Debaixo do Pé de Ingá

18 04 2017

Oi gente, um forte abraço. O nosso último texto foi há bastante tempo, você se lembra? Seu título era “Sinos do Amor”, e se encontra postado no site em três partes. Veja nossa nova mensagem que vai mexer com sua imaginação.

Dono de centenas de alqueires de terra e o maior criadouro de suínos e gado confinado da região, além de um número descomunal de empregados, o latifundiário Sr Manuel Antunes Martins, conhecido pela região como “Manézão” era reverenciado por todos da região como um rei. Vivia com sua família na Fazenda Boa Esperança, junto à sua esposa, Dª Fernanda, Manézão tinha uma única filha, Rosi, de nove anos. Toda carne que era comercializada na região vinha de seu frigorífico, era a riqueza do fazendeiro que movimentava quase todo o comércio do lugarejo, o que fazia dele uma pessoa muito importante.

Na fazenda onde morava, seu braço de direito era o Sr. Fernando Godói do Nascimento, era ele o seu administrador, a família do seu Fernando, ele, sua esposa e o seu único filho de onze anos de nome Marcelo, moravam bem perto do casarão do fazendeiro. Enquanto o Manezão se deslumbrava com sua riqueza, o Fernando se deslumbrava com a boa administração que fazia na fazenda onde ficava o criadouro de porcos.
Rosi, ou melhor, Rosinha, como todos a chamavam deleitava-se de uma infância feliz juntamente com Marcelinho: iam juntos para escola que ficava perto de suas casas, depois passavam o dia todo juntos, correndo pelo terreiro, brincando, sorrindo.

Com o passar dos outonos, nascia o início de seus sonhos. Agora na adolescência, os corações do casal de jovens batiam agora em outro ritmo, o do Amor! E já não mais conseguiam viver longe um do outro. Anos mais se passaram, Marcelinho com dezenove anos e Rosinha com dezessete, se tornaram almas gêmeas e só pensam agora em ficar juntos por toda uma vida.
Rosinha, porém, sabia que o namoro não teria a aprovação de seus pais, pelo seguinte motivo: os dois desejavam primordialmente ter um filho homem para fazê-lo doutor, o que não era mais possível, pois pouco tempo depois de Dona Fernanda conceber a luz à Rosinha, os médicos descobriram um mioma, e fez-se necessário a cirurgia de remoção de útero, destruindo assim a chance de tentarem ter outro filho.
Rosinha e Marcelinho escondiam o namoro com muita incumbência para não serem descobertos. O cenário romântico que embelezava o amor de Rosinha e Marcelo era uma mata debaixo de um frondoso pé de ingá centenário que ficava do outro lado do rio, o lugar era seguro para os encontros, a correnteza era rasa e fácil de atravessar, ali o pai de Rosinha nunca tinha pisado, era outra propriedade. Debaixo daquele pé de ingá, sob o cantar dos pássaros e o som melodioso das águas cristalinas que escorriam suavemente por entre as pedras é que o casal trocava juras de amor e passavam momentos felizes. Com um canivete desenhavam no tronco do ingazeiro muitos corações e escreviam lindas frases de amor e desejos para o futuro.
Um amor puro assim, que nasceu na infância e teve seus sonhos desabrochados nos corações de dois jovens na adolescência, ardente como brasa viva, um amor que nasceu e cresceu como o cedro do Líbano e floresceu como a mais bela palmeira, tal amor deveria ser aclamado pelas estrelas, pelas nuvens e até pelas águas do mais profundo oceano, deveria ser ungido da forma mais suntuosa, com galardão e honrarias, mas o que esperava esse amor tão lindo, tão puro e inocente era um cálice muito amargo.
Manezão, um homem que conhecia muito bem o valor do dinheiro, mas não conhecia o valor da vida, do sentimento, das pessoas; não conhecia o valor do amor. Ao perceber que sua filha estava gostando do empregado, esbravejou e proibiu o encontro de ambos, jamais permitiria que sua filha se casasse com um moço que cuidava dos porcos. O Manezão da fazenda que era venerado como rei pelo povo de toda uma cidade não tinha nada de Majestade, seu aspecto de rei era apenas por seus caprichos, por sua maldade estava destruindo sem piedade a felicidade da própria filha e do seu empregado que nasceu e cresceu em sua fazenda.

Dias depois para evitar que Rosinha continuasse se encontrando com Marcelo, Seu Manuel convida um doutor recém formado para vir à sua casa conhecer sua filha. O jovem médico se encanta pela beleza de Rosi e assim iniciou-se um namoro forçado por intermédio do pai. Rosinha não tirava Marcelinho do pensamento, chorava pelos cantos da casa, amargurada sem deixar ninguém perceber o seu sofrimento, mas quando tinha oportunidade lá estavam, Rosi e Marcelo trocando juras de amor embaixo do ingazeiro.
Um ano de namoro e o casamento é marcado pelo fazendeiro, a alma de Rosinha e Marcelinho está em fel de amargura, a maldade do velho parecia que iria mesmo por um final naquela história de amor.
Dois dias antes do casamento, Marcelo está aflito, não consegue dormir, vai até a cozinha, pega papel e caneta e começa a escrever.

“Rosinha, você foi o meu primeiro amor e será também o meu inesquecível amor, eu jamais te esquecerei, você sempre será a minha doce lembrança. Você se lembra quando íamos juntos pra escola? É, era eu que levava sua mochila, eu era o seu segundo professor, te ensinava as coisas que você não sabia. Nós crescemos juntos, nunca nos separamos por nada, começamos a nos amar ainda éramos crianças, quando ainda escrevíamos cebola com s e sapo com c. Quantos corações, quantas frases de amor escrevemos lá naquele pé de ingá. Aquele ingaseiro será testemunha por toda vida do nosso amor. O canivete que usávamos para escrever, para desenhar tantos corações está aqui ao meu lado, eu vou te mandar de presente. Guarde-a em um baú e a deixe envelhecer, e daqui há muitos anos tire-a do baú, toda enferrujada e lembre-se que ela selou o nosso amor lá no ingaseiro. Você se lembra daquele verso que você escreveu com ela? Você ainda era uma menina. A frase que você escreveu era assim: “Quando eu crescer meu bem, eu serei só sua e você será somente meu”. Os corações, as lindas frases de amor não se apagarão no ingaseiro, o nosso amor também não se apagará, mesmo separados eu desejo a você muitas felicidades, eu quero que você seja feliz. Mas ainda há em meu coração um restinho de esperança, se você se lembrar de mim antes de dizer sim lá em frente ao altar, eu estarei te esperando lá debaixo do ingaseiro. Deixarei um carro atrás da igreja para te resgatar se antes de dizer o sim você disser um não. Lembre-se disso Rosinha, quando você estiver lá na igreja perante o altar, eu ainda estarei te esperando uma última vez, um beijo, meu inesquecível amor. Ass. Marcelinho”.

FIM DA PRIMEIRA PARTE

Rosinha conversava com as empregadas na cozinha quando alguém lhe trouxe algo: uma carta, entregue juntamente com uma lâmina. Ao ver o canivete, disfarçadamente saiu andando e foi para o seu quarto, trancou a porta, abriu a carta e começou a ler. Antes mesmo do findar da carta, lágrimas escorriam por sua face, e um grito silencioso de dor martirizava em sua garganta. Ninguém podia ouvir, mas pelo casarão propagou-se um sentimento de profunda tristeza. As empregadas, que sabiam dos sentimentos de Rosinha, eram complacentes de todo seu sofrimento.
Finalmente é chegado o dia do casamento, Manezão, Dona Fernanda e o noivo doutor Ronaldo estão todos felizes, exceto a noiva.
A cidadezinha está em festa. Nunca antes tinha se visto tanta gente granfina no lugarejo, o pátio da igreja, a praça da matriz, esta repleto de pessoas importantes, a igreja está com flores, toda enfeitada como nunca tivera antes, lá estão os convidados do fazendeiro e do doutor Ronaldo, apenas parentes e pessoas muito importantes ocupavam o interior da Igreja, todos aguardavam ansiosos a chegada da noiva. Era sábado, duas e quinze da tarde, vinte e sete de maio, esse é o mês das noivas, o carro para na porta da igreja e dele desce Rosinha que ia se casar com outro por ordem do pai e da mãe, mas não tirava Marcelinho do pensamento, do coração. Ela sobe bem lentamente as escadarias da Igreja, chega à porta e começa então a marcha nupcial, ela é o alvo de todas as atenções, como está linda a noiva, todos felizes menos a noiva que está com um semblante triste, não consegue esconder. O Manezão vem a seu encontro e a leva perante o altar.

