pastar, os peões vão para o rancho dos boiadeiros para descansar e almoçar. Enquanto os boiadeiros desfolham o baralho em uma rodada de poker, o jovem Silver desce até a beira do rio, senta embaixo de um arvoredo e, com a alma, toca sua gaita. Duas horas de descanso e a boiada é novamente colocada no estradão. Seis horas e dez minutos, missão cumprida. Essa era a rotina da família Scott na região do Texas.

            Dezessete de abril, são sete quarenta e três da manhã, e a boiada já está a caminho em lentos passos na estrada boiadeira, rumo à Fazenda América. O sol já está alto, a boiada vai para a pastagem e os boiadeiros vão para a pousada comer e descansar por duas horas, como de costume, os peões desfolham o baralho, menos Silver, pois ele está na beira do rio, bem perto do bebedouro do gado, no lugar de sempre, tocando sua gaita. Nem imagina que está sendo ouvido por alguém. E esse alguém está se emocionando com suas lindas canções. O jovem boiadeiro bate a gaita em sua mão, passa nela o lenço e quando ele vai colocá-la no bolso ouve uma voz:

            – Não, moço, não guarde a gaita, toque mais uma canção pra eu ouvir.

            Silver fica surpreso, nunca antes tinha encontrado alguém por ali, como a voz parecia vir de baixo, ele se inclina, olha em direção as águas e avista, sentada sobre uma pedra uma belíssima moça, com uma bacia de roupas ao lado.

            Silver desce o barranco, e caminha em direção à moça.

            – Você saiu de uma toca ou caiu do céu, menina?

            Ela ri, e responde:

            – Nenhum dos dois, eu venho é lá do meu Ranchinho de Sapé.

            Os dois sorriem.

            – E onde fica esse seu ranchinho de sapé?

            – Não fica longe daqui, alguns minutos pela estrada em direção à velha ponte, alguns passos depois dela e através do primeiro carreador, um pouco à esquerda, um pouco mais em frente.. e mais adiante, atrás do morro, é lá que fica minha toca.

            Risos acompanhados de um flerte.

            – E você, cancioneiro? De onde vem?

            – Eu moro há alguns quilômetros daqui, minha toca é bem longe, moça, mas não sou cancioneiro, meu trabalho é levar boiada.

            – Ora, pois, com uma gaita na mão faz tão belas melodias, se não for bom em mostrar caminho aos bois, pode até mudar de profissão.

            A moça ri e Silver fica sem jeito. Olhares se cruzam com tímidos sorrisos.

            – Sempre passamos por aqui, mas essa é a primeira vez que lhe vejo.

            – Moro por aqui há apenas 12 dias.

            – E qual vossa graça?

            – Eu me chamo Cassia, prazer em conhecê-lo.

            – Meu nome é Silver, o prazer é meu.

            Continuam conversando e a moça pergunta:

            – Diga-me uma coisa, porque por aqui passa tanta boiada?

            – O nome já diz tudo, estrada boiadeira, ou Avenida dos bois, esse é o único caminho que leva diretamente à fazenda América, é lá onde os bois são embarcados para o livre comércio na região do Texas, e como você pode ver, a estrada é muito montanhosa e seria impossível transportá-los em caminhões. Já está quase na hora de seguirmos caminho, mas como parece que você realmente gostou, vou atender ao seu pedido, e tocar mais uma música pra você. Essa música é de minha autoria, creio que ela é uma inspiração divina, só eu consigo tocá-la.

            O boiadeiro então senta ao lado da moça naquela enorme pedra, e ali às sombras do arvoredo, pelos lábios ele desliza suavemente sua gaita dourada deixando escapar das mãos uma melodia tão serena que até os pássaros pareciam parar de cantar para ouvir.

            Cássia está encantada, porém, antes mesmo de Silver terminar sua canção ouve-se o tocar do berrante – é Marlom dando o sinal de que estão partindo.

            – É hora de partir, este sinal é meu irmão chamando.

            A moça se entristece e pergunta à Silver:

            – Quando o verei novamente?

            – Toda vez que eu passar por aqui eu venho nesse lugar e toco o berrante por três vezes seguidas, esse será o sinal de que eu estou lhe esperando.

            – Sim, eu virei te encontrar, em dez ou quinze minutos eu estarei aqui.

            Os dois se despedem com o coração apertado. Foi a primeira sensação de amor que a moça e o jovem boiadeiro sentiram em suas vidas.

            O tropeiro não tirava mais a moça do pensamento, a jovem também só pensava no boiadeiro.

Dias depois, vinte e dois de abril, Silver está à sombra do arvoredo, tira o berrante amarrado às costas e o toca por três vezes.

De um ranchinho de sapé perto dali, Cássia ouve o soar do berrante e vai ao encontro do rapaz, e em poucos minutos já estavam lado a lado. Esse encontro foi acontecendo por dezenas de vezes e foi ficando cada vez mais emocionante. E assim nasceu um grande amor em dois corações em pleno sertão.

O tempo parecia voar, já era abril de novo, um ano se passou, quantos momentos felizes os dois viviam nas campinas verdejantes e floridas ali naquele sertão. A natureza testemunhava aquele amor tão bonito que nasceu como um toque de mágica.

Mais alguns dias se vão e novamente um novo encontro, lá estão os dois na sombra do arvoredo, às margens do rio.

– Cássia, já faz mais de um ano que a gente está se amando e eu nunca lhe dei um presente, na próxima vez que a gente se encontrar eu vou lhe trazer alguns presentes.

A sertanejinha da um lindo sorriso, os dois se abraçam e se beijam.

– Nossa, que presente será que eu vou ganhar do melhor boiadeiro do Texas?

Risos e muitas felicidades se estampam no rosto de ambos. Nesse momento, Steven toca o berrante e os dois se despedem.

O vai e vem dos boiadeiros não para. A moça está lá no seu ranchinho varrendo o terreiro conversando com sua mãe e escuta o berrante por três vezes seguidas.

– Mãe, é ele, hoje ele vai me dar um presente.

– Vai lá minha filha, mas juízo hein.

– Fique tranquila, mãezinha, eu jamais irei decepcioná-la.

Cassia chega e Silver está à sua espera com uma mala cor de vinho na sua mão, então ele abre a mala e tira uma camisa estampada, uma calça de boiadeira, um par de botas, um cinturão dourado, um par de esporas e um lenço, um gibão e, por último, ele tira um chapéu e coloca em sua cabeça e lhe dirige essas palavras:

– Cassia, essas são as vestimentas de um boiadeiro, eu quero fazer de você uma boiadeira de qualidade para juntos conduzirmos boiada por esse sertão a fora enquanto vivermos.

Depois ele tira do bolso uma aliança e coloca em sua mão.

– E essas flores eu colhi de um jardim, o jardim da natureza, são lírios do campo, eles irão enfeitar o seu ranchinho de sapé.

– Cássia eu quero me casar com você.

Os dois se abraçam e se beijam, e depois ela encosta a cabeça em seu peito e ele acaricia seus lindos cabelos negros e longos.

– Cassia, primeiro eu vou te ensinar como montar em um cavalo: coloque o pé no estribo do arreio, segure com a mão na alça do arreio ou na crina do cavalo e jogue o corpo pra cima e cruze a perna na lomba do animal, e em seguida segure firme as rédeas para acalmar o cavalo, se ele se assustar.

E depois ele a ensinou a andar a cavalo, a trotear com o animal, a marchar, a galopar, por último a ensinou a tocar um berrante com perfeição. A sertanejinha se tornou uma boiadeira de qualidade, sabia muito bem como conduzir uma boiada. O “casal vinte” do sertão está se amando loucamente.

            Mais alguns dias se passam, a tropa do Sr Scott está de novo na estrada, já são dez horas e quarenta minutos, é a última descida naquela estrada montanhosa para o descanso, Silver conta os segundos para chegar, tomar um banho, comer e descer à sombra do arvoredo, tocar o berrante e esperar a princesinha do sertão vir sentar-se a seu lado, e ali passar os momentos mais felizes da sua vida. O jovem boiadeiro esta eufórico para o encontro, mas ele nem imagina o que lhe espera, a sua alegria se transformaria em tristeza. Uma espada transpassaria sua alma tamanha seria sua dor, sua amargura que lhe desejaria a morte.

            Silver toca o berrante por três vezes e espera por vinte minutos e a raposinha do sertão não aparece. Silver está com o coração apertado, seus olhos estão em lágrimas, ele então pendura com muita tristeza o berrante em um galho da árvore e segue até o ranchinho da sua amada. Mesmo ainda estando à distância já percebe algo diferente.

            O cachorro não latiu, não latiu porque não estava mais ali, ele não vê as galinhas andando no terreiro, vê as janelinhas fechadas, a pequena porta também está fechada, chega a passos bem lentos e um tanto assustado, olha pela fresta da porta, a casa está vazia, não há mais ninguém ali, o ranchinho de sapé, a toca da raposinha, está tudo abandonado.

            Silver, um moço forte, que domava cavalo bravo, pegava boi à unha, nesse momento vê o mundo desabar em cima de sua cabeça, o boiadeiro sentiu o baque, fraquejou, caiu de joelhos, chorou, gritou em voz alta, de longe se ouvia o eco de sua voz entre a mata. Diante da força do amor ele fraquejou, ficou em pedaços. Foi ali às margens do rio, pegou seu berrante no galho da árvore e em prantos seguiu até o rancho dos boiadeiros, sentou-se ao lado do seu cavalo que estava amarrado embaixo de um belo pé de cedro, encostou no imenso tronco da árvore, colocou a mão em seu rosto e chorou amargamente, e o silêncio foram suas palavras. Todos os boiadeiros também ficaram em silêncio, ninguém teve a coragem de lhe dirigir uma só palavra, todos o amavam, hoje a tropa seguirá com a boiada com seis peões para a fazenda América, era ordem do Sr Scott. Silver vai descansar e esperar o regresso dos tropeiros. Nero toca o berrante depois de alguns minutos e a boiada segue novamente.

            Seis meses já se passaram, lá na cidade de Dallas está Cássia e sua família, nesse momento Cassia conversa com sua mãe.

            – Mãe, está vendo essa mala, dentro dela está toda vestimenta de uma boiadeira, foi um presente que ganhei de Silver, quero que a senhora guarde por toda vida essa mala, será por lembrança do único homem que amei e que sempre vou amar enquanto viver. Eu tomei uma decisão: vou para um convento, vou me tornar uma freira. E assim ela fez, tornou-se uma freira na cidade de Dallas.

            A jornada continua lá no sertão, Silver está com uma profunda depressão, está doente, mas não quer abandonar a tropa de peões, e continua a conduzir boiada junto com os tropeiros. São cinco horas, a boiada está a duzentos metros da fazenda América para ser entregue, o tempo muda de uma forma súbita, o astro rei se esconde por detrás de uma negra nuvem. O dia escurece, de repente raios, trovões e relâmpagos riscam e estrondam o céu. Nesse momento a boiada estoura. Marlon, Antony e Nero estavam atrás dos bois e não sofreram. Steven e Scott iam pelas laterais e tiveram algumas machucaduras, nada grave. Robert e Silver iam à frente, tocando o berrante. Robert consegue escapar, mas Silver foi pisoteado por vários bois e teve algumas quebraduras, foi socorrido e levado até a casa do fazendeiro, o Sr Elton, que imediatamente o leva para a cidade de Denver. Seu estado era grave, e o boiadeiro ficará internado por tempo indeterminado.

Dois meses e meio já se passaram, o vai e vem da tropa não para, só que agora com seis boiadeiros. Lá no hospital Silver está se recuperando dos machucados, mas a depressão o consume lentamente. Era domingo, nove horas da manhã, e o boiadeiro chama o Dr. E lhe diz essas palavras.

– Doutor, eu gostaria de um pouquinho da sua atenção. Eu vou lhe contar a minha história de amor. Era dezessete de abril, onze horas e vinte minutos eu estava tocando a minha gaita na beira do rio, à sombra de um arvoredo, nem imaginava que eu estava sendo ouvido por alguém, foi um anjo que caiu do céu, uma linda moça, estava ali sentada em cima de uma enorme pedra, e ao lado uma bacia de roupa. Quando fui guardar minha gaita ela me disse: “Não guarde a gaita, não, moço, toque mais uma canção que eu quero ouvir, sua gaita me encanta”. Aproximei-me e assim eu conheci o grande amor da minha vida, Doutor, eu a ensinei a ser uma boiadeira, éramos um casal perfeito, íamos nos casar quando do nada ela desapareceu, ninguém sabe o seu paradeiro. Esse é o motivo da minha depressão, Doutor. Eu gostaria de ter permissão da diretoria para tocar a minha gaita lá no pátio do Hospital. Eu sei que o som da gaita vai aliviar a minha dor.

O Doutor fica comovido com a história do boiadeiro e lhe dirige essas palavras:

– Vou conversar com a diretoria e amanhã te dou um parecer.

No dia seguinte…

– Você pode tocar sua gaita lá no pátio na hora da visita, sim, e que Deus te abençoe que a gaita alivie a sua dor.

– Sim, obrigado, Doutor prometo que não vou atrapalhar.

E assim foi por várias semanas o boiadeiro tocava sua gaita, e os doentes e os visitantes se maravilhavam com o som da gaita dourada que encantava as pessoas.

Lá na cidade de Dallas, no convento, a irmã Joana conversa com a irmã Cassia.

“Cassia, já faz bastante tempo que você está aqui no convento, eu agora vou te inserir no grupo das freiras que fazem visitas aos Hospitais de Dallas e na cidade de Denver, pois acho que você é uma pessoa preparada para nos ajudar nessa missão. Amanhã nós iremos pra Denver, e você irá conosco.”

No dia seguinte…

Na hora da visita, lá estão as freiras de quarto em quarto dando sermões e algumas palavras de consolo para os enfermos. Cassia sai pelo corredor e se depara com algo que a emociona: ouve o som de uma gaita no pátio do Hospital, vai até a janela de um quarto, e lá está um moço tocando sua gaita. Ele está de costas para ela, e ela nem imagina que Silver está ali. Vai até o banheiro e chora amargamente, se lembra do boiadeiro que ela ainda ama.

Mais algumas visitas e sempre a mesma cena: lá no pátio está o cancioneiro da gaita que encanta as pessoas. Mas a freira começa a ficar desconfiada, as músicas que ele toca são semelhantes, parecem ser iguais a que o boiadeiro tocava no sertão, apenas, com uma melodia um pouco mais triste. O horário da visita está terminando, Cassia vai à janela do quarto, puxa uma banqueta, senta e se debruça na janela para ouvir o cancioneiro tocar sua gaita. Ah, quantas saudades o som da gaita lhe trás lá do sertão! E nesse momento ela só não cai porque está sentada e debruçada na janela. Suas pernas ficam bambas, o moço está tocando aquela canção que Silver dizia ser a sua inspiração divina e que só ele conseguia tocar. Chora novamente, ela está bem perto do homem que ela ama. Chora como uma criança não consegue conter a emoção, aquela canção confirma, ela reencontrou o grande amor da sua vida.

Mas para que não fique nenhuma dúvida, ela conversa com o médico, de um jeito bem discreto para que o Doutor não desconfie de nada. Essas são suas palavras:

– Doutor, quem é aquele moço que todo dia toca gaita no pátio na hora da visita?

– Aquele moço é Silver, o melhor boiadeiro da região do Texas, ele foi pisoteado pelos animais, mas suas machucaduras já estão sarando, ele toca aquela gaita todos os dias para aliviar sua dor, saudades que ele tem por um alguém que ele ama, mas que, subitamente, do nada, saiu da sua vida. Esse é o motivo da sua depressão, mas me disse que o dia em que ele sair daqui vai virar o Texas de pontas cabeça para reencontrar a sua boiadeira para então se casar com ela.

– Será que ele a encontra Doutor?

– Eu acho muito difícil, o Texas é grande pra que isso aconteça, mas nada é impossível, madre Cassia.

– Eu também acho.

Cassia vai até o banheiro e chora novamente, mas não tem nenhuma duvida, aquele é Silver. E fica sabendo que ele está à sua espera.

Nas próximas visitas que ela faz ao Hospital, só o observa de longe, não quer que ele a veja vestida de freira. Tem um porém: ela perdeu a alegria de viver, e a sua tristeza lá no convento foi percebida por todas as irmãs. Madre Joana chama Cassia em particular e lhe dirige essas palavras:

– Irmã Cassia, eu vejo em você uma enorme tristeza, ela está estampada no seu rosto, gostaria de saber o que esta acontecendo com você.

A irmã Cassia não consegue conter a emoção e chora amargamente, e depois comenta.

– Madre Joana, eu morava no sertão com minha família, minha mãe, meu pai – que tem mal de Alzheimer – e minha irmã, ainda menina. Um dia eu desci para lavar roupa na beira do rio, ainda me lembro, era dezessete de abril, eram onze horas quando eu ouvi um cancioneiro tocando uma gaita, e como eram bonitas suas canções, não resisti, desci pra perto do moço e me sentei em cima de uma pedra e ali fiquei encantada com a beleza que era a melodia que saia daquela gaita. Quando ele foi guardar a gaita, eu pedi que ele tocasse mais uma canção, então ele tocou para mim uma linda música e depois me disse que só ele conseguia tocar aquela canção, e que ela era uma inspiração divina.

– Assim eu conheci o boiadeiro mais famoso do Texas. Esse homem se tornou o único e grande amor da minha vida, me ensinou a ser uma boiadeira, nós éramos almas gêmeas, eu morava em um ranchinho de sapé, mas eu e minha família éramos felizes, foi quando do nada surge o meu irmão, um homem maldoso que morava na época em Carolina do Sul, mas à força nos levou pra cidade de Dallas. Hoje o meu irmão mora na eternidade, minha mãe e minha irmã vivem da aposentadoria do meu pai.

– Madre Joana, o boiadeiro que eu estou lhe falando é aquele moço que toca gaita todos os dias lá no pátio do Hospital.

A freira se comoveu com a história da irmã Cassia e faz a ela uma pergunta:

– Então é esse o motivo da sua tristeza, reencontrou o seu antigo amor.

– Sim, irmã, eu quero deixar o convento e me casar com ele, eu o amo loucamente. Madre Joana, quantos personagens temos na Bíblia que se amaram com a força da sua alma. Um dia Sansão amou Dalila, Rebeca Amou Isaque, Jacó amou Raquel, Abraão amou Sara. Não está escrito na bíblia, mas é certeza que um dia Adão e Eva também se amaram no paraíso do Éden. Quantas freiras temos aqui no convento que um dia também amaram com toda sua alma e não foram correspondidas, outras amaram e foram traídas e fizeram um juramento de nunca mais amar, e agora estão aqui nesse confinamento mas não conseguem esquecer que um dia sentiram a doçura de amar alguém.

– Madre Joana, eu não esqueço os momentos felizes que vivi com esse boiadeiro lá no sertão, correndo à margem do rio, sentados à sombra de uma árvore, ah, como era gostoso andar na garupa do seu cavalo, tocar boiada com ele! Madre eu quero voltar a ser uma boiadeira junto com ele.

A irmã se comove com a história de Cassia e lhe dirige essas palavras:

– Não vejo nenhum pecado nisso, você está livre para se casar com o seu boiadeiro, Cassia.

As duas se abraçam, e depois Cassia abraça todas as irmãs do convento e chora no ombro de todas elas. Houve muita comoção na despedida de Cassia.

A moça chega em sua casa e diz para sua mãe:

– Mãe, pega aquela mala e tira dela toda aquela vestimenta que eu ganhei do Silver, arrume também nossas coisas, vou voltar pro sertão pra ser boiadeira junto com o Silver, a senhora e minha irmãzinha vão vir comigo.

Então ela vai até o Hospital e fica sabendo que o boiadeiro vai ter alta no dia seguinte. No dia seguinte, lá está Silver no pátio, tocando sua gaita pela última vez naquele Hospital. O pátio está repleto de pessoas ouvindo a gaita encantada do rapaz. Cassia está a dez metros atrás dele vestida de boiadeira, e eis que quando ele vai guardar a sua gaita, a moça diz:

– Não guarde a gaita, não, moço, toque mais uma canção, que eu quero ouvir.

O boiadeiro quase desmaia, vira o corpo lentamente e se depara com a sertanejinha do seu coração. Silver não contém as lágrimas e grita em alta voz.

– Cássia. – e ela grita:

– Silver.

Os dois se abraçam, se beijam e choram como duas crianças. Os presentes ali aplaudem, também comovidos, e nesse momento chega o Doutor, para quem Silver então dirige essas palavras:

– Doutor, o senhor curou todas as machucaduras de meu corpo, mas só ela conseguiu curar a profunda depressão de minha alma.

– Uma boiadeira linda como essa cura qualquer depressão, rapaz, vocês estão de parabéns.

Silver e o médico se abraçam, e depois o Doutor abraça Cassia e lhes deseja felicidades. Em seguida os dois saem abraçados e vão para casa da moça.

Vinte dias depois, os dois se casam, a festa foi na fazenda América, com rojões, um belo churrasco e chope à vontade, tudo patrocinado pelo fazendeiro o Sr. Elton. Dezenas de boiadeiros se fizeram presentes. Hoje a mãe e a irmã de Cassia moram juntas com Cassia e Silver até a nova casa ficar pronta. A tropa do Sr. Scott tem agora oito integrantes: sete boiadeiros e uma boiadeira.

 

E assim, nobres leitores, chegamos ao fim de mais uma linda e dramática história de amor.





Debaixo do Pé de Ingá

18 04 2017

Oi gente, um forte abraço. O nosso último texto foi há bastante tempo, você se lembra? Seu título era “Sinos do Amor”, e se encontra postado no site em três partes. Veja nossa nova mensagem que vai mexer com sua imaginação.

Dono de centenas de alqueires de terra e o maior criadouro de suínos e gado confinado da região, além de um número descomunal de empregados, o latifundiário Sr Manuel Antunes Martins, conhecido pela região como “Manézão” era reverenciado por todos da região como um rei. Vivia com sua família na Fazenda Boa Esperança, junto à sua esposa, Dª Fernanda, Manézão tinha uma única filha, Rosi, de nove anos. Toda carne que era comercializada na região vinha de seu frigorífico, era a riqueza do fazendeiro que movimentava quase todo o comércio do lugarejo, o que fazia dele uma pessoa muito importante.

Na fazenda onde morava, seu braço de direito era o Sr. Fernando Godói do Nascimento, era ele o seu administrador, a família do seu Fernando, ele, sua esposa e o seu único filho de onze anos de nome Marcelo, moravam bem perto do casarão do fazendeiro. Enquanto o Manezão se deslumbrava com sua riqueza, o Fernando se deslumbrava com a boa administração que fazia na fazenda onde ficava o criadouro de porcos.
Rosi, ou melhor, Rosinha, como todos a chamavam deleitava-se de uma infância feliz juntamente com Marcelinho: iam juntos para escola que ficava perto de suas casas, depois passavam o dia todo juntos, correndo pelo terreiro, brincando, sorrindo.

Com o passar dos outonos, nascia o início de seus sonhos. Agora na adolescência, os corações do casal de jovens batiam agora em outro ritmo, o do Amor! E já não mais conseguiam viver longe um do outro. Anos mais se passaram, Marcelinho com dezenove anos e Rosinha com dezessete, se tornaram almas gêmeas e só pensam agora em ficar juntos por toda uma vida.
Rosinha, porém, sabia que o namoro não teria a aprovação de seus pais, pelo seguinte motivo: os dois desejavam primordialmente ter um filho homem para fazê-lo doutor, o que não era mais possível, pois pouco tempo depois de Dona Fernanda conceber a luz à Rosinha, os médicos descobriram um mioma, e fez-se necessário a cirurgia de remoção de útero, destruindo assim a chance de tentarem ter outro filho.
Rosinha e Marcelinho escondiam o namoro com muita incumbência para não serem descobertos. O cenário romântico que embelezava o amor de Rosinha e Marcelo era uma mata debaixo de um frondoso pé de ingá centenário que ficava do outro lado do rio, o lugar era seguro para os encontros, a correnteza era rasa e fácil de atravessar, ali o pai de Rosinha nunca tinha pisado, era outra propriedade. Debaixo daquele pé de ingá, sob o cantar dos pássaros e o som melodioso das águas cristalinas que escorriam suavemente por entre as pedras é que o casal trocava juras de amor e passavam momentos felizes. Com um canivete desenhavam no tronco do ingazeiro muitos corações e escreviam lindas frases de amor e desejos para o futuro.
Um amor puro assim, que nasceu na infância e teve seus sonhos desabrochados nos corações de dois jovens na adolescência, ardente como brasa viva, um amor que nasceu e cresceu como o cedro do Líbano e floresceu como a mais bela palmeira, tal amor deveria ser aclamado pelas estrelas, pelas nuvens e até pelas águas do mais profundo oceano, deveria ser ungido da forma mais suntuosa, com galardão e honrarias, mas o que esperava esse amor tão lindo, tão puro e inocente era um cálice muito amargo.
Manezão, um homem que conhecia muito bem o valor do dinheiro, mas não conhecia o valor da vida, do sentimento, das pessoas; não conhecia o valor do amor. Ao perceber que sua filha estava gostando do empregado, esbravejou e proibiu o encontro de ambos, jamais permitiria que sua filha se casasse com um moço que cuidava dos porcos. O Manezão da fazenda que era venerado como rei pelo povo de toda uma cidade não tinha nada de Majestade, seu aspecto de rei era apenas por seus caprichos, por sua maldade estava destruindo sem piedade a felicidade da própria filha e do seu empregado que nasceu e cresceu em sua fazenda.

Dias depois para evitar que Rosinha continuasse se encontrando com Marcelo, Seu Manuel convida um doutor recém formado para vir à sua casa conhecer sua filha. O jovem médico se encanta pela beleza de Rosi e assim iniciou-se um namoro forçado por intermédio do pai. Rosinha não tirava Marcelinho do pensamento, chorava pelos cantos da casa, amargurada sem deixar ninguém perceber o seu sofrimento, mas quando tinha oportunidade lá estavam, Rosi e Marcelo trocando juras de amor embaixo do ingazeiro.
Um ano de namoro e o casamento é marcado pelo fazendeiro, a alma de Rosinha e Marcelinho está em fel de amargura, a maldade do velho parecia que iria mesmo por um final naquela história de amor.
Dois dias antes do casamento, Marcelo está aflito, não consegue dormir, vai até a cozinha, pega papel e caneta e começa a escrever.

“Rosinha, você foi o meu primeiro amor e será também o meu inesquecível amor, eu jamais te esquecerei, você sempre será a minha doce lembrança. Você se lembra quando íamos juntos pra escola? É, era eu que levava sua mochila, eu era o seu segundo professor, te ensinava as coisas que você não sabia. Nós crescemos juntos, nunca nos separamos por nada, começamos a nos amar ainda éramos crianças, quando ainda escrevíamos cebola com s e sapo com c. Quantos corações, quantas frases de amor escrevemos lá naquele pé de ingá. Aquele ingaseiro será testemunha por toda vida do nosso amor. O canivete que usávamos para escrever, para desenhar tantos corações está aqui ao meu lado, eu vou te mandar de presente. Guarde-a em um baú e a deixe envelhecer, e daqui há muitos anos tire-a do baú, toda enferrujada e lembre-se que ela selou o nosso amor lá no ingaseiro. Você se lembra daquele verso que você escreveu com ela? Você ainda era uma menina. A frase que você escreveu era assim: “Quando eu crescer meu bem, eu serei só sua e você será somente meu”. Os corações, as lindas frases de amor não se apagarão no ingaseiro, o nosso amor também não se apagará, mesmo separados eu desejo a você muitas felicidades, eu quero que você seja feliz. Mas ainda há em meu coração um restinho de esperança, se você se lembrar de mim antes de dizer sim lá em frente ao altar, eu estarei te esperando lá debaixo do ingaseiro. Deixarei um carro atrás da igreja para te resgatar se antes de dizer o sim você disser um não. Lembre-se disso Rosinha, quando você estiver lá na igreja perante o altar, eu ainda estarei te esperando uma última vez, um beijo, meu inesquecível amor. Ass. Marcelinho”.

FIM DA PRIMEIRA PARTE

Rosinha conversava com as empregadas na cozinha quando alguém lhe trouxe algo: uma carta, entregue juntamente com uma lâmina. Ao ver o canivete, disfarçadamente saiu andando e foi para o seu quarto, trancou a porta, abriu a carta e começou a ler. Antes mesmo do findar da carta, lágrimas escorriam por sua face, e um grito silencioso de dor martirizava em sua garganta. Ninguém podia ouvir, mas pelo casarão propagou-se um sentimento de profunda tristeza. As empregadas, que sabiam dos sentimentos de Rosinha, eram complacentes de todo seu sofrimento.
Finalmente é chegado o dia do casamento, Manezão, Dona Fernanda e o noivo doutor Ronaldo estão todos felizes, exceto a noiva.
A cidadezinha está em festa. Nunca antes tinha se visto tanta gente granfina no lugarejo, o pátio da igreja, a praça da matriz, esta repleto de pessoas importantes, a igreja está com flores, toda enfeitada como nunca tivera antes, lá estão os convidados do fazendeiro e do doutor Ronaldo, apenas parentes e pessoas muito importantes ocupavam o interior da Igreja, todos aguardavam ansiosos a chegada da noiva. Era sábado, duas e quinze da tarde, vinte e sete de maio, esse é o mês das noivas, o carro para na porta da igreja e dele desce Rosinha que ia se casar com outro por ordem do pai e da mãe, mas não tirava Marcelinho do pensamento, do coração. Ela sobe bem lentamente as escadarias da Igreja, chega à porta e começa então a marcha nupcial, ela é o alvo de todas as atenções, como está linda a noiva, todos felizes menos a noiva que está com um semblante triste, não consegue esconder. O Manezão vem a seu encontro e a leva perante o altar.

Lá debaixo do ingaseiro está Marcelinho sentado e encostado ao tronco da imensa arvore descascando alguns frutos do ingaseiro e jogando os caroços pelo chão para disfarçar o nervosismo e a dor que sua alma sente, mas ainda com um restinho de esperança em seu coração.
Lá na igreja é chegado o momento de dizer o sim que iria separar um lindo amor que nasceu na infância e duraria com toda certeza por toda uma vida. O padre olha para o noivo e faz a pergunta, a resposta do noivo é sim. O padre olha para noiva e faz a pergunta. O silencio da noiva deixa a igreja em silencio, Rosinha calada desce do altar e tira da manga do vestido aquela lamina cortante e em prantos de choro e gritos começa a cortar, a retalhar o seu belo vestido de noiva e vai saindo em direção à porta, corre atrás da igreja e lá está o carro mencionado na carta à sua espera. A mesma lamina que foi motivo de tanta felicidade foi na igreja motivo de pânico. O fazendeiro fica com a cara de manezão da roça, tem um enfarto, e Dona Fernanda desmaia e são levados para um hospital. Os convidados estão atônitos e perplexos, não conseguem entender o motivo da tragédia. O noivo ficou pasmo no altar, também com a cara de manezão, por essa ele não esperava, o seu diploma não teve nenhuma influencia no coração da noiva. O que falou alto foi o amor de Rosinha por Marcelinho.
E Marcelinho está debaixo do pé de ingá quando escuta um grito ecoar na mata. “- Marcelinhoooo” e de repente aparece na sua frente Rosinha com o vestido todo retalhado.

Os dois se abraçam, se beijam com ternuras e depois um choro que durou vinte minutos, Marcelo pega Rosi no colo e sai da mata com ela nos braços e vai para o carro que está à sua espera, e os dois seguem para a casa do tio que fica a vinte km dali, e sabia da história.
Os pais de Rosi saem do hospital após oito dias e vão para casa. Dona Fernanda está bem de saúde apenas abalada. Mais alguns dias se passam, Rosi e Marcelo estão na casa do tio do rapaz, quando Fernando bate à porta. Ele veio buscá-los a pedido de Dona Fernanda.
Ao chegarem no casarão, Marcelinho e Rosinha entram na sala já ouvem o choro da mãe e o alvoroço de todos que estão por ali. Manezão teve outro infarto, e desta vez foi fulminante. Manuel Antunes Martins acabara de falecer.
Rosinha chora muito, apesar de todo sofrimento que lhe causara, uma boa filha nunca deixaria de amar o próprio pai. Tudo parecia estar sem rumo.
Fernanda, porém, tinha mais um motivo para mandar chamá-los: estava muito abalada, desorientada, e não sabia se sozinha poderia continuar; queria que a filha estivesse com ela, e precisava de alguém para administrar a fazenda e os bens da família. Pediu desculpas ao casal por todo infortúnio, pediu-lhes também para que viessem morar no casarão com ela, e claro, disse que deveriam se casar.
Rosinha, porém estava muito abatida para pensar em casamento, a tristeza da morte do pai a consumia. Em comum acordo, decidiram marcar o casamento para ser realizado em algumas semanas, Rosinha insistiu para que não houvesse nenhum cortejo festivo, que fosse de um jeito simples e bem discreto.
Rosinha e Marcelinho, muito embora de forma trágica, deslumbram agora de uma imensa riqueza que veio para completar uma felicidade plena de um grande amor que nasceu ainda na infância.
Assim chegamos ao fim de mais uma linda história de amor. Que Deus nos abençoe e até a próxima.

Jair Garcia Martins (Jair Padeiro)





Sinos do Amor

18 04 2017

Oi gente, um forte abraço.

O nosso ultimo texto foi “Bodas de Ouro”. Veja a nossa nova mensagem:

Pablo e Juarez com o sobrenome de Rodrigues Gonsales. Dois irmãos gêmeos que eram donos de uma fazenda com oitocentos alqueires de terra e muitas outras propriedades no fundo do sertão mexicano. Dois fazendeiros sagazes, tiranos e cruéis que se enriqueceram em cima de uma mão de obra escrava.

Pablo morava na cidade, tinha um único filho por nome de Ruanito, onde estava o pai também estava o filho, nos eventos sociais, nas reuniões da alta granfinagem, nas festas comemorativas, o Sr. Pablo Rodrigues Gonsales tinha um status bem elevado em meio a alta sociedade e com uma imensa satisfação dizia para todos: “Esse é o meu único herdeiro” – se referindo ao filho Ruanito Rodrigues Gonsales.

A cento e vinte km dali na fazenda cafezal morava Juarez Rodrigues Gonsales, duas almas gêmeas que tinham em seus corações o mesmo sentimento, eram duas personalidades que jamais permitiram que o sino do amor batesse em seus corações.

Na fazenda havia uma imensa colonha com noventa e oito casas que eram todas ocupadas pelos empregados da fazenda, duzentos e noventa e seis trabalhadores moravam ali naquelas casas em uma extrema pobreza, todos ali na colonha viviam em um desconforto lamentável. Dezenas de famílias vivendo uma mão de obra escrava, disfarçada de emprego, que eram imposto pelos irmãos gêmeos.

A quatro km dali separado por uma mata virgem estava a sede da fazenda, quatro mil metros quadrados cercado por um alto alambrado, uma verdadeira fortaleza, ali estava a casa de Juarez Rodrigues Gonsales. O coronel do sertão.

 

Domingo

         14 de Março, 11h40m

         O fazendeiro está na varanda e avista ao longe um carro vindo em direção da sua casa, calça as botas, coloca o seu chapéu panamá e vai até o portão com dois empregados, o carro para em frente ao portão que está trancado, descem três pessoas do carro, seu irmão, sua cunhada por nome Estelita e o filho andam pelo belo jardim e se encantam com a beleza das flores. Enquanto isso na varanda os irmãos conversam.

“Ruanito se formou em agronomia há um mês e eu vou deixá-lo na fazenda por uns seis meses, ele está ansioso por umas férias prolongadas”.

“Nada melhor que a fazenda pra ele que é agrônomo recém formado, você está fazendo certo meu irmão, aqui ele será bem cuidado, ele vai adorar essas férias, tenho certeza”.

E nisso chega Estelita e o filho, e todos vão para o almoço.

 

15 de Março, 15h40m

         É hora da volta, todos se despedem e Ruanito fica com o tio para as tão sonhadas férias.

         Será que Ruanito voltaria? Muita coisa iria acontecer nesse tempo com o jovem ali na fazenda. Veremos mais adiante.

 

Tia e sobrinho sentam na varanda e Juarez lhe dirige essas palavras.

“Amanhã é o grande dia, vai se iniciar a colheita do café e você nunca esteve aqui em tempos de colheita, eu quero que você veja como é bonito de ver quase trezentas pessoas trabalhando em um cafezal. É dali Ruanito que veio a nossa fortuna”.

“É tio, essa é a segunda vez que venho na fazenda, na verdade eu só conheço a sede e nada mais, eu quero conhecer tudo por aqui, tempo eu terei de sobra e confesso que estou ansioso para ver como é feito a colheita do café”.

Um novo dia amanhece naquele sertão, são seis da manhã, Juarez está fazendo o café e o sobrinho aparece.

“Oi tio, bom dia”.

“Bom dia menino, que surpresa você também levanta cedo”.

“Só na fazenda”. – E da um sorriso.

“Eu sempre me levanto cedo para fazer o café depois que fiquei viúvo”.

“Ruanito hoje é o grande dia vamos iniciar a colheita do café”.

“Depois quero ir lá, estou curioso para ver o povo colhendo café”.

“Daqui a pouco você sobe lá, é só seguir essa estrada que fica atrás do pomar e você vê o primeiro talhão do cafezal”.

São quatorze horas, lá está o jovem andando pelo cafezal, Ruanito olha com muita atenção cada movimento dos colhedores, são quase trezentas pessoas a serviço do pai e do tio, uns estão derrubando o café pelo chão, outros abanando o café com uma enorme peneira, outros ensacam o café, e outros usam o rastelo e amontoam o café, assim por diante.

Ruanito sobe até o final do cafezal e ao pé de um morro ele vê algo que lhe deixa impressionado. Um pé de ipê amarelo todo florido e em baixo dele um homem tomando café e ao lado uma moça com duas moringas, Ruanito se aproxima e cumprimenta o homem, e diz que é o sobrinho de Juarez e filho de Pablo, que é um agrônomo recém formado e que vai ficar na fazenda por um bom tempo. E faz para o homem uma pergunta.

“O senhor é colhedor de café?”

“Sim, colho café, capino, o que precisar”.

“E essa moça é sua filha?”

“É a minha filha caçula, tenho três filhas”.

“Ela também colhe café?”

“Não, ela é bombeira”.

“Bombeira?!” – olhou pra moça e sorriu, a moça também sorriu e disse para o pai:

“Meu pai, explica melhor pra ele, ele não sabe as coisas da roça”.

O homem da um sorriso e conclui:

“Bombeiro são as pessoas que puxam água com uma moringa para o povo beber”.

“Ah sim, agora eu entendi, bombeiro na cidade são as pessoas que apagam fogo”. – Olha pra moça e os dois dão um belo sorriso.

E nesse momento chega o fazendeiro.

“E ai, já aprendeu a colher café Ruanito?”

“Nossa tio, eu estou encantando, nem imaginaria que era assim, tão divertido no meio desse povo”.

Os dois desceram para casa e bem perto do casarão o moço faz uma pergunta.

“Tio, quem é aquela moça tão linda lá debaixo do pé de ipê?”

“Aquela moça meu jovem é a rainha do sertão, ela já encantou muitos corações aqui no sertão, mas parece que não quer compromisso, ou ainda não se encontrou com um príncipe encantado”.

“Só pode ser isso, ela é linda demais e me parece ser uma moça bem humilde, eu também fiquei encantando por ela”.

Que felicidade Ruanito estava sentindo.

 

         29 de Março

A colheita está a todo vapor, Ruanito já conheceu as paisagens mais bonitas da fazenda, já andou a cavalo, já caminhou pelos campos verdejantes, pelas campinas floridas, já nadou, já pescou no belo rio que passa no fundo da fazenda, já foi de manhã na mata, já foi de tardezinha para ver a revoada e o canto dos passarinhos, a orquestra da natureza, louvando ao criador. Como canta bonito o sabiá, o bem-te-vi, o urupuru, como pia bonito o nhambu lá no baixadão. A beleza do sertão deixou o jovem fascinado, mais até o momento o que mais encantou Ruanito foi a beleza da moça que ele conheceu lá debaixo do pé de ipê todo florido.

Já era quatro de abril e ele não esquecia, não tirava a Rebeca do pensamento, pela primeira vez em seus vinte e dois anos ele se encantou por uma moça, mais ele não tinha mais visto a bela moça, seu tio o manteve ocupado todos esses dias para arrumar a sacaria que iria ser usada na colheita do café. E lá na roça a Rebeca conversava com seu pai.

“Pai, cadê o Ruanito, ele não veio mais aqui, porque será?”

“Você conhece bem o Juarez não conhece? Deve estar usando ele pra trabalhar, coitado do rapaz, aonde ele veio tirar férias”.

         Rebeca também nos seus dezenove anos pela primeira vez se encantou por um moço. Será que haverá um novo encontro? Veremos mais adiante.

“Hoje é domingo ninguém está trabalhando, a Rebeca deve estar em sua casa”. – Pensava consigo mesmo o rapaz. O jovem estava ainda na flor da idade se despontando para a vida, tinha um coração de ouro, não adquiriu nada do pai e nem do tio. Herdara toda bondade que tinha sua mãe, falava bem devagar, suas doces palavras eram bem pensadas antes de serem pronunciadas, era elegante, sabia se vestir muito bem, era inteligente e lidava de um modo bem educado com as pessoas, mas tinha defeitos como todos nos também temos. O seu defeito era a timidez, era muito tímido, não conhecia os meios que um homem tem para conquistar uma mulher, sua timidez o deixava separado das moças que o admirava. Ele tinha um metro e oitenta e cinco, era moreno, olhos bem verdes, era muito bonito, tinha um porte atlético invejável, mas vivia sozinho, nunca teve uma namorada, nunca desfrutou da doçura que é ter carinhos de uma mulher.

A jovem que ele conhecera lá na sombra do ipê florido era linda, também era morena, olhos castanhos, tinha um metro e setenta, cabelos negros e longos, o seu corpo, ah! Não dava pra descrever, era uma sereia! Que encanto de mulher! Tinha a beleza de uma tarde sertaneja, era conhecida e chamada por todos da colonha por Rainha do Sertão.

São oito horas da manhã, o dia está ensolarado, Ruanito está aflito, quer ver novamente aquela moça, e faz uma pergunta para o tio.

“Aonde mora toda aquela gente que estava colhendo café?”

“Aquele povo mora na colonha, são noventa e oito casas, na quinta casa mora o Sanches nosso administrador, eu já falei com ele a seu respeito e pedi que ele falasse com o pessoal sobre você, vai lá conhecer aquela gente, de agora em diante você está livre para desfrutar das suas férias”.

“Onde fica a colonha?”

O tio explica e o jovem segue rumo a colonha, anda por meia hora e avista a vila.

Na quinta casa ele vê um homem na porta, era Sanches, o administrador.

“Bom dia Sanches”.

“Bom dia Ruanito, entre vamos tomar um café, eu já falei com todo pessoal sobre você”.

Ruanito entra e enquanto eles conversam a esposa do Sanches faz um café. O jovem está perplexo, nunca antes se deparou com tanta pobreza, o piso era o chão, os quartos não tinham portas, não havia sala e nem banheiro, era um mictório no quintal. Um fogãozinho a lenha e paredes pretas. No terreiro brincam crianças magrinhas e desnutridas. Um cenário de pobreza de cortar a alma.

Ruanito parecia não acreditar no que via e pensava consigo mesmo: “se esse homem é o administrador e vive nesse estado, como vivem os demais empregados do meu pai que moram nessa colonha?! O que eu estou vendo é uma escravidão a céu aberto”. Ruanito está de abeca baixa pensativo e o Sanches lhe pergunta:

“Você está bem, você quer mais um café?”

“Obrigado Sanches, eu estou apenas um pouco chateado, está tudo bem”. Despede-se de Sanches e a esposa e sai dali com os olhos embaçados pelas lágrimas, mais adiante já na décima casa vê uma senhora com uma criança no colo e pergunta:

“A Senhora poderia me dizer onde mora o Manuel, o pai de Rebeca?”

“Mora na última casa moço, é bem longe”.

“Vou até lá, obrigado”.

Ruanito vai bem devagar em direção da casa de Rebeca, cumprimenta as pessoas pelo caminho, as que estão na porta, brinca com as crianças que estão no terreiro e finalmente chega na ultima casa. Manuel está na porta. Ruanito se aproxima e o cumprimenta e ambos entram.

“Senta Ruanito, Joana faz um café pra nóis”. – As duas irmãs da Rebeca vêm e cumprimentam o jovem.

O moço fica ali por uma hora e meia conversando, sorrindo como se já o conhecesse há bastante tempo, deixou sua timidez de lado, mas está ansioso, cadê a Rebeca..

Não mais consegue se contiver e pergunta.

“E a Rebeca Manuel, onde está?

“Ela está lá na mina lavando a roupa e só volta a tarde”.

“Onde fica essa mina?”

“É só seguir essa estradinha e entrar no primeiro carreador, a direita bem no pé de uma montanha já é a mina, não tem como errar de longe você vai escutar o barulho da cachoeira que desce bem perto da mina”.

“Eu posso ir até lá conversar com ela?”

“É claro que pode meu filho”.

E lá está Ruanito depois de vários dias, pertinho da moça, ela nem percebe a sua chegada por causa do barulho da cachoeira, ele senta atrás dela, ela está lavando a roupa, e ele diz:

“Oi bombeira” – bem alto.

Ela vira de frente com ele e diz essas palavras:

“Ah Ruanito, que susto você quase me mata do coração”. – E dá um lindo sorriso junto com o rapaz. E conclui:

“Nossa, até que enfim apareceu”.

“É, eu demorei, mas estou de novo com você, parece que o seu negócio é mesmo mexer com água né, os dias da semana você é bombeira e no domingo você passa o dia lavando roupa né?”

“É a minha vida do sertão Ruanito”.

“Você não gostaria de morar na cidade, ter uma casa de luxo com todo conforte Rebeca?”

“Ha, quem sou eu moço para um ia ser uma madame, nasci no sertão, sou muito pobre e acho que vou viver para sempre assim, não posso sonhar com grandezas Ruanito”.

“Engano seu Rebeca, você sabia que Deus pode mudar a vida da gente a hora que Ele quiser?”

“Se Deus quiser moço ele pode fazer isso pra gente sim, mas nós aqui dessa colonha somos um povo esquecido do resto do mundo, trabalhamos o dia todo como se fossemos escravos e o que ganhamos não da para comer”. Algumas lágrimas deslizam pela face da moça e outras lágrimas também deslizam na face de Ruanito.

“Me desculpe por eu estar falando assim, o seu pai e o seu tio é nosso patrão”.

“Que isso Rebeca eu é que estou chateado e muito revoltado com isso, espero que você me perdoe por isso”.

“Você não tem culpa Ruanito”. Depois eles mudam de assunto.

Eles estão ali sentados um perto doutro, conversando sorrindo como duas crianças, depois a moça se levanta e termina de lavar a roupa e os dois sobem a estrada e Ruanito faz a ela uma pergunta.

“Amanhã você vai ser bombeira lá no cafezal?

“Sim, vou estar lá o dia todo”.

“Será que eu posso ser bombeiro junto com você?”

“Ah Ruanito, é claro que sim”. Os dois sorriem, e que sorriso bonito se estampou na face de ambos. O sino do amor estava começando a abater em dois corações ali no sertão.

E no dia seguinte lá estava Ruanito e Rebeca dando água para o povo no cafezal. Ruanito entrava por uma rua e Rebeca por outra. O jovem brincava com as pessoas, sorria, conversava e em poucos dias todos o amavam, Ruanito era muito bondoso. Os dois juntos, ele e a Rebeca desciam pra mina buscar água, subiam da mina, sorrindo, brincando, assim foi por muitas semanas. Ruanito estava batendo o sino do amor no meio daquele povo.

Novamente é um domingo. Rebeca está na mina e Ruanito aparece de surpresa e diz bem alto.

“Oi bombeira”.

“Ah Ruanito, de novo, assim você me mata”. Sorrisos.

“Não, eu não quero te matar.” – A moça se distrai e o sabão cai na água.

“Viu o que voe fez, por sua causa o sabão caiu na água e agora?”

“Eu pego pra você, não fique zangada comigo Rebeca.”

Abaixou-se e pegou o sabão da água e colocou de um jeito bem carinhoso na mão da moça.

“Rebeca o meu tio me falou que você já encantou muitos corações é verdade?”

“Ruanito eu nunca tive namorado, eu nunca namorei, eu Ruanito, nunca beijei um homem”.

“Eu também Rebeca nunca tive uma namorada eu ainda não sei o que é beijar uma mulher, então, nós somos iguais”.

“Será que eu posso acreditar nisso Ruanito?”

“Eu jamais mentiria pra você Rebeca, uma moça tão amável, tão meiga não pode ser enganada, ainda mais quando ela é conhecida por todos como rainha do Sertão.

“Uma rainha sem um palácio, sem um trono e sem um rei, assim sou eu Ruanito”.

“Engano seu Rebeca, o seu rei está aqui bem pertinho de você, bem na sua frente”.

Os dois estão a um palmo de distancia, um olhar penetrante nos olhos de Ruanito vai na alma de Rebeca, outro olhar penetrante de Rebeca vai na alma de Ruanito. Não deu mais para segurar, o coração está dilacerado, se derretendo como cera. Os dois se abraçam e Ruanito acaricia bem lentamente os cabelos negros e longos de Rebeca que está com a cabeça apoiada em seu peito. Em seguida um novo olhar e os dois se beijam com ternuras. O sino do amor bateu forte em dois corações em pleno sertão. A cachoeira, as águas cristalinas daquela mina, o sol, o lindo céu azul, enfim toda natureza foram testemunhas de um lindo amor que marcaria uma vida inteira de felicidades.

Enquanto tudo isso acontecia no sertão, lá na cidade Pablo se prepara para buscar o filho. Os cinco meses e alguns dias se passaram, já era fim das férias que o pai dera para o filho. Será que Ruanito voltaria com o pai? Veremos adiante.

São dezoito horas, Pablo e Estelita chegam na fazenda.

“E daí meu filho, conta o que você achou das férias prolongadas aqui na fazenda”.

“Foi muito emocionante meu pai, pra dizer a verdade pra mim aqui é um paraíso na terra, quase tudo aqui é muito bonito, amei, adorei ficar aqui por esses cinco meses e alguns dias”.

Juarez e Pablo se emocionam com as palavras de Ruanito, Estelita apenas ouve e fica calada, não tem nenhum entusiasmo ao ouvir o filho falar apenas da beleza que tem a fazenda. Ela conhecia muito bem a pobreza da colonha que o pai escondeu do filho por todos esses anos, sabia da mão de obra escrava e outros meios sujos dos irmãos para se enriquecerem. A mãe percebe que o filho queria dizer algo mais, mas se cala. As mães percebem o sentimento dos filhos sem que eles falem. Será que um dia Ruanito falaria para o pai sobre a colonha? Veremos adiante.

A noite passa e no dia seguinte acontece o inesperado, algo que Pablo nem imaginaria, chama o filho para o carro e o filho abre o jogo com essas palavras.

“Pai eu não vou voltar, pretendo ficar aqui até o término da colheita e depois vou me decidir o que eu faço. Meu pai eu conheci aqui na fazenda uma moça que será um dia a minha esposa, eu não vou embora sem a minha Rebeca”.

O pai entra em pânico, se desespera, não se conforma, não quer voltar sem o filho ao seu lado. Não aceita ver o filho se casar com uma moça pobre, insiste com o filho, mas não adianta. Sendo assim o pai volta só com a esposa que apóia o filho, pois queria ver a felicidade do filho. Assim é o amor de mãe.

E a rotina na fazenda voltaria ao normal, muitos dias se vão, semanas se passam e mais uma vez o inesperado acontece. Juarez tem um AVC e fica em uma cadeira de rodas, está sob os cuidados da irmã de Rebeca. Pablo está na cidade inconformado, irado sofrendo muito a separação do filho e a dor é grande pelo incidente do irmão. Três semanas depois ele também tem um AVC e vai parar em uma cadeira de rodas.

O filho busca o pai e a mãe para morar na fazenda, algumas semanas depois é o fim da colheita. Ruanito convida todo povo para vir até a sede e pela primeira vez aquela gente entra pelo portão e fica em frente ao casarão ocupando aquele espaço ajardinado em volta da casa. Lá na varanda estão Estelita, Rebeca e Ruanito, Sanches e ao fundo da varanda estão Pablo e Juarez em uma cadeira de rodas.

Ruanito ergue os braços e pede silencio para o povo e faz um discurso com essas palavras:

“Honrado povo da fazenda Cafezal que agora passará a se chamar Fazenda Sinos do Amor. Meu pai e meu tio não estão bem de saúde e passaram para mim o direito de posse dessa fazenda, eu sou o único herdeiro dessas terras e já foi me dado o direito de assumir a fazenda e a partir de hoje eu sou o vosso patrão. Sanches continuará sendo o administrador. Podem ter uma certeza que o cenário aqui vai mudar, será bem diferente da atual. A vila em que vocês moram será em breve apenas barracos para armazenas insumos agrícolas. Em breve vocês irão morar em casas de alvenaria com todo conforto. Vocês terão salário digno para cuidar bem das vossas famílias. Só uma coisa peço a todo vocês. Plantem amor que vocês irão colher amor. Estelita chorava de emoção ao ouvir o filho falar. Rebeca também chorava muito. Sanches abraça Ruanito e o povo todo se emociona.

Os fazendeiros estão sentados nas cadeiras de roda, abatidos, estáticos, perplexos e envergonhados com tanta maldade que cometeram com aquela gente. De repente quatro homens sobem a escada e põem Ruanito nos ombros e saem pelo jardim e todo povo grita “Viva Ruanito!”.

Dois meses depois Ruanito e Rebeca se casam, uma grande festa com o povo pelo fim da colheita e pelo casamento de Ruanito e Rebeca. Alguns anos já se passaram, Pablo e Juarez já faleceram, mas pagaram um alto preço por tanta maldade que cometeram com aquele povo. Uma colonha co cento e dezenove casas de alvenaria com todo conforto fora construída para os trabalhadores da fazenda. Todos recebiam salários dignos s conforme o prometido por Ruanito. Acabou-se a escravidão, o Sino do Amor bateu bem alto em pleno sertão.

No casarão mora Ruanito, Rebeca e Estelita com dois netinhos. Lá no portão bem no alto um grande sino simbolizando o nome da fazenda com essas palavras:

“Fazenda Sinos do Amor. Que Deus nos abençoe e que nunca deixemos de bater o sino do amor”.

 

Até a próxima se ele assim nos permitir.





Bodas de Ouro

1 08 2016

Oi, gente, um forte abraço. O nosso último texto foi “Praça Getúlio Vargas”. Veja a nossa nova mensagem, em forma de conto.
Sou Márcio Antunes de Oliveira, um doutor renomado. Moro em um bairro nobre, a minha casa é muito bonita, cercada por jardins e em sua volta uma imensa varanda, nela eu vivo sozinho me recordando com muitas saudades da felicidade que eu já vivi em minha longa vida.
O interior da bela casa em que moro é uma obra prima, minha saudosa esposa tinha maestria no arranjo e na escolha dos móveis que ocupam todo espaço da casa em que juntos vivemos por sessenta e um anos.
Bodas de ouro, como ela iniciou-se no coração de dois jovens que despontavam para a vida. Foi assim, veja a minha história de amor:
14 de outubro, 20h40m
Lá estava eu, sentado na mureta do pátio da faculdade onde eu fazia curso do meu segundo ano de medicina, o pátio repleto de estudantes que aos poucos seguiam rumo aos corredores para entrar nas salas de aula, e em poucos minutos o pátio ficou vazio.
E nesse momento passou por mim uma moça em direção ao portão, de cabeça baixa, sentou-se, no final da mureta, bem perto da saída, apoiou a cabeça no pilar que fica no término da mureta, colocou as mãos no rosto, eu fiquei por alguns minutos olhando aquela cena que para mim não era normal, fiquei preocupado e fui caminhando bem lentamente, e parei à sua frente, e fiz a ela uma pergunta:
bodas
– Oi moça, você está bem?
– Não estou muito bem não, estou com uma dor de cabeça…
– Qual é o seu nome, estou vendo que você precisa de ajuda, eu posso lhe ajudar, o meu nome é Márcio…
– Meu nome é Márcia, que coincidência, pode ficar em paz, eu não quero lhe incomodar.
– Essa dor de cabeça é constante?
– Não, uma hora ou outra.
– E que remédio você toma?
– Algumas gotas de dipirona e logo passa…
– A uns três quarteirões daqui tem uma farmácia, eu vou buscar um remédio pra você.
– Não, não é preciso, eu não quero lhe incomodar.
– Não é nenhum incômodo, eu posso fazer isso pra você, mas terá que cuidar do meu material, certo?
Ela olhou para mim e deu um leve sorriso:
– Eu prometo que cuido.
Fui buscar o remédio, que ela prontamente tomou, e depois de alguns minutos, ela exclama:
– Nossa que alívio, obrigada, Márcio!
– Não precisa me agradecer. Onde você mora?
– Eu moro bem longe desse bairro…
– E como você vai embora?
– O meu pai, ele vem me buscar… e você, mora por aqui?
– Não, eu também moro longe, mas estou de carro, chego rápido em casa, o lugar por onde vou o trânsito é tranquilo.
– Isso é ótimo.
– Quais sãos os seus planos para o futuro, que curso você está fazendo Márcia?
– Estou cursando Medicina, é o meu primeiro ano nessa longa caminhada.
– Nossa, então eu dei um remédio pra uma futura médica, olha como estou importante. E juntos nós demos um belo sorriso, e logo após um breve silêncio, vem a pergunta dela para mim.
– E você, que curso está fazendo? Quais são os seus planos para o futuro, o que você está sonhando?
– Eu também sonho em ser um doutor, e esse é também o sonho dos meus pais.
– Ainda hoje eu conheci o futuro Dr. Márcio e ele já me curou, que coisa gratificante!
E que lindo sorriso estampou em nossa face… Começou então a chover, ficamos ali por uma hora e meia, talvez um pouco mais, não sei ao certo, entre risos e prosas.
De repente para um carro em frente ao portão e ela me diz:
– É o meu pai. Tchau, Márcio.Untitled2
E depois dessa sexta-feira, quem ficou com a cabeça perturbada fui eu. Estava encantando pela beleza da Márcia, até aquele momento eu ainda não tinha visto tanta delicadeza em uma moça, ela me deixou fascinado, o meu coração ficou apertado, e eu fui pra minha casa muito emocionado.
– Meu Deus, que momento feliz que vivi ali no pátio da faculdade!
Eu só pensava na próxima segunda-feira, e me perguntava em cada minuto: será que ela tem namorado, será que haverá um novo encontro?
Que fim de semana demorado foi aquele… mas passou.
Untitled3 É segunda-feira, lá eu estou sentado na mureta no mesmo lugar, ansioso para encontrá-la novamente. De repente ela passa por mim, mas não me viu, vestia uma calça jeans e uma blusa verde folha, com os cabelos jogados no ombro esquerdo… Meu Deus, quanta beleza em um único ser! Acho que não sou digno… Então ela caminhou na mesma direção e sentou-se no mesmo lugar da sexta anterior.
Saí andando bem devagar e fui em sua direção, parei então à sua frente:
– Oi, Márcia, tudo bem, como foi seu fim de semana, alguma novidade?
– Não, nada diferente do normal, não saí de casa, não tinha motivos para sair.
– E daí, a cabeça não doeu?
Nós dois sorrimos juntos, e que sorriso de felicidade, um breve silêncio e a resposta.
– Não, Márcio, não doeu, mas se doer o meu anjo da guarda está ao meu lado para me socorrer.
E novamente um belo sorriso se estampou em nossa face.Untitled4
E assim nossos encontros foram acontecendo ali na faculdade, os dias se vão.
14 de novembro
Quantos momentos, quanta gente bonita, moços e moças haviam ali naquela faculdade, mas ninguém mais pôde nos separar, eu só tinha olhos para ela, e ela só tinha olhos para mim, entre nós nasceu um grande amor que seria inseparável.
Não deu mais para segurar a barra, eu tinha que selar aquele amor, aquele namoro com a aprovação dos seus pais, então me decidi.

– Márcia, diga para seu pai que domingo eu irei até sua casa, quero conversar com ele sobre nós.
– Que bom Márcio, já falei com eles a seu respeito, quer dizer, a nosso respeito, eles querem mesmo te conhecer.
E no domingo fui até a sua casa e ela já me esperava, abriu o portão e eu entrei com o carro a pedido dela, a casa ficava bem no alto, que bela mansão e lá no alto estavam seus pais, na varanda que dá acesso à sala. Confesso que minhas pernas nesse momento sentiram o peso do meu corpo e tremeram. Éramos ainda muito jovens e o nosso compromisso com o estudo era muito sério, o momento era difícil, não sabia qual seria a reação de seus pais.
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Márcia pegou em meu braço e me apresentou a eles.
– Esse é o meu pai, e esta minha mãe.
– Muito prazer rapaz, eu sou Ângelo e esta é minha esposa Ester.
– Obrigado por me receberem, o prazer é todo meu em conhecê-los.
Fui convidado a entrar, e confesso que fiquei encantando, tanto com a belíssima casa, quanto com os pais de Márcia.
Fiz o que deveria fazer e sai dali muito feliz, tivemos a aprovação do nosso namoro.
Seu Ângelo e a dona Ester me deram alguns conselhos muito bonitos e profundos, que guardei por toda minha vida. Eu e a Márcia não precisaríamos nos preocupar com o lado financeiro, nossos pais tinham uma situação financeira bem privilegiada e nos ajudariam em tudo aquilo que fosse preciso. Precisaríamos sim nos preocupar com nossos estudos, com o diploma, foi essa recomendação que nos deram. A medicina era um sonho de todos.
Foi uma longa espera, mas os anos se foram e finalmente, que felicidades para todos, somos agora diplomados em uma faculdade renomada. Somos agora o Dr. Márcio e a Dra. Márcia. Casamos e saímos felizes em lua de mel, fomos pra Europa e ali ficamos cinqüenta e quatro dias.
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Quando voltamos, que surpresa tivemos de nossos pais, uma bela clínica toda nossa estava a nossa espera.
E assim eu e a Márcia começamos a nossa independência financeira, aos poucos fomos ficando conhecidos, nossos clientes aumentavam a cada dia. Os anos se vão e foram muitos, cabelos grisalhos, calvície, cansaço, pouca audição, vista fraca, a pele perde o brilho e a elasticidade, aparecem as rugas, os desejos desaparecem, o sono foge da cama, o apetite quase acaba, o corpo surrado começa a adoecer, nossos sonhos começam a desaparecer, são os sinais dos longos anos, da nossa velhice.
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Se durante a nossa vida não fizermos uma boa semeadura, na nossa velhice nós não teremos frutos para colher ai seremos um velho moribundo e abatido andando pela casa ou talvez deitado em uma cama sem ter uma boa lembrança da vida. E a lei natural das coisas que acontecerá conosco se não semearmos uma boa semente.
Hoje na minha velhice, quantas lembranças boas tenho da vida, quantas lembranças tenho da minha clínica que hoje é dirigida por meus filhos, são quatro, três médicos e uma médica. Veja as palavras que um dia Jesus disse para seus seguidores: “O olho é a candeia do corpo, se o teu olho for bom todo o teu corpo será luminoso, mas se o teu olho for mal todo o teu corpo será trevas”.
A doutora Márcia só tinha olhos para o amor, ela nunca olhou o lado financeiro dos doentes, ela olhava sempre a dor e o sofrimento que as pessoas sentiam. E confesso que fizemos muita caridade para os pobres. Como era bondosa a doutora Márcia.
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Uma dor de cabeça, um simples dipirona foi o inicio de um grande amor, um amor que teve sessenta e um anos de convivência, só o destino pode separar, já faz dois anos, mas parece que foi ontem.
18 de janeiro
Eu estava andando pelo jardim e a empregada veio me chamar, me disse que a Márcia queria me ver, fui até o quarto, ela estava deitada, não estava boa e me disse essas palavras.
– Meu velho, eu quero tirar uma foto com você”.
Sua voz quase não saiu, um soluço embargou a minha alma, eu disse que ia até a cozinha tomar água e voltaria para tirar a foto. Eu sai pra não chorar na sua presença, e chorei amargamente no quintal para que ela não me ouvisse soluçar, voltei para o quarto, ela na beira da cama, eu sentei a seu lado e fomos fotografados.
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Ela se deitou e me disse para lhe trazer algumas gotas de dipirona porque sua cabeça doía um pouco, lhe dei o remédio, sai pra fora e chorei novamente. Nesse momento o meu pensamento viajou e eu entrei no túnel do tempo, a lembrança me levou La no pátio da faculdade quando eu a conheci, com uma dor de cabeça e lhe dei o mesmo remédio.
Logo em seguida a empregada me chamou no jardim novamente, entrei no quarto e me deparei com a cena mais triste da minha vida, foi a sua despedida. A bondosa doutora Márcia estava morta.
Uma dor de cabeça e um simples dipirona uniu um amor que brindou bodas de ouro e uma década e mais um ano. E uma dor de cabeça e algumas gotas de dipirona foi a nossa despedida. Essa foi uma longa história de amor.. Que Deus nos abençoe e até a próxima se assim nos permitir.





Mundo Colorido

1 08 2016

Oi gente, um forte abraço. O nosso último texto foi “Amor de Estações”. Veja a nossa nova mensagem.
Vinte e quatro de maio, dezesseis horas e vinte minutos; eu estava dando os retoques finais em um carro, era uma sexta-feira para terminar o serviço eu precisava de uma peça, fechei a oficina e fui até a loja de acessórios comprar o que precisava, vinha bem devagar andando pela calçada já com a peça em minha mão, um pouco mais a frente vi uma cena que me comoveu, era um rapaz tentando a força colocar uma moça em seu carro. Me aproximei e perguntei para a jovem que gritava por socorro. “O que está acontecendo?”. Essa foi sua resposta, “Esse homem quer me colocar em seu carro a força”. “Ah, é isso então rapaz? Se você não deixá-la em paz eu chamo a policia, ou eu mesmo posso resolver essa situação”. O moço não reagiu, saiu em disparada.
A jovem chorava muito, escondendo o rosto nos cadernos. “Não tenha medo senhorita, eu só quero lhe ajudar, qual é o seu nome?”. “Eu me chamo Juliana”. “Vejo que está com alguns cadernos e alguns livros em suas mãos, vem da faculdade?”. “Sim, eu estou vindo da faculdade”. “Meu nome é Roberto, se você não se incomodar eu posso lhe acompanhar em sua caminhada, é claro, se você se sentir bem com minha presença”. “Não, eu não vou me incomodar, de modo algum, porque assim fico mais tranqüila”. “Deixe-me levar o seu material, vejo que você está muito abatida”. “Ah sim, é muita gentileza da sua parte”. “Sua faculdade é longe?”. “Não, daqui nós podemos avistá-la”. Apontando a mão me mostrou. “E a sua casa é longe?”. “Não, fica a seis quadras daqui, a minha caminhada da faculdade até minha casa da no máximo uns mil metros”.
E assim caminham juntos Roberto e Juliana pela calçada sem nenhuma pressa. Em alguns momentos alguns sorrisos em outros o silencio, só o silencio e uma troca de olhares.
“Porque você faz essa caminhada a pé?”. “Caminhar é uma recomendação do médico para mim e esse lugar não é perigoso, aquele moço deveria estar drogado, nunca antes nada de ruim me aconteceu”. “Eu vejo que você é mecânico pois está com uma roupa de oficina”. “Sim, sou um mecânico, um moço pobre, nunca pude ingressar em uma faculdade sempre tive que trabalhar muito para sustentar a casa, meu saudoso pai era muito doente, minha mãe também já se foi e me deixou saudades. Moro sozinho não muito longe da sua faculdade”.
E finalmente os dois estão passando em frente a uma bela mansão e a moça para “É aqui que eu moro”. “Nossa Juliana, essa é a sua casa?”. “Sim, porque você está assustado?”. “Meu Deus, que casa linda, que mansão imponente Juliana, você é muito rica, o que que eu estou fazendo aqui com você?”. A moça da um lindo sorriso e coloca a mão no ombro de Roberto e diz olhando em seus olhos com uma humildade que comove o rapaz. “Que isso Roberto, rico e pobre são iguais, todos são filhos de Deus”. “Você deve ser muito feliz, morando nessa bela casa”. “Felicidade é outra coisa, não é riqueza que vai trazer sua felicidade ou a pobreza que impedirá você de ser feliz. Felicidade é algo que nasce do amor que temos em nossos corações Roberto”.
E nesse momento surge um carro extremamente luxuoso e entra na garagem. “Aquele é o meu pai”. E no momento um cidadão ricamente vestido vem ao lado. “Oi pai, esse é Roberto, ele, esse moço me livrou das mãos de um homem que queria me colocar no carro a força”. Que Deus te abençoe meu jovem, por ter ajudo a minha filha, vamos entrar, tomar uma bebida, conversar um pouco”.
“Desculpe, mas eu preciso ir embora”.
“Tudo bem, eu lhe agradeço novamente, sinta-se a vontade”.
Dizendo essas palavras seu Otavio sai e deixa ambos sozinhos.
“Roberto eu quero te ver mais vezes, vai La na faculdade segunda-feira me buscar, eu vou te esperar”. Os dois se despedem e o moço está encantando pelo modo que foi recebido por seu Otavio e também fascinado por Juliana.
Segunda-Feira, dezesseis horas, lá está Roberto no portão da faculdade, a moça chega e os dois caminham juntos, mas não vão de imediato para a bela mansão onde mora Juliana, vão dar um passeio, andam pela cidade e depois vão a uma sorveteria e em seguida rumam em direção a uma praça e ali ficam por duas horas e vinte minutos. A moça não tem pressa de ir embora, seus pais já sabiam que o horário da chegada nesse dia seria outro. Roberto idem, também não tem nenhuma pressa de sair de perto de Juliana.
Os dois estão felizes, brincam, sorriem como duas crianças. Já está anoitecendo é o momento de irem embora, Roberto pede pra moça fechar os olhos, vai até o maio do jardim e apanha duas rosas vermelhas e coloca nos cabelos de Juliana. “Agora você pode abrir os olhos, o que é que você tem em seu cabelo?”.
A moça passa a mão e diz “São duas flores”. Roberto desliza as mãos nos cabelos longos e negros de Juliana e tira as duas flores e coloca nas mãos da moça. “Roberto, rosas vermelhas são as flores que eu mais gosto”.
O mecânico pede o caderno de Juliana e vai folheando lentamente e desfolha também uma rosa e coloca em cada folha do caderno uma pétala da linda flor.
“Essa flor você vai levar para escola sem que ninguém perceba e essa outra você vai colocar em um vaso e enfeitar sua linda sala”.
O coração de Juliana está transbordando. Nas horas que o casal ficou ali, nenhum beijo ou abraço foi visto pelas pessoas que por ali caminhavam, apenas risos e felicidades. Esse foi o segundo encontro de Roberto e Juliana, a moça sempre viveu em meio à alta sociedade, estudou nas melhores escolas, mas nunca conheceu um moço tão amável como Roberto.
Vinte e sete de maio segunda-feira dia de aula o rapaz não consegue esquecer aquele encontro, não dorme, não consegue trabalhar com atenção no que faz, sói pensa em Juliana, mas quer evitar um novo encontro, os dias se passam trinta de maio já é quinta-feira três horas e dez minutos o telefone toca é Juliana. “Oi Roberto, amanhã já é sexta e já fazem oito dias que nós nos conhecemos e você não veio nem um dia pára me levar até a minha casa, por todos esses dias eu te esperei”. “é que eu ando muito ocupado, não tenho tempo para sair da oficina Juliana”.
“Será tempo mesmo ou você não quer mais ser meu amigo?”. “Não, não é isso, bem que eu gostaria mas eu não posso, eu não devo ser seu amigo Juliana, eu já sofri muito e não quero mais sofrer, não quero mais sonhar com algo que não é para mim”.
E assim foi vários telefonemas mas Roberto não ia se encontrar com a moça. Motivos: mundos diferentes, medo de sofrer, as lembranças de um antigo amor que lhe trouxe muita dor por ele ser pobre. Um romance que terminou sem ter um adeus. Patrícia foi o seu primeiro amor, era uma moça rica que também amava Roberto mas não teve a permissão do namoro e foi levada para longe e o moço nunca mais pode vê-la. Por todos esses motivos o mecânico queria evitar um novo relacionamento amoroso com Juliana que era também uma moça rica.
Quatro de junho Roberto está trabalhando e o telefone toca novamente é Juliana “Oi Roberto tudo bom com você?” por todos esses dias após a aula eu te esperei, mas você não apareceu, amanhã eu vou novamente te esperar, talvez essa será a minha ultima vez que eu te esperarei, lá naquela praça perto da faculdade, as quatro e meia, não esqueça, precisamos conversar”.
E no horário marcado por Juliana, lá estão juntos Roberto e Juliana após vários dias e vários telefonemas. “E Roberto por todos esses dias eu te esperei pra você me levar até a minha casa, mas você não apareceu”. “Juliana, eu não devo mais me encontrar com você, pobre e rico não da certo Juliana, eu não devo ser seu amigo, você deve ser amiga de um moço rico, Juliana você é uma moça já quase diplomada, uma linda mulher, inteligente, meiga e muito bondosa, eu Juliana sou um caboclo, um simples mecânico, sou um homem pobre você deve se casar, Juliana com um moço rico, eu nunca poderei te dar felicidades”. “Você não é pobre Roberto ai dentro do seu coração tem uma imensa riqueza”. Eu sei que você gosta de mim e eu também gosto de você Roberto já é hora de assumirmos essa realidade. Eu não preciso de riqueza Roberto a riqueza meu pai já me deu, a sua fidelidade, o seu amor será a minha maior riqueza, Roberto a maior riqueza que um homem poder dar a uma mulher é o amor e a fidelidade”. “Algumas lagrimas serenas deslizam pela face de Roberto e Juliana. Um abraço e o primeiro beijo, as arvores, os pássaros e as flores presenciaram um lindo amor que estava nascendo em dois corações.
Cinco de junho nesse dia iniciou-se um relacionamento afetivo entre Roberto e Juliana. Dias depois o jovem é levado pela moça para que ele conheça melhor a sua família.
Roberto é recebido com muito carinho pela família, mãe e pai, Otavio e Helena. O namoro tem total aprovação. Porém, deve ser com muita seriedade, Juliana era filha única e muito amada por seus pais.
Dois anos se passaram, a felicidade inundava os corações de Roberto e Juliana, o mundo era colorido de azul e rosas, tudo era felicidades.
Finalmente chega o dia do casamento os dois se casam e vão morar na casa onde Roberto sempre morou com seus pais. Juliana não tinha vaidades era uma moça com pureza em sua alma e não exigiu de Roberto uma casa de mais conforto. Era feliz vivendo ao lado de Roberto naquela casa pobre.
Três anos se passaram os dias pareciam voar e os dois viviam como se ainda estivessem em plena lua de mel, em um mundo colorido.
Quatorze de agosto, esse dia porém começaria uma nova historia na vida do casal.
A oficina está fechada apenas a porta do fundo está aberta, o mecânico esta limpando o almoxarifado bem distraído quando para um carro no pequeno pátio em frente sua oficina, para ele tudo normal, e continua limpando o cômodo que está bem bagunçado. O rapaz vira o corpo para pegar um objeto e se depara com uma cena que parece não ser real.
Não é possível, estou sonhando, não pode ser. Roberto quase tem um AVC, quem é que está de pé na porta, Patrícia a sua primeira namorada o seu antigo amor.
“Oi Roberto, como você está, tudo bem?”.
“Tudo bem, e com você está tudo bem?”
“Sim, tudo certo… nossaquantos anos já se passaram hein Roberto?! Hoje sou uma mulher casada, tenho dois filhos, o tempo passou os nossos sonhos de amor ficaram no passado; eu estou aqui para me despedir de você para sempre Roberto! Nosso amor foi tão lindo mas não tivemos uma despedida, meu pai não aceitou o nosso casamento porque você era um moço pobre, me levou embora para bem longe, nos separando, mas, eu sempre dizia comigo mesma que um dia eu voltaria para te ver e te dizer adeus para sempre.Uma tão linda historia não poderia ser simplesmente soprado longe pelo vento, esquecida ao pé de uma árvore, mergulhada à melodia de uma velha canção, já perdida e abandonada pelo seu próprio compositor… não Roberto, amor verdadeiro não se extingue assim…não se acaba…recordarei sempre! E um dia, quando muito velha já, viajarei nessa longa, triste e fria tarde , e ao abrir o baú de minhas recordações, só o que terei será saudades! Hoje estou aqui bem na sua frente para te dizer adeus para sempre. Roberto você foi o meu primeiro amor, você é um homem maravilhoso, o homem que sempre sonhei em ter ao meu lado, mas o destino não nos uniu simplesmente por você ser um moço pobre, talvez seja essa a última vez que nos encontramos, moro muito longe, estou de passagem, mas você ficara eternamente em minha lembrança”.
“É Patrícia, quanto tempo já se passou, eu, com apenas dezoito anos, praticamente um menino, começando a viver, quando te conheci, como eu te amava, e assimforam três anos de namoro escondido. Meu Deus quanta felicidade! Sei que você ainda se lembra dos planos que fazíamos, dos nossos sonhos de amor, sei que você ainda se lembra das nossas aventuras e do nosso namoro escondido, e ainda está na minha lembrança os momentos felizes que vivemos. O nosso mundo era todo colorido. Mas o destino não nos uniu como você disse, seu pai tirou você de mim, dos meus braços de um jeito brutal assim como um homem maldoso tira o doce de uma criança, assim como uma pessoa má que não vê a beleza de uma flor e a esmaga com ira , a joga pelo chão e nem percebe o perfume que as flores tem. Assim ele fez com o nosso amor, destruiu sem piedade. Mas não tenho magoa dele, ele é seu pai. E tudo isso por eu ser um moço pobre. Para nos separar ele te levou para bem longe e ficou em meu coração a tristeza, a saudade, a amargura e a solidão. Patrícia, você também foi meu primeiro amor, hoje também sou um homem casado, não tenho ainda filhos e amo muito minha esposa, esse será realmente nosso último encontro, mas você estará eternamente nas minhas lembranças.
Já está quase escurecendo e Juliana está preocupada com Roberto, pois ele nunca chega depois das dezenove horas e resolve ir até a oficina que não é muito longe; sai em passos bem apressados. Nesse momento lá no almoxarifado Roberto e Patrícia vão se despedir para nunca mais, um eterno adeus. Os dois se abraçam como duas pessoas que se amam e do abraço carinhoso surge um ardente desejo de um doce beijo e assim movido pela emoção e pelas lágrimas os dois se beijam com ternura. Nesse momento chega Juliana e acha estranho aquele carro de longa distância no pátio da oficina que esta só com a porta do fundo aberta. Vai pelo corredor em passos bem lentos e flagra a cena cinematográfica do beijo. Sendo ela uma mulher de cultura elevada, uma mulher com muitas virtudes não quis fazer escândalos, volta na ponta dos pés e vai embora sem que ninguém perceba. Chega em casa, faz uma mala e vai para casa do seu pai. Após deixar um bilhete com os seguinte dizeres: “Roberto eu sempre te disse que sua fidelidade seria a minha maior riqueza, vou embora para casa do meu pai, por favor eu te peço, nunca mais me procure”.
Roberto volta para casa e não encontra Juliana, a casa está vazia, mas encontra o bilhete. Sai em desespero e vai até a casa de seu Otavio mas não é atendido, volta, o mundo desabou encima da sua cabeça. A dor é tanta que sufoca a alma, sua angústia o abate até os céus. Não há remédio que possa curar a sua dor, nada poderá lhe dar consolo. Ao amanhecer o dia seu Otávio leva sua filha para passar algum tempo na casa do seu irmão que fica a trezentos km de distancia até que tudo se normalize.
Onze meses já se passaram Roberto está inconsolável com a separação mas nada pode fazer para provar sua inocência. O mecânico está na oficina consertando um carro muito abatido de cabeça baixa quando chega um amigo muito íntimo e lhe dirige essas palavras. “Porque você está triste Roberto?”.
“Porque acha que estou triste? Minha vida acabou amigo”.
“Eu acho que não, a esperança nunca pode morrer em nossos corações”.
“Por que você me diz isso”?
“Ela voltou, eu a vi”.
“Ela quem?”.
“Juliana, oras!”.
O rapaz quase tem um AVC, as ferramentas caem de suas mãos. Roberto está estático.
“Você tem certeza disso?”.
“Eu a vi quando seu pai a deixou no portão da sua casa com uma mala na mão”.
Três dias depois Roberto vai tentar sua última sorte, sua última esperança vai ser colocada em jogo, vai escrever pra Juliana uma carta de amor. E assim…
Juliana:
Meu inesquecível amor, não sei se você vai ler a minha carta, mas, se chegar a ler desde já eu quero suplicar lhe que me perdoe . Quando você foi embora, levou consigo a minha felicidade, sem você a vida não tem sentido, sei que sabes o quanto eu te amo como é lindo o nosso amor, o nosso mundo é todo colorido Juliana! Ainda sou o seu rei e você sempre será a minha rainha e que sem você aqui o nosso castelo desmoronou.Feliz serei, se tiver novamente em meus braços corpo tão adorável, exalando em minhas narinas tão suave perfume. E então minha flor, terei o prazer de regar mais linda rosa, com esse amor que emana e transborda do jardim chamado coração…transborda, escorre, suplica o seu perdão em forma de orvalho, transformado em lágrimas! Amo- te! Amo- te demais pra suportar viver sem sua presença sublime! Me perdoe meu amor, volta pra mim!!!
E no final da carta ele explicou o motivo da cena do beijo.
Dois meses se passaram, era domingo de manhã, o mecânico está sentado, pensativo e nesse momento o telefone toca. Era Juliana!
“Oi Roberto, como está, tudo bem?”.
“Estou vivendo por viver Juliana, minha vida não tem mais sentido sem você”.
“Mais tarde eu vou até a nossa casa para termos uma conversa, eu li a sua carta e confesso que ela me deixou comovida”.
Roberto fica eufórico, arruma toda casa, coloca as cortinas na janela, pois elas estavam no fundo do baú há muito tempo, coloca flores sobre a mesa, as flores que ela gosta, rosas vermelhas. E as horas vão passando o dia parece uma eternidade, Roberto está impaciente, não vê a hora de Juliana aparecer frente a porta.
São duas horas, para um carro em frente à sua casa, dele desce seu Otavio, Dona Helena e finalmente Juliana. Todos entram pelo corredor e chega à porta. Seu Otavio cumprimenta Roberto, Helena também pega em mão e o cumprimenta. Todos entram, sentam e depois de alguma conversa Juliana olha bem nos olhos de Roberto e diz com um terno olhar. “Eu te perdôo”. Por um instante um silêncio, a comoção toma conta de todos que estão ali, os dois se abraçam com um abraço caloroso. Colocando assim um final feliz encima de uma solidão angustiante. A carta de amor salvou o seu casamento.
Roberto, um moço pobre, um simples mecânico, que não cursou nenhuma faculdade mas tinha em seu coração uma cultura invejável, a cultura do amor. Amou duas moças ricas, foi amado pelas duas, bebeu dois cálices amargos, foi feliz as duas vezes que amou e vive atualmente com Juliana um amor imarcescível, em um mundo colorido! Fiquem com Deus e até a próxima, se Ele assim nos permitir!





Paraíso Ameaçado

1 08 2016

Oi gente, um forte abraço. O nosso último texto foi “Sela de Prata”. Veja a nossa nova mensagem, e novamente em forma de conto.
O Sr. Mattos Alves de Oliveira é o último remanescente de uma família que desbravou parte do sertão de Goiás, quase divisa com o Estado do Mato Grosso.
Alves, como é chamado por todos, é proprietário de um pequeno sítio com onze alqueires de terra. A propriedade do Sr. Mattos é, por assim dizer, uma parte do paraíso na terra; a beleza daquele rincão sertanejo sequer pode ser descrita.
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Foi nesse pedaço de chão abençoado por Deus que ele e sua esposa, Dona Júlia, criaram seus quatro filhos; e com muito trabalho, de sol a sol, que três deles se formaram. O primogênito, José Roberto, cursou medicina eexerce seu ofício atualmente na cidade de Goiânia; Ester é arquiteta, mora na cidade de Itumbiara; já Henrique formou-se farmacêutico e trabalha em laboratório, também na cidade de Goiânia. O caçula da família, Manoel, que por todos é tratado como “Manoelito”, mora com os pais no Sítio Paraíso; não quis sentar-se nos bancos de uma faculdade, dizia que ficaria na casa dos pais para cuidá-losna velhice, e cuidar do sítio, pois, para duas pessoas de idade, o serviço se torna bem pesado; comprometeu-se em ficar e cuidar dos pais, pois sabia que ambos jamais deixariam aquele rincão sertanejo para morar na cidade com qualquer um dos filhos que fosse.
Manoelito era muito amoroso, mesmo não sendo filho biológico, isso nunca fez nenhuma diferença na vida daquela família, zelava com carinho dos pais e do sítio que era o orgulho da família. A paz reinava naquele pedaço de chão, e ali vivia uma família feliz. E para completar aquela felicidade, os donos da fazenda vizinha, que fazia divisa com o pequeno sítio, era um casal bondoso e amicíssimo da família Alves, o Sr. João e a Dona Antônia.
O sol da felicidade brilhava naquele lindo céuazul, e assim foi por muitos anos.
Porém, existe um ditado que diz assim, “não há mal que sempre dure, não há amor que não acabe”. A vida é cheia de imprevistos, nunca sabemos o que nos espera na próxima esquina. Com o Sr. Mattos e família não poderia ser diferente.
Foi numa manhã de Domingo, 18 de Março…
Alves estava no estábulo tirando leite, D. Júlia estava fazendo pães e Manoelito cortava cana para tratar dos animais, quando a notícia chegou por meio de um moço que seu João havia falecido na madrugada, de infarto fulminante.
A partir desse dia, as coisas começariam a mudar para a família Alves. Uma semana depois outra notícia, D. Antônia, para não ficar sozinha, foi morar com o filho em Campo Grande, e vendeu a fazenda para um latifundiário, o maior criador de gado de Mato Grosso, o senhor Gutièrre Andrade, homem sagaz e obcecado por invernadas, seu objetivo era o único e exclusivo de criar gados.
18h21m, Sexta-feira, 14 de Maio…
É fim de tarde, o astro luminoso já se debruça por detrás das altivas montanhas, a família Alves está na varanda descansando quando avistam um carro de luxo vindo na direção da casa.
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O carro para defronte à varanda, as porta se abrem e duas pessoas descem.
– Boa tarde, eu sou Gutièrre Andrade, e esse é meu filho Renan, sou seu novo vizinho, comprei a fazenda ao lado, que faz divisa com suas terras, e por isso venho cumprimentá-lo, imagino que o senhor seja Mattos Alves de Oliveira, certo?
– Sim, sou eu mesmo, e essa é minha esposa, Julia, e esse émeu filho caçula, Manoelito.
– O que pretende plantar em suas novas terras, Sr. Andrade?
– Vou transformar a fazenda toda em invernada, o meu negócio é criar gado.
– E o senhor, seu Alves, o que cultiva em sua terra? Quantos alqueires têm seu sítio?
– Terra mecanizada são apenas oito alqueires, não tenho muitogado, de pastosó dois alqueires,e um alqueire é um belo pomarcercado por mato, ao todo são onze alqueires.
– Há muito tempo que tem esse sítio?
– Eu sou a quarta geração da família que viveu nesta terra, meus pais, avós e bisavós foram os donos anteriores, é uma herança de família que pretendo passar também aos meus filhos, mesmo que usem apenas para passar seus fins de semana, já que todos têm sua própria profissão.
Mais alguns minutos, um cafezinho, um “boa noite”, pai e filho entram no carro e saem bem lentamente. No carro pai e filho conversam: “Vou comprar esse sítio, você viu que belo rio tem lá na divisa? vou levar a invernada até lá, é ali que vou fazer o bebedouro do meu gado!”, diz o pai, ao que o filho retruca: “Pelo que vi o senhordessa vez não vai conseguir aumentar sua fazenda, meu pai, seu Alves parece que não tem interesse em vender o sítio”.
– Meu filho, aprenda com o paizão aqui, sou um homem poderoso não por acaso, e não vou perder essa parada, o dinheiro fala alto, de um jeito ou de outro esse sítio será meu!
18 de Julho
Novamente Gutièrre aparece frente à varanda.
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Boa tarde, hoje eu vim em seu sítio especialmente para lhe fazer uma proposta, gostaria de comprar suas terras, seu Alves.
– Meu pedaço de chão não está à venda, seu Andrade.
– Mesmo que me desse sua fazenda repleta de gado eu não faria a troca, eu não teria a aprovação da minha família e eu também não tenho interesse em sair daqui, pois eu apagaria de minhas lembranças a memória dos meus antepassados.
– O senhor tem esse direito, a terra é sua. Boa tarde e até mais, seu Alves, caso mude de ideia, me avise.
Dizendo essas palavras, Gutièrre e seus dois guarda-costas sobem na caminhonete sob os olhares espantados da família Alves. Na caminhonete a conversa muda:
“É, meus amigos, terei que me utilizar de outros meios para adquirir essa propriedade”, disse Gutièrre para os dois criados que o acompanhavam.
E dali em diante, o paraíso da família Alves, que já vinha da quarta geração, passou a ser ameaçado. De madrugada os cachorros latiam, no dia seguinte, cerca derrubada, animais desapareciam, e assim foi por muitos dias, coisas estranhas e aterrorizantes aconteciam diariamente no Sítio Paraíso.
Novas propostas vinham até seu Alves, novas recusas iam até seu Andrade. A família Alves percebia a maldade de seu Andrade, mas preferia deixar que o tempo, apenas o tempo, trouxesse solução para o caso.
A família Alves tinha esperança de que um dia o sol dissiparia aquela nuvem negra que pairou no ar e a paz voltasse a reinar novamente em seu sítio.
Os dias se passaram.
19 de Outubro…
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ouvindo a reportagem sobre um acidente ocorrido na BR 364 que liga Goiás até Cuiabá e que um homem por nome Gutièrre Andrade, o rei do gado, estava no hospital entre a vida e a morte, à espera de um doador de sangue do tipo hh, que era raridade, visto que tal sangue que possuí o fenótipo Bombaim; e que, se em três dias não aparecesse um doador, seu Gutièrre morreria com certeza, e diante disso, a família do acidentado daria uma grande soma de dinheiro para o doador que salvasse seu Andrade.
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Manoelito conta para o pai, e o seu Alves fica penalizado, pensativo e diz para o filho: “Esse é o tipo do seu sangue, Manoelito, você pode salvar esse homem”. O moço com sua imensa bondade então não pensa duas vezes e se apresenta no hospital, perante a diretoria hospitalar, dizendo que veio para ser o doador que Gutièrre precisava, pois o seu sangue era do tipo Bombaim. Mas impôs uma condição aos familiares de seu Gutièrre: queria apenas doar e não receber nada em troca, e tudo teria que ficar no mais absoluto sigilo. “O sigilo será absoluto”, responde a junta médica. Todos os exames foram feitos, tudo compatível, o rapaz tinha o mesmo tipo de sangue. E assim Manoelito Alves de Oliveira salvou a vida de Gutièrre Andrade.
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Seu Andrade, após a recuperação, não tinha paz, queria a todo custo saber quem foi o doador que lhe salvou a vida, e após tanta insistência, uma enfermeira foi a válvula de escape para que seu Gutièrre soubesse que foi Manoelito, o vizinho de sua nova fazenda, que lhe salvara a vida.

08h01m, Domingo, 23 de Setembro
A primavera florescia o sertão, a casa de seu Mattos está aberta, todos estão ali bem descontraídos quando um carro de luxo para em frente à varanda que fica bem no alto. Do carro desce Gutièrre, sua esposa,Beatriz, e seu filho Renan. A família Alves sai na varanda e convida a família Andrade para que entrem. Gutièrre é o primeiro a subir, bem lentamente, a escada, cabeça baixa, segurando no corrimão, abre o pequeno portão e é recebido por Manoelito. Seu Andrade não contém a emoção e as lágrimas descendo em seu rosto clamam em alta voz, e em forma de gratidão abraça Manoelito e depois abraça Dona Julia e ali o que se vê entre todos é choro e abraços, e o último abraço foi entre Gutièrre e seu Alves, com um pedido de perdão de seu Gutièrre.
Após a comoção, alguns instantes de silêncio, pois não havia palavras para se expressar diante de tanta gratidão e de tanto amor, Manoelito toma a palavra e diz para seu Andrade:
– Nós, seu Gutièrre, temos o mesmo sangue, o sangue Bombaim corre em nossas veias, mas não tivemos a mesma sorte, o senhor tem centenas de alqueires de terra, centenas de cabeças de gados, tem uma fortuna que causa admiração para qualquer um. Nós, a família Alves, só temos esse pedacinho de terra e apenas quatro vacas leiteiras, o nosso pequeno sítio passa de pai para filho e já é a quarta geração.Esse pequeno sítio foi desbravado com foice e machado, seu Andrade,o trabalho duro é o que engrandece um homem, e não importa o que façamos nessa vida, sem família e sem amor nada somos.
Seu Gutièrre olha embaixo daquele pé de paineira, onde nesse exato momento canta um sabiá, ele está todo florido e sua paina está caindo por toda parte ao seu redor.
Todos que estão ali naquela sala ficam emocionados, o senhor Gutièrre apoia a mão sobre o coração de Manoelito, seus olhos transbordam, e as palavras que deveriam sair de sua boca silenciam-se, e tudo que se vê são lágrimas.
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11 de Outubro
Exatamente quatorze horas e treze minutos, pára um caminhão em frente à casa da família Alvese em cima da carroceria um belo trator vindo direto da agência. O motorista entrega um bilhete para Manoelito com alguns dizeres; – Manoelito, nem toda minha fortuna pagaria a imensa bondade sua e de sua família, mas aceite esse singelo presente. Gutièrre Andrade.
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Dessa vez o dinheiro não falou alto, a ganância foi diluída pela bondade, e assim o sítio da família Alves teve apenas ameaçado o seu semblante paradisíaco, mas não deixaria de continuar a ser o bom e velho Sítio Paraíso.