Paraíso Ameaçado

1 08 2016

Oi gente, um forte abraço. O nosso último texto foi “Sela de Prata”. Veja a nossa nova mensagem, e novamente em forma de conto.
O Sr. Mattos Alves de Oliveira é o último remanescente de uma família que desbravou parte do sertão de Goiás, quase divisa com o Estado do Mato Grosso.
Alves, como é chamado por todos, é proprietário de um pequeno sítio com onze alqueires de terra. A propriedade do Sr. Mattos é, por assim dizer, uma parte do paraíso na terra; a beleza daquele rincão sertanejo sequer pode ser descrita.
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Foi nesse pedaço de chão abençoado por Deus que ele e sua esposa, Dona Júlia, criaram seus quatro filhos; e com muito trabalho, de sol a sol, que três deles se formaram. O primogênito, José Roberto, cursou medicina eexerce seu ofício atualmente na cidade de Goiânia; Ester é arquiteta, mora na cidade de Itumbiara; já Henrique formou-se farmacêutico e trabalha em laboratório, também na cidade de Goiânia. O caçula da família, Manoel, que por todos é tratado como “Manoelito”, mora com os pais no Sítio Paraíso; não quis sentar-se nos bancos de uma faculdade, dizia que ficaria na casa dos pais para cuidá-losna velhice, e cuidar do sítio, pois, para duas pessoas de idade, o serviço se torna bem pesado; comprometeu-se em ficar e cuidar dos pais, pois sabia que ambos jamais deixariam aquele rincão sertanejo para morar na cidade com qualquer um dos filhos que fosse.
Manoelito era muito amoroso, mesmo não sendo filho biológico, isso nunca fez nenhuma diferença na vida daquela família, zelava com carinho dos pais e do sítio que era o orgulho da família. A paz reinava naquele pedaço de chão, e ali vivia uma família feliz. E para completar aquela felicidade, os donos da fazenda vizinha, que fazia divisa com o pequeno sítio, era um casal bondoso e amicíssimo da família Alves, o Sr. João e a Dona Antônia.
O sol da felicidade brilhava naquele lindo céuazul, e assim foi por muitos anos.
Porém, existe um ditado que diz assim, “não há mal que sempre dure, não há amor que não acabe”. A vida é cheia de imprevistos, nunca sabemos o que nos espera na próxima esquina. Com o Sr. Mattos e família não poderia ser diferente.
Foi numa manhã de Domingo, 18 de Março…
Alves estava no estábulo tirando leite, D. Júlia estava fazendo pães e Manoelito cortava cana para tratar dos animais, quando a notícia chegou por meio de um moço que seu João havia falecido na madrugada, de infarto fulminante.
A partir desse dia, as coisas começariam a mudar para a família Alves. Uma semana depois outra notícia, D. Antônia, para não ficar sozinha, foi morar com o filho em Campo Grande, e vendeu a fazenda para um latifundiário, o maior criador de gado de Mato Grosso, o senhor Gutièrre Andrade, homem sagaz e obcecado por invernadas, seu objetivo era o único e exclusivo de criar gados.
18h21m, Sexta-feira, 14 de Maio…
É fim de tarde, o astro luminoso já se debruça por detrás das altivas montanhas, a família Alves está na varanda descansando quando avistam um carro de luxo vindo na direção da casa.
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O carro para defronte à varanda, as porta se abrem e duas pessoas descem.
– Boa tarde, eu sou Gutièrre Andrade, e esse é meu filho Renan, sou seu novo vizinho, comprei a fazenda ao lado, que faz divisa com suas terras, e por isso venho cumprimentá-lo, imagino que o senhor seja Mattos Alves de Oliveira, certo?
– Sim, sou eu mesmo, e essa é minha esposa, Julia, e esse émeu filho caçula, Manoelito.
– O que pretende plantar em suas novas terras, Sr. Andrade?
– Vou transformar a fazenda toda em invernada, o meu negócio é criar gado.
– E o senhor, seu Alves, o que cultiva em sua terra? Quantos alqueires têm seu sítio?
– Terra mecanizada são apenas oito alqueires, não tenho muitogado, de pastosó dois alqueires,e um alqueire é um belo pomarcercado por mato, ao todo são onze alqueires.
– Há muito tempo que tem esse sítio?
– Eu sou a quarta geração da família que viveu nesta terra, meus pais, avós e bisavós foram os donos anteriores, é uma herança de família que pretendo passar também aos meus filhos, mesmo que usem apenas para passar seus fins de semana, já que todos têm sua própria profissão.
Mais alguns minutos, um cafezinho, um “boa noite”, pai e filho entram no carro e saem bem lentamente. No carro pai e filho conversam: “Vou comprar esse sítio, você viu que belo rio tem lá na divisa? vou levar a invernada até lá, é ali que vou fazer o bebedouro do meu gado!”, diz o pai, ao que o filho retruca: “Pelo que vi o senhordessa vez não vai conseguir aumentar sua fazenda, meu pai, seu Alves parece que não tem interesse em vender o sítio”.
– Meu filho, aprenda com o paizão aqui, sou um homem poderoso não por acaso, e não vou perder essa parada, o dinheiro fala alto, de um jeito ou de outro esse sítio será meu!
18 de Julho
Novamente Gutièrre aparece frente à varanda.
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Boa tarde, hoje eu vim em seu sítio especialmente para lhe fazer uma proposta, gostaria de comprar suas terras, seu Alves.
– Meu pedaço de chão não está à venda, seu Andrade.
– Mesmo que me desse sua fazenda repleta de gado eu não faria a troca, eu não teria a aprovação da minha família e eu também não tenho interesse em sair daqui, pois eu apagaria de minhas lembranças a memória dos meus antepassados.
– O senhor tem esse direito, a terra é sua. Boa tarde e até mais, seu Alves, caso mude de ideia, me avise.
Dizendo essas palavras, Gutièrre e seus dois guarda-costas sobem na caminhonete sob os olhares espantados da família Alves. Na caminhonete a conversa muda:
“É, meus amigos, terei que me utilizar de outros meios para adquirir essa propriedade”, disse Gutièrre para os dois criados que o acompanhavam.
E dali em diante, o paraíso da família Alves, que já vinha da quarta geração, passou a ser ameaçado. De madrugada os cachorros latiam, no dia seguinte, cerca derrubada, animais desapareciam, e assim foi por muitos dias, coisas estranhas e aterrorizantes aconteciam diariamente no Sítio Paraíso.
Novas propostas vinham até seu Alves, novas recusas iam até seu Andrade. A família Alves percebia a maldade de seu Andrade, mas preferia deixar que o tempo, apenas o tempo, trouxesse solução para o caso.
A família Alves tinha esperança de que um dia o sol dissiparia aquela nuvem negra que pairou no ar e a paz voltasse a reinar novamente em seu sítio.
Os dias se passaram.
19 de Outubro…
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ouvindo a reportagem sobre um acidente ocorrido na BR 364 que liga Goiás até Cuiabá e que um homem por nome Gutièrre Andrade, o rei do gado, estava no hospital entre a vida e a morte, à espera de um doador de sangue do tipo hh, que era raridade, visto que tal sangue que possuí o fenótipo Bombaim; e que, se em três dias não aparecesse um doador, seu Gutièrre morreria com certeza, e diante disso, a família do acidentado daria uma grande soma de dinheiro para o doador que salvasse seu Andrade.
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Manoelito conta para o pai, e o seu Alves fica penalizado, pensativo e diz para o filho: “Esse é o tipo do seu sangue, Manoelito, você pode salvar esse homem”. O moço com sua imensa bondade então não pensa duas vezes e se apresenta no hospital, perante a diretoria hospitalar, dizendo que veio para ser o doador que Gutièrre precisava, pois o seu sangue era do tipo Bombaim. Mas impôs uma condição aos familiares de seu Gutièrre: queria apenas doar e não receber nada em troca, e tudo teria que ficar no mais absoluto sigilo. “O sigilo será absoluto”, responde a junta médica. Todos os exames foram feitos, tudo compatível, o rapaz tinha o mesmo tipo de sangue. E assim Manoelito Alves de Oliveira salvou a vida de Gutièrre Andrade.
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Seu Andrade, após a recuperação, não tinha paz, queria a todo custo saber quem foi o doador que lhe salvou a vida, e após tanta insistência, uma enfermeira foi a válvula de escape para que seu Gutièrre soubesse que foi Manoelito, o vizinho de sua nova fazenda, que lhe salvara a vida.

08h01m, Domingo, 23 de Setembro
A primavera florescia o sertão, a casa de seu Mattos está aberta, todos estão ali bem descontraídos quando um carro de luxo para em frente à varanda que fica bem no alto. Do carro desce Gutièrre, sua esposa,Beatriz, e seu filho Renan. A família Alves sai na varanda e convida a família Andrade para que entrem. Gutièrre é o primeiro a subir, bem lentamente, a escada, cabeça baixa, segurando no corrimão, abre o pequeno portão e é recebido por Manoelito. Seu Andrade não contém a emoção e as lágrimas descendo em seu rosto clamam em alta voz, e em forma de gratidão abraça Manoelito e depois abraça Dona Julia e ali o que se vê entre todos é choro e abraços, e o último abraço foi entre Gutièrre e seu Alves, com um pedido de perdão de seu Gutièrre.
Após a comoção, alguns instantes de silêncio, pois não havia palavras para se expressar diante de tanta gratidão e de tanto amor, Manoelito toma a palavra e diz para seu Andrade:
– Nós, seu Gutièrre, temos o mesmo sangue, o sangue Bombaim corre em nossas veias, mas não tivemos a mesma sorte, o senhor tem centenas de alqueires de terra, centenas de cabeças de gados, tem uma fortuna que causa admiração para qualquer um. Nós, a família Alves, só temos esse pedacinho de terra e apenas quatro vacas leiteiras, o nosso pequeno sítio passa de pai para filho e já é a quarta geração.Esse pequeno sítio foi desbravado com foice e machado, seu Andrade,o trabalho duro é o que engrandece um homem, e não importa o que façamos nessa vida, sem família e sem amor nada somos.
Seu Gutièrre olha embaixo daquele pé de paineira, onde nesse exato momento canta um sabiá, ele está todo florido e sua paina está caindo por toda parte ao seu redor.
Todos que estão ali naquela sala ficam emocionados, o senhor Gutièrre apoia a mão sobre o coração de Manoelito, seus olhos transbordam, e as palavras que deveriam sair de sua boca silenciam-se, e tudo que se vê são lágrimas.
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11 de Outubro
Exatamente quatorze horas e treze minutos, pára um caminhão em frente à casa da família Alvese em cima da carroceria um belo trator vindo direto da agência. O motorista entrega um bilhete para Manoelito com alguns dizeres; – Manoelito, nem toda minha fortuna pagaria a imensa bondade sua e de sua família, mas aceite esse singelo presente. Gutièrre Andrade.
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Dessa vez o dinheiro não falou alto, a ganância foi diluída pela bondade, e assim o sítio da família Alves teve apenas ameaçado o seu semblante paradisíaco, mas não deixaria de continuar a ser o bom e velho Sítio Paraíso.

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