Lá debaixo do ingaseiro está Marcelinho sentado e encostado ao tronco da imensa arvore descascando alguns frutos do ingaseiro e jogando os caroços pelo chão para disfarçar o nervosismo e a dor que sua alma sente, mas ainda com um restinho de esperança em seu coração.
Lá na igreja é chegado o momento de dizer o sim que iria separar um lindo amor que nasceu na infância e duraria com toda certeza por toda uma vida. O padre olha para o noivo e faz a pergunta, a resposta do noivo é sim. O padre olha para noiva e faz a pergunta. O silencio da noiva deixa a igreja em silencio, Rosinha calada desce do altar e tira da manga do vestido aquela lamina cortante e em prantos de choro e gritos começa a cortar, a retalhar o seu belo vestido de noiva e vai saindo em direção à porta, corre atrás da igreja e lá está o carro mencionado na carta à sua espera. A mesma lamina que foi motivo de tanta felicidade foi na igreja motivo de pânico. O fazendeiro fica com a cara de manezão da roça, tem um enfarto, e Dona Fernanda desmaia e são levados para um hospital. Os convidados estão atônitos e perplexos, não conseguem entender o motivo da tragédia. O noivo ficou pasmo no altar, também com a cara de manezão, por essa ele não esperava, o seu diploma não teve nenhuma influencia no coração da noiva. O que falou alto foi o amor de Rosinha por Marcelinho.
E Marcelinho está debaixo do pé de ingá quando escuta um grito ecoar na mata. “- Marcelinhoooo” e de repente aparece na sua frente Rosinha com o vestido todo retalhado.

Os dois se abraçam, se beijam com ternuras e depois um choro que durou vinte minutos, Marcelo pega Rosi no colo e sai da mata com ela nos braços e vai para o carro que está à sua espera, e os dois seguem para a casa do tio que fica a vinte km dali, e sabia da história.
Os pais de Rosi saem do hospital após oito dias e vão para casa. Dona Fernanda está bem de saúde apenas abalada. Mais alguns dias se passam, Rosi e Marcelo estão na casa do tio do rapaz, quando Fernando bate à porta. Ele veio buscá-los a pedido de Dona Fernanda.
Ao chegarem no casarão, Marcelinho e Rosinha entram na sala já ouvem o choro da mãe e o alvoroço de todos que estão por ali. Manezão teve outro infarto, e desta vez foi fulminante. Manuel Antunes Martins acabara de falecer.
Rosinha chora muito, apesar de todo sofrimento que lhe causara, uma boa filha nunca deixaria de amar o próprio pai. Tudo parecia estar sem rumo.
Fernanda, porém, tinha mais um motivo para mandar chamá-los: estava muito abalada, desorientada, e não sabia se sozinha poderia continuar; queria que a filha estivesse com ela, e precisava de alguém para administrar a fazenda e os bens da família. Pediu desculpas ao casal por todo infortúnio, pediu-lhes também para que viessem morar no casarão com ela, e claro, disse que deveriam se casar.
Rosinha, porém estava muito abatida para pensar em casamento, a tristeza da morte do pai a consumia. Em comum acordo, decidiram marcar o casamento para ser realizado em algumas semanas, Rosinha insistiu para que não houvesse nenhum cortejo festivo, que fosse de um jeito simples e bem discreto.
Rosinha e Marcelinho, muito embora de forma trágica, deslumbram agora de uma imensa riqueza que veio para completar uma felicidade plena de um grande amor que nasceu ainda na infância.
Assim chegamos ao fim de mais uma linda história de amor. Que Deus nos abençoe e até a próxima.

Jair Garcia Martins (Jair Padeiro)

Anúncios

Ações

Information

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: