Uma Camponesa

6 11 2017

Oi gente, um forte abraço. O nosso ultimo texto foi “O Retrato da Vida”. Veja a nossa nova mensagem.

Luís Antonio, um cidadão que brindava em meio a sociedade em status bem elevado, era um orador famoso na região, suas palestras arrancavam aplausos da multidão. Este rico empresário no ramo de cosméticos focava suas palestras em estética e beleza feminina, e atraía desta forma enorme público.
Sexta-feira, dezesseis horas, fim de semana, é hora de afrouxar a gravata. Luís Antonio e seu filho Eduardo Augusto entram no carro e seguem rumo à mansão em que residem junto à Madalena, esposa do empresário.
Depois de alguns Km’s percorridos, um carro encosta na traseira da Mercedez do empresário e da um sinal de luz e algumas businadas.
– Filho, aguarde uns minutos, é o Sr. Felipe, um empresário amigo meu.
Luís Antonio coloca o carro no acostamento e desce do veículo, ali, à beira da estrada conversam sem nenhuma pressa de ir embora. Eduardo percebendo que não demoraria breves minutos resolve descer do carro para tomar um ar, anda uns passos, observa os arredores, e avista pouco abaixo dali uma arvore frondosa, cuja sombra por si só já era muito convidativa, e sobre a sombra desta arvore avista uma moça, cujo semblante aparentava demasiadamente cansado.
Eduardo se aproxima bem lentamente e resolve puxar conversa:
– Oi moça, que coisa rara de se ver, uma jovem tão bonita embaixo de uma arvore à beira da pista, está esperando por alguém?
– Estou esperando pelo ônibus rural que vai pra Estrada Cancioneira. Há dez quilômetros de onde eu moro, na mesma estrada tem uma Vila Rural, esse ônibus trás as pessoas de lá pra trabalhar aqui na cidade pela manhã, e leva de volta agora de tarde.
– Fica longe daqui?
– Não muito.
– Entendo… Ah! Que mau hábito meu, estou aqui te fazendo perguntas e nem me apresentei ainda, meu nome é Eduardo Augusto… poderia me dizer seu nome?
– Alice.
– Seu nome é tão bonito quanto você, é um prazer te conhecer Alice!
Os dois se cumprimentam, a moça um pouco tímida com os galanteios do jovem rapaz, e a uns 30 metros dali, os dois empresários continuam conversando como se não houvesse amanhã.
Eduardo então continua seus cortejos à moça:
– Estou realmente encantado, pelas várias cidades as quais passei jamais me deparei com tão pura beleza, jamais imaginaria às margens do asfalto encontrar tão bela flor.
Alice mantém um leve sorriso na boca.
– Fico agradecida… peço porém, que pare com vossos galanteios, pois nada mais me parece querer, além de gracejar de mim.
– Oras, mas claro que não, tudo que sai de mim é sincero como o choro de um recém-nascido, porque diz tais coisas?
Neste momento a menina olha em direção ao veículo no acostamento.
– Aquele carro é de seu pai não é?
– É sim, mas o que há de errado nisso?
– É uma Mercedez! Suas vestes e sua aparência, seu linguajar também não me engana, você diz coisas bonitas com tanta facilidade, logo ve-se que tem muita cultura. O que alguém como você iria querer com uma camponesa como eu? Você provavelmente é muito rico.
– Em partes você está certa, minha família realmente é rica, meu pai é um dos maiores empresários de toda esta região, mas isso não diz respeito ao meu caráter e meu jeito de ser. Eu não tenho todo esse apego que meu pai tem pelo acúmulo de fortuna. Das grandezas da vida o que me cativa são as coisas mais simples, como o canto dos pássaros acima das árvores e o correr das águas de um rio que são suaves e serenas, mas mostram sua enorme força quando suas correntezas se encontram com os rochedos. A natureza e a simplicidade me emocionam, e devo lhe firmar que eu jamais diria tais palavras em vão.
– É realmente bonito ouvir você falar, é como um poeta que coloca toda sua emoção em cada palavra.
– Quem me dera ser um poeta, para que de minha boca, com facilidade saíssem as palavras que emocionam as pessoas. Eu porém não tenho tal dom, toda poesia que me vem à boca neste momento é fruto de uma inspiração….
Alice mostra-se um pouco tímida com as palavras de Eduardo.
Neste momento o pai do rapaz buzina e sem tempo para se despedir Eduardo corre em direção ao carro, com medo de que seu velho se zangue. De longe, embaixo do grande arvoredo Alice podia ver a silhueta de Eduardo acenando através do vidro fumê, que seu pai mantinha fechado por causa do ar condicionado.
– Quem era a moça com quem você conversava?
O rapaz disfarça com perfeição.
– É uma amiga, ela estuda na mesma faculdade que eu.
– Eu vi você conversando com ela e ai eu pensei no dia do seu casamento. Meu filho, quando você se casar eu vou fazer a maior festa da região, parece que eu estou vendo a Igreja repleta de pessoas granfinas e o recinto todo colorido com lindas flores e lá do altar até a porta um tapete vermelho estendido pra você caminhar por cima dele com uma linda noiva, e é claro né, uma moça granfina, filha de doutor ou de empresário bem rico, parece que eu já estou até ouvindo a marcha nupcial da noiva que está indo a seu encontro.
Eduardo não sentia nenhuma emoção ao ouvir o pai proferir tais palavras, pensava apenas na camponesa que acabara de conhecer embaixo daquela arvore à beira da estrada.
No outro dia bem cedo, em sua casa, Eduardo chama sua mãe em seu quarto e diz à ela:
– Mãe, me diz uma coisa, a senhora acredita em amor à primeira vista?
– Meu filho, porque você me faz essa pergunta?
– Mãe, eu conheço tantas moças bonitas e elegantes lá na faculdade, mas nunca me senti atraído por nenhuma delas, mas hoje minha mãe o meu coração se derreteu como cera sobre o sol escaldante, que emoção! Minhas pernas bambearam e eu quase não consegui segurar meu corpo.
– E quem é essa moça que balançou o seu coração?
– Mãe, é uma camponesa.
Dona Madalena fica estática.
– Eduardo Augusto eu não acredito que você foi se engraçar logo com uma camponesa, se o seu pai souber eu não sei o que pode acontecer, ele sonha em ver você se casar com uma moça granfina da alta sociedade, mas não com uma camponesa, o seu pai meu filho é um homem orgulhoso, arrogante, tem mania de grandezas, discrimina as pessoas, não se da bem com pobreza, ele gosta mesmo é de gente rica, gente granfina, ele meu filho jamais aceitará o seu casamento com uma camponesa.
O rapaz nem ouve o que sua mãe fala, está ansioso, esperar passar o sábado e o domingo, e na segunda-feira a tarde pega o carro e segue em direção aquela mesma árvore, e lá está Alice novamente.
– Oi Alice, tudo bem?
– Oi! Tudo bem Eduardo, eu não esperava te ver novamente.
– E eu não esperava ter que passar mais um dia sem te ver.
A moça fica toda tímida com a resposta de Eduardo.
– Olha, eu estou com o carro aqui, são apenas alguns minutos até sua casa, que tal eu te levar pra gente se conhecer melhor nesse meio tempo?
A moça dá um sorriso, o rapaz também sorri. E ela responde:
– Não Eduardo, meu pai acharia estranho e ficaria bravo comigo ao me ver chegar de carro com um rapaz desconhecido.
O rapaz fica meio sem jeito.
– Ah, você tem razão, que idéia a minha…
As palavras desaparecem por alguns segundos, mas um pouco depois Alice sugere:
– Bom, e que tal assim, perto de minha casa tem um rio, você poderia ir lá no domingo e assim podemos pescar um tempo juntos. Você gosta de pescar? Ou melhor, você sabe pescar? – diz a moça sorrindo.
– É claro que eu sei pescar, e aposto que pego mais peixes que você!
Os dois sorriem e que sorriso bonito se estampa em suas faces.
– Então eu vou te esperar no domingo Eduardo, mas com uma condição, se você não pescar mais peixes do que eu você vai ter que deixar o carro e voltar embora a pé certo?!
Novamente um belo sorriso, e o moço conclui:
– Combinado!
Os dois se despedem.
– Até domingo!
O ônibus encosta e a moça vai embora.
Eduardo chega eufórico em sua casa.
– Minha mãe me abraça, me beija, me pega no colo e me diz que eu cresci mais que ainda sou o seu bebê e que você me ama.
– Meu filho que alegria é essa, de onde vem tanta felicidade?
– Eu me encontrei de novo com ela e vou domingo cedo na casa dela conhecer sua família e depois nós vamos pescar.
– No domingo seu pai não vai estar em casa, vai dar uma palestra em uma cidade há uns 200km daqui. Eduardo, eu vou com você, pois quero conhecer essa moça.
Enquanto isso lá na casa de Alice.
– Mãe, sente aqui do meu lado eu preciso lhe contar uma coisa. A senhora acha que é possível um moço rico gostar de uma moça pobre?
– Porque a pergunta, não me diga que você está pensando em se casar com um moço rico. – as duas sorriem.
– Não, não é isso mãe, na sexta-feira como de rotina La estava eu debaixo da arvore quando parou dois carros no acostamento e dois homens granfinos, um de terno cinza e outro de terno preto ficaram conversando, e em seguida um moço desceu do carro e veio ao meu encontro, conversamos por alguns minutos.. ah mãe, que moço bonito, ele me falou tanta coisa bonita, ele parecia um poeta, suas palavras eram ditas com emoção. – a moça dá um suspiro fundo e deita a cabeça no colo da mãe e continua o assunto.
– Eu tenho dezoito anos e nunca tive um namorado, nunca me atraí por ninguém, mas hoje eu me emocionei ao conversar com um moço, confesso minha mãe, que me encantei por um homem.
– E esse moço é rico minha filha?
– Sim, ele é o filho do maior empresário aqui da região.
– Mas conforme a sua pergunta, se um moço rico pode gostar de uma moça pobre a minha resposta pra você é que sim, minha filha, assim como tem gente pobre que gosta de ostentar granfinagem, compram carro financiado, sem ter condições de pagar a prestação, que gostam de viver de aparências, tem também pessoas ricas que não gostam de ostentar, não se exibem para mostrar que são ricas, tem gente rica minha filha que gosta das coisas simples e é possível sim um moço rico gostar e até se casar com uma moça pobre.
– Minha mãe, domingo ele vai vir aqui em casa.
E no domingo bem cedo lá está Eduardo e Madalena, todos se apresentam e se conhecem, entram na sala para conversar e conforme o combinado Alice e Eduardo descem no rio para uma pescaria.
– Eduardo, arrume a sua vara que eu vou arrumar a minha.
Depois de alguns minutos.
– Não é assim que ajeita a vara pra pescar, você fez tudo errado, essa linha é muito grossa, linha grossa só se usa em molinete pra se pescar peixe grande, e não em vara pra pescar piau, piapara ou lambari, pra esses peixes tem que ser fina, e essa bóia, essa chumbada e esse anzol que você colocou, ta tudo errado, vamos trocar tudo.
A moça ajeitou tudo.
– Agora sim, agora você vai conseguir pegar peixe Eduardo. Você sabe pescar?
– É claro que eu sei.
– Você mentiu pra mim, geralmente quem não sabe entalhar uma vara é porque não sabe pescar.
Ela olha pro moço e os dois sorriem. Alice senta a dez metros pra cima de Eduardo, e assim os dois iniciam a pescaria.
Meia hora depois.
– Peguei mais um Eduardo, e você não pega por quê?
– Você é muito esperta, é ai nesse poço que está o peixe.
– Deixa eu ver o jeito que você está pescando.
Alice senta ao lado do moço e fica observando a sua pescaria.
– Eduardo, não é assim que se pesca, eu vou te ensinar. A água está correndo rápido, você tem que soltar a bóia bem devagar, segura a vara, não deixe correr porque se a bóia descer muito rápido o peixe não consegue pegar a isca, desce a bóia bem lentamente e quando a bóia tremer você da um soquinho de leve, não puxe com força se não você tira a isca da boca do peixe e não consegue fisgar entendeu? É assim que se pega peixe, e tem mais uma coisa, você tem que achar o fundo do rio.
– E como é que se acha o fundo do rio Alice?
– É muito fácil, você joga a bóia na água mais parada e vai subindo a bóia na linha, isso vai aumentando a fundura do anzol e quando a bóia deitar é porque você pegou o fundo do rio, ai você levanta a bóia um palmo e faz um teste, se ela correr de pé é ali que você vai pegar o peixe, porque o peixe fica no fundo do rio comendo o trato que a gente joga na água, a isca tem que passar perto dele, entendeu agora como é que se pega peixe, e agora você se lembra do nosso trato, você vai ter que andar vários quilômetros a pé até sua casa!
Os dois sorriem, que sorriso de felicidade se estampa na face dos dois.
Duas horas depois.
– Alice, eu estou com sede.
– Ali em cima tem uma mina, vamos lá beber água.
– Os dois sobem rio acima de mãos dadas e num instante chegam na mina.
– Nossa, que lugar bonito.
Eles tomam água.
– Vamos sentar um pouquinho ali naquela sombra.
E debaixo daquela imensa árvore na beira do rio ao lado da mina que momento feliz que hora inesquecível passou aquele casal. Ele sentou-se e encostou o corpo no tronco da árvore e ela sentou-se ao seu lado e ele bem de leve alisava os seus lindos cabelos negros e longos que desciam quase até sua cintura.
– Alice, que cabelo mais lindo você tem, como você é bonita, meiga e amável.
– Bondade sua, eu não sou bonita.
Os dois se viram de frente, e ela diz:
– Você é que é um moço bonito, gentil e amável Eduardo.
A emoção foi muito forte, um olhar penetrante de lá e outro olhar penetrante de cá. Os dois corações estão batendo forte com um açoite, os passarinhos cantam por cima das arvores e os raios solares penetram por entre as folhas daquela robusta árvore, parecia estar iluminando aquele amor tão puro e inocente que nasceu por acaso embaixo de uma arvore, e agora ali em meio a natureza os dois se beijam com ternuras, foi o primeiro beijo dos muitos que viriam para selar um grande amor nas margens daquele rio. – explode coração.
Uma hora depois.
– Eduardo, o sol já está alto, vamos pra casa, o almoço já deve estar pronto.
Ao chegarem em casa, Seu Manoel pergunta:
– E daí, vocês pegam muito peixe?
A moça se desmancha de rir, olha para o rapaz e diz:
– Sim, pegamos bastante peixe.
Dona Madalena diz:
– O meu filho nunca pescou.
A Dona Vitória olha pra filha e conclui:
– Ah, agora eu entendi o sorriso de Alice.
Madalena está toda feliz ali na casa dos camponeses e diz para o filho.
– Nós vamos embora a noitinha meu filho.
Duas horas da tarde.
– Eduardo, agora nós vamos andar a cavalo.
Os dois montam.
– Segure na minha cintura. – diz Alice.
A moça solta as rédeas e o cavalo sai a galopear.
Duas horas de passeio e depois os dois sentam na sombra e a moça pergunta:
– E daí Eduardo, você gostar de passar o dia comigo?
– Eu adorei ficar todo esse tempo com você Alice, estou encantando, você foi a coisa mais linda que aconteceu na minha vida, eu sinto que não conseguiria viver nem mais um dia sem você. Alice, eu te amo.
– Você também foi a coisa mais maravilhosa que me aconteceu, eu também não consigo mais viver sem você, eu também te amo Eduardo.
Os dois se olham, ela está com a cabeça deitada em seu colo e os dois fazem uma chuva de beijos. – explode coração.
Que amor lindo nascia naquele casal, uma plebéia que morava no sertão, uma camponesa e um moço rico que morava na cidade. O sol já está se declinando e os dois chegam em casa.
– É meu filho, chegou a hora de irmos embora.
– Eduardo então pede a moça em namoro e sob algumas recomendações fica tudo acertado, e todos se despedem.
O carro sai do carreador e entra na estrada do Cancioneiro, atravessa o rio e em poucos minutos já entra na cidade. Esse trajeto foi feito por três anos no mais absoluto sigilo por mãe e filho, enquanto o empresário fazia suas palestras por todo país, aumentando a sua riqueza, Eduardo e Madalena passavam dias felizes ali na chácara Boa Esperança, junto com Alice e sua família.
Mas como não existe crime perfeito, Luís Antonio começa a perceber que o filho está escondendo alguma coisa e o namoro escondido começa a vir à tona, o empresário começa a perceber que o carro andou uma estrada de terra, chama um de seus empregados e lhe designa uma missão, para vigiar o filho quando ele viajar para fazer suas palestras, o caso então é descoberto, e o empresário furioso obriga Madalena a lhe dar explicação, e a mulher debaixo de lágrimas é obrigada a contar toda a história, o Sr. Luís Antonio então da o ultimato, o filho está terminantemente proibido de ir à chácara Boa Esperança.
Uma Camponesa (Segunda Parte)
Após a decisão maldosa, cruel e tirana tomada pelo empresário de separar e acabar com o namoro do filho com Alice, o cenário que antes era de felicidades se deslumbra agora em tristezas e melancólicas lembranças de um amor que era lindo e que a vida fez nascer em dois corações que queimavam como uma brasa viva em um ardente desejo de se unirem por toda vida. A camponesa que sentiu em sua vida a primeira vez a doçura e a felicidade em ver o amor bater como um sino, o som do amor em seu coração, está agora com a alma dilacerada vivendo somente de recordações daqueles momentos felizes que ela viveu com Eduardo Augusto, o primeiro e grande amor da sua vida.
Chácara Boa Esperança, domingo, dez da manhã.
O casarão de madeira que está bem próximo de belas palmeiras ao lado de uma paineira toda florida está em silencio, ali no interior daquele recinto se vive uma enorme tristeza, aquele casal de camponeses está penalizado com a tristeza da filha, a mãe tenta amenizar a dor que a filha sente, eles entram no quarto e sentam na beira da cama e mencionam essas palavras:
– Minha filha, não fique assim, você está nos deixando muito tristes com sua tristeza, onde está aquele teu sorriso bonito que se estampava em sua face a todo momento, onde está sua alegria, aquela felicidade que irradiava em sua face tão angelical. Alice, nós te amamos muito e não queremos te ver assim tão triste, levante, vai pescar com o teu pai, ou andar um pouco na beira do rio e ouvir o canto dos passarinhos, admirar a beleza da natureza, o dia está lindo minha filha, nós sabemos que o que lhe aconteceu é doloroso, mas você não deve ficar assim, já se foram várias semanas e ele não apareceu, algo deve ter acontecido, o pai dele deve ter descoberto de vocês e o proibiu de vir aqui, não fique assim, não perca a esperança, se ele tiver que ser seu, uma hora ou outra ele vai aparecer.
Seu Manoel acrescenta:
– Eu tenho minhas duvidas, eu acho que o rapaz quis apenas brincar de amor com os seus sentimentos Alice. Vitória, nós somos camponeses, o Eduardo é um moço rico e filho do maior empresário da região, o seu Luís é dono de uma fortuna, ele jamais vai permitir que o seu filho, seu único herdeiro se case com uma camponesa pobre como nossa filha, o Eduardo já deve ter compromisso com uma moça granfina da alta sociedade.
– Eu não acredito nisso meu pai, o Eduardo é um moço maravilhoso, quando eu o conheci embaixo daquela arvore eu também pensei que ele queria brincar comigo, mas ele não tem essa maldade, é um moço sincero, o nosso namoro nesses quase três anos me mostrou isso.
E nesse momento a moça coloca a mão sobre o rosto com um choro espremido, comove seus pais, Manoel sai do quarto para não chorar perto da filha, a mãe fica emocionada e também não contém as lágrimas, e ouve a filha dizer essas palavras:
– Mãe, quantas saudades eu tenho dos dias felizes que passei com o Eduardo aqui na chácara, quantas saudades eu sinto das horas que passamos na beira do rio, das nossas pescarias, eu me lembro do dia em que eu o ensinei a pescar, como ele aprendeu a pegar peixes, minha mãe que saudades daqueles dias que ele tocava o violão por horas na sombra de uma arvore e eu ficava ouvindo bem ao seu lado, como ele toca o violão de um jeito bonito, minha mãe que saudades da nossa cavalgada nessas colinas, nessas estradas por entre a mata e depois do nosso passeio a cavalo a gente sentava em uma sombra e trocávamos juras de amor e fazíamos planos para o nosso futuro, ele dizia que queria morar aqui na chácara quando a gente se casasse, mãe eu tenho certeza de que o Eduardo me ama.
E depois dessas palavras as duas se abraçam e choram juntas.
E lá em um condomínio fechado em um bairro nobre da cidade, em uma mansão luxuosa onde se brinda somente a nobreza, o senhor Luís Godói do Nascimento transbordava no coração um só sentimento, ele só tinha um objetivo, era o de casar o seu filho com uma granfina da alta sociedade e continua irredutível em sua decisão, não aceitava em hipótese alguma o namoro do filho com uma camponesa.
Dona Madalena era uma pessoa muito amável e não concordava com a tirania do esposo em não aceitar o namoro pelo simples fato da moça ser uma camponesa, filha de uma família humilde, dessa forma ela tenta convencer o esposo com essas palavras:
– Luís, o nosso filho está ficando doente, só fala em Alice, não tem mais animo pra nada, está entrando em uma depressão profunda, se você não tomar uma atitude eu não sei o que será do nosso filho, Luís, ele ama essa moça, ela é a única que ele amou até hoje, deixe ele ir na casa de Alice.
– Madalena, eu sou o empresário mais influente da região, nas minhas palestras só vão pessoas granfinas da alta sociedade, minha oratória é sobre estética, luxo e vaidades, em meu discurso eu sempre menciono a elegância que o dinheiro nos oferece nas passarelas da vida, Madalena como eu, com o padrão de vida que tenho, com o status elevado que vivo em meio a sociedade posso permitir que o nosso filho se case com uma camponesa, isso para mim seria um desastroso, isso sairia na mídia em todos os meios de comunicação, onde iria minha reputação, o nosso filho Madalena tem que namorar e se casar com uma moça granfina e jamais com uma camponesa.
Uma Camponesa (Terceira Parte)
Três meses já se passaram, Eduardo Augusto e Madalena vivem dias de angústia, estão sob vigilância vinte e quatro horas por dia. Lá na chácara a tristeza assolava Alice e sua família, ninguém sabia o motivo da ausência de Eduardo e sua mãe. Mas tem um ditado que diz que não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe. O amor de Alice e Eduardo, mesmo separados, aumentava a cada dia, mas a maldade do senhor Luís Antonio estava com os dias contados; mais dois meses se vão, são agora cinco meses de separação.
Domingo, quatro horas da tarde, o empresário está eloqüente dando a sua palestra, o assunto é o de sempre, a eficácia da estética dos cosméticos. De repente ele passa mal e é levado as pressas para o hospital, e lá, depois de vários exames o médico informa que Luís Antonio tem uma leucemia já em estado avançado.
O empresário, sempre focado em acumular riquezas deixava passar os leves sintomas do surgimento de sua doença que acontecia de tempos em tempos.
O médico então recomenda o tratamento de transplante de medula óssea para tentar reverter essa situação, que o empresário, sem supor, deixou chegar. Uma doença tão grave à tanto tempo se manifestando e Luís Antonio jamais parou para fazer um check up completo, priorizando somente uma vida cheia de futilidades e mesquinharias, no fulgor e agitação daquela intensa correria, que, se misturam ao seu materialismo e insensibilidade; menosprezando assim, sinais internos que seu corpo manifestava, gritava, pedia socorro.
Mais do que imediatamente mandam anunciar nos jornais e em todas as rádios que o empresário Luís Antonio Godói do Nascimento, o empresário mais bem sucedido da região, está internado e necessitando de uma doação de medula óssea. A família do empresário oferecia como gratificação uma enorme quantia em dinheiro. Mais que rapidamente várias pessoas apareceram para fazer o teste de compatibilidade, pensando no dinheiro que receberiam como recompensa, porém, entre todos que se apresentaram não havia doadores compatíveis.
Dias depois, Madalena diz para o filho que está muito nervosa, e quer ficar um dia em um lugar bem calmo para se recompor. Nada melhor que a casa de Alice, e é pra lá que eles vão. Uma hora depois mãe e filho estão na casa do senhor Manoel, contando toda a história, os fatos mencionados comovem e entristecem toda a família. Alice então toma a palavra e diz que quer fazer os exames e que se for compatível ela vai salvar o senhor Antonio daquele sofrimento. Todos se abraçam e a comoção toma conta de todos ali. A moça e as duas famílias se apresentam no hospital para fazer os exames e a pedido da moça, tudo terá que ser feito no mais absoluto sigilo. Dois dias depois, todos estão ali, na sala do médico, à espera do resultado. O Dr. chega com os papéis na mão e pergunta:
– Quem é Alice Alcântara Camilo?
– Sou eu doutor.
O médico faz uma pausa e fita com um terno olhar todos ali e diz de um jeito bem suave:
– Você Alice, mostrou-se uma moça corajosa, sua atitude merece aplausos, você é digna de muita gratidão.
À medida que o médico falava todos se emocionavam, e o médico conclui:
– Alice, só você pode salvar este homem.
Os abraços e o choro entre as duas famílias comoveram a todos ali.
Um tempo depois o empresário já recuperado pergunta quem foi o doador que lhe salvou a vida, Madalena ainda comovida pela atitude da moça não consegue guardar o segredo e conta tudo.
– Luís, quem salvou a sua vida não foram as pessoas que você gosta, não foi um burguês, um empresário… quem lhe salvou a vida foi Alice, aquela moça que você não gosta, aquela que encantou o nosso filho, foi ela, foi Alice a doadora que você precisava.
Luís Antonio ao ouvir tais palavras quase tem um colapso nervoso, ao saber que aquela camponesa, aquela que, recolhido em sua extrema arrogância outrora lhe humilhou… ah meu Deus! Meu pai…por quê? Por que tão tarde me fizeste enxergar a vida? Os valores humanos, não os valores “reais”? Não consigo me perdoar por ter feito tanta maldade, esta pobre criatura não guardou nenhum rancor! E só então, percebe que não acordou tarde. Tarde seria se estive debaixo da terra, numa campa fria, sem esperança alguma! E percebe também, que pra ser digno de uma nova chance, precisa perdoar antes de tudo a si mesmo. É o início de toda redenção. Sua alma está chorando. Passado alguns dias, pede para o filho o levar até a casa da moça. Dez horas da manhã o carro para em frente a casa e a família de seu Manoel vem ao encontro do carro, e a família do empresário é convidada a entrar. Todos entram na sala e o empresário não se contém e pergunta:
– Filho, essa moça é Alice?
– Sim meu pai, essa moça é Alice.
O homem da um abraço na moça e chora como criança com a cabeça apoiada em seu ombro, quer falar alguma coisa, mas as palavras não saem, um clima leve paira no ar, comovendo e contagiando a todos que ali estão. Depois de alguns instantes, se recompondo, o senhor Antonio toma a palavra:
– Eu vim aqui para conhecer o anjo que me salvou, e, também para dizer a todos que eu estou muito feliz e algo muito importante para mim é saber qual será a data do casamento de Eduardo e Alice.
Ao ouvir tais palavras Eduardo abraça sua amada, e vendo os dois ali, tão plenamente apaixonados, a impressão que as famílias têm, é de que, história romântica não existe, o que de fato existe é a vida real; com seus protagonistas vencendo os antagonistas, num enredo repleto de falhas, insensibilidade, mas que no final, são todos vencidos pelo amor! E aquelas pessoas todas ali, todas elas sem exceção, compondo o palco da vida! E já no crepúsculo da noite, após terem passado um dia juntos, tudo fica acertado em comum acordo: o empresário vai construir uma bela casa na Chácara do senhor Manoel e dar de presente para Alice e o filho Eduardo morar após o casamento, pois esse é o desejo do filho, quer morar perto da sogra, e em forma de gratidão vai construir também uma linda casa para Manoel e Vitória, e diz que a mobilha da casa nova também será por sua conta. O casamento é mercado para maio, pois esse é o mês das noivas, e não está tão longe, faltam apenas seis meses, é o tempo para os preparativos e a construção das duas casas. Madalena está em estado de graça, quanta felicidade uma camponesa trouxe para sua família.
Seis meses depois Alice e Eduardo estão eufóricos, o dia está chegando, mas antes do dia marcado para o enlace matrimonial o empresário quer dar uma palestra e dessa vez a palestra será em sua cidade, convida a imprensa e é claro não poderão faltar os camponeses da região. Esse é o pedido do Sr. Luís Antônio.
Chega então o dia da palestra, o maior salão da cidade está lotado, todos querem ouvir o maior orador da região falar sobre cosméticos, sobre a estética e sua eficácia. Mas o empresário pega todos de surpresa e muda o tema do discurso. Veja a sua oratória:
– Boa noite a todos que me ouvem, quero externar os meus sinceros agradecimentos nessa noite aos ouvintes que me ouvem através das ondas e a todos os aqui presentes. Todos sabem que o tema do meu discurso sempre foi sobre estética e cosmética, mas hoje o discurso tomará um novo rumo, vou falar sim da estética, mas de um modo diferenciado. As mulheres são vaidosas por natureza, isso está no DNA feminino, e as mulheres que não tem uma beleza natural, quando vão a um salão de beleza, elas saem de lá belas, bonitas, isso prova o poder que tem a estética e os cosméticos. A estética tem o poder de retardar o envelhecimento, ela esconde as rugas no rosto das madames, já avançadas em idade. A estética, os cosméticos, deixam as mulheres mais belas e mais joviais. Mas ela, a estética, queridos ouvintes, não tem nenhum poder de arrancar as rugas que temos na alma, as rugas que trazemos na alma é só o amor que pode arrancar. Eu era um cidadão cheio de mim, estava “acentado” em um alto pedestal. Talvez a minha fortuna me deixou assim, tão orgulhoso e arrogante. Eu me considerava um homem poderoso e invulnerável. Isso se chama rugas na alma, mas a vida me ensinou que temos que ter uma alma bondosa, pois só assim nós nos encontramos com a felicidade e irradiamos beleza, independente do nosso estado físico.
O empresário encosta em Alice:
– Queridos ouvintes, eu fazia acepção de pessoas, mas Deus colocou essa camponesa no meu caminho para que eu descobrisse a real beleza da vida, sim caros ouvintes, foi essa camponesa que me salvou e também mudou minha vida.
O salão está repleto, uma mescla de burguesia e camponeses. