Bodas de Ouro

1 08 2016

Oi, gente, um forte abraço. O nosso último texto foi “Praça Getúlio Vargas”. Veja a nossa nova mensagem, em forma de conto.
Sou Márcio Antunes de Oliveira, um doutor renomado. Moro em um bairro nobre, a minha casa é muito bonita, cercada por jardins e em sua volta uma imensa varanda, nela eu vivo sozinho me recordando com muitas saudades da felicidade que eu já vivi em minha longa vida.
O interior da bela casa em que moro é uma obra prima, minha saudosa esposa tinha maestria no arranjo e na escolha dos móveis que ocupam todo espaço da casa em que juntos vivemos por sessenta e um anos.
Bodas de ouro, como ela iniciou-se no coração de dois jovens que despontavam para a vida. Foi assim, veja a minha história de amor:
14 de outubro, 20h40m
Lá estava eu, sentado na mureta do pátio da faculdade onde eu fazia curso do meu segundo ano de medicina, o pátio repleto de estudantes que aos poucos seguiam rumo aos corredores para entrar nas salas de aula, e em poucos minutos o pátio ficou vazio.
E nesse momento passou por mim uma moça em direção ao portão, de cabeça baixa, sentou-se, no final da mureta, bem perto da saída, apoiou a cabeça no pilar que fica no término da mureta, colocou as mãos no rosto, eu fiquei por alguns minutos olhando aquela cena que para mim não era normal, fiquei preocupado e fui caminhando bem lentamente, e parei à sua frente, e fiz a ela uma pergunta:
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– Oi moça, você está bem?
– Não estou muito bem não, estou com uma dor de cabeça…
– Qual é o seu nome, estou vendo que você precisa de ajuda, eu posso lhe ajudar, o meu nome é Márcio…
– Meu nome é Márcia, que coincidência, pode ficar em paz, eu não quero lhe incomodar.
– Essa dor de cabeça é constante?
– Não, uma hora ou outra.
– E que remédio você toma?
– Algumas gotas de dipirona e logo passa…
– A uns três quarteirões daqui tem uma farmácia, eu vou buscar um remédio pra você.
– Não, não é preciso, eu não quero lhe incomodar.
– Não é nenhum incômodo, eu posso fazer isso pra você, mas terá que cuidar do meu material, certo?
Ela olhou para mim e deu um leve sorriso:
– Eu prometo que cuido.
Fui buscar o remédio, que ela prontamente tomou, e depois de alguns minutos, ela exclama:
– Nossa que alívio, obrigada, Márcio!
– Não precisa me agradecer. Onde você mora?
– Eu moro bem longe desse bairro…
– E como você vai embora?
– O meu pai, ele vem me buscar… e você, mora por aqui?
– Não, eu também moro longe, mas estou de carro, chego rápido em casa, o lugar por onde vou o trânsito é tranquilo.
– Isso é ótimo.
– Quais sãos os seus planos para o futuro, que curso você está fazendo Márcia?
– Estou cursando Medicina, é o meu primeiro ano nessa longa caminhada.
– Nossa, então eu dei um remédio pra uma futura médica, olha como estou importante. E juntos nós demos um belo sorriso, e logo após um breve silêncio, vem a pergunta dela para mim.
– E você, que curso está fazendo? Quais são os seus planos para o futuro, o que você está sonhando?
– Eu também sonho em ser um doutor, e esse é também o sonho dos meus pais.
– Ainda hoje eu conheci o futuro Dr. Márcio e ele já me curou, que coisa gratificante!
E que lindo sorriso estampou em nossa face… Começou então a chover, ficamos ali por uma hora e meia, talvez um pouco mais, não sei ao certo, entre risos e prosas.
De repente para um carro em frente ao portão e ela me diz:
– É o meu pai. Tchau, Márcio.Untitled2
E depois dessa sexta-feira, quem ficou com a cabeça perturbada fui eu. Estava encantando pela beleza da Márcia, até aquele momento eu ainda não tinha visto tanta delicadeza em uma moça, ela me deixou fascinado, o meu coração ficou apertado, e eu fui pra minha casa muito emocionado.
– Meu Deus, que momento feliz que vivi ali no pátio da faculdade!
Eu só pensava na próxima segunda-feira, e me perguntava em cada minuto: será que ela tem namorado, será que haverá um novo encontro?
Que fim de semana demorado foi aquele… mas passou.
Untitled3 É segunda-feira, lá eu estou sentado na mureta no mesmo lugar, ansioso para encontrá-la novamente. De repente ela passa por mim, mas não me viu, vestia uma calça jeans e uma blusa verde folha, com os cabelos jogados no ombro esquerdo… Meu Deus, quanta beleza em um único ser! Acho que não sou digno… Então ela caminhou na mesma direção e sentou-se no mesmo lugar da sexta anterior.
Saí andando bem devagar e fui em sua direção, parei então à sua frente:
– Oi, Márcia, tudo bem, como foi seu fim de semana, alguma novidade?
– Não, nada diferente do normal, não saí de casa, não tinha motivos para sair.
– E daí, a cabeça não doeu?
Nós dois sorrimos juntos, e que sorriso de felicidade, um breve silêncio e a resposta.
– Não, Márcio, não doeu, mas se doer o meu anjo da guarda está ao meu lado para me socorrer.
E novamente um belo sorriso se estampou em nossa face.Untitled4
E assim nossos encontros foram acontecendo ali na faculdade, os dias se vão.
14 de novembro
Quantos momentos, quanta gente bonita, moços e moças haviam ali naquela faculdade, mas ninguém mais pôde nos separar, eu só tinha olhos para ela, e ela só tinha olhos para mim, entre nós nasceu um grande amor que seria inseparável.
Não deu mais para segurar a barra, eu tinha que selar aquele amor, aquele namoro com a aprovação dos seus pais, então me decidi.

– Márcia, diga para seu pai que domingo eu irei até sua casa, quero conversar com ele sobre nós.
– Que bom Márcio, já falei com eles a seu respeito, quer dizer, a nosso respeito, eles querem mesmo te conhecer.
E no domingo fui até a sua casa e ela já me esperava, abriu o portão e eu entrei com o carro a pedido dela, a casa ficava bem no alto, que bela mansão e lá no alto estavam seus pais, na varanda que dá acesso à sala. Confesso que minhas pernas nesse momento sentiram o peso do meu corpo e tremeram. Éramos ainda muito jovens e o nosso compromisso com o estudo era muito sério, o momento era difícil, não sabia qual seria a reação de seus pais.
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Márcia pegou em meu braço e me apresentou a eles.
– Esse é o meu pai, e esta minha mãe.
– Muito prazer rapaz, eu sou Ângelo e esta é minha esposa Ester.
– Obrigado por me receberem, o prazer é todo meu em conhecê-los.
Fui convidado a entrar, e confesso que fiquei encantando, tanto com a belíssima casa, quanto com os pais de Márcia.
Fiz o que deveria fazer e sai dali muito feliz, tivemos a aprovação do nosso namoro.
Seu Ângelo e a dona Ester me deram alguns conselhos muito bonitos e profundos, que guardei por toda minha vida. Eu e a Márcia não precisaríamos nos preocupar com o lado financeiro, nossos pais tinham uma situação financeira bem privilegiada e nos ajudariam em tudo aquilo que fosse preciso. Precisaríamos sim nos preocupar com nossos estudos, com o diploma, foi essa recomendação que nos deram. A medicina era um sonho de todos.
Foi uma longa espera, mas os anos se foram e finalmente, que felicidades para todos, somos agora diplomados em uma faculdade renomada. Somos agora o Dr. Márcio e a Dra. Márcia. Casamos e saímos felizes em lua de mel, fomos pra Europa e ali ficamos cinqüenta e quatro dias.
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Quando voltamos, que surpresa tivemos de nossos pais, uma bela clínica toda nossa estava a nossa espera.
E assim eu e a Márcia começamos a nossa independência financeira, aos poucos fomos ficando conhecidos, nossos clientes aumentavam a cada dia. Os anos se vão e foram muitos, cabelos grisalhos, calvície, cansaço, pouca audição, vista fraca, a pele perde o brilho e a elasticidade, aparecem as rugas, os desejos desaparecem, o sono foge da cama, o apetite quase acaba, o corpo surrado começa a adoecer, nossos sonhos começam a desaparecer, são os sinais dos longos anos, da nossa velhice.
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Se durante a nossa vida não fizermos uma boa semeadura, na nossa velhice nós não teremos frutos para colher ai seremos um velho moribundo e abatido andando pela casa ou talvez deitado em uma cama sem ter uma boa lembrança da vida. E a lei natural das coisas que acontecerá conosco se não semearmos uma boa semente.
Hoje na minha velhice, quantas lembranças boas tenho da vida, quantas lembranças tenho da minha clínica que hoje é dirigida por meus filhos, são quatro, três médicos e uma médica. Veja as palavras que um dia Jesus disse para seus seguidores: “O olho é a candeia do corpo, se o teu olho for bom todo o teu corpo será luminoso, mas se o teu olho for mal todo o teu corpo será trevas”.
A doutora Márcia só tinha olhos para o amor, ela nunca olhou o lado financeiro dos doentes, ela olhava sempre a dor e o sofrimento que as pessoas sentiam. E confesso que fizemos muita caridade para os pobres. Como era bondosa a doutora Márcia.
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Uma dor de cabeça, um simples dipirona foi o inicio de um grande amor, um amor que teve sessenta e um anos de convivência, só o destino pode separar, já faz dois anos, mas parece que foi ontem.
18 de janeiro
Eu estava andando pelo jardim e a empregada veio me chamar, me disse que a Márcia queria me ver, fui até o quarto, ela estava deitada, não estava boa e me disse essas palavras.
– Meu velho, eu quero tirar uma foto com você”.
Sua voz quase não saiu, um soluço embargou a minha alma, eu disse que ia até a cozinha tomar água e voltaria para tirar a foto. Eu sai pra não chorar na sua presença, e chorei amargamente no quintal para que ela não me ouvisse soluçar, voltei para o quarto, ela na beira da cama, eu sentei a seu lado e fomos fotografados.
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Ela se deitou e me disse para lhe trazer algumas gotas de dipirona porque sua cabeça doía um pouco, lhe dei o remédio, sai pra fora e chorei novamente. Nesse momento o meu pensamento viajou e eu entrei no túnel do tempo, a lembrança me levou La no pátio da faculdade quando eu a conheci, com uma dor de cabeça e lhe dei o mesmo remédio.
Logo em seguida a empregada me chamou no jardim novamente, entrei no quarto e me deparei com a cena mais triste da minha vida, foi a sua despedida. A bondosa doutora Márcia estava morta.
Uma dor de cabeça e um simples dipirona uniu um amor que brindou bodas de ouro e uma década e mais um ano. E uma dor de cabeça e algumas gotas de dipirona foi a nossa despedida. Essa foi uma longa história de amor.. Que Deus nos abençoe e até a próxima se assim nos permitir.

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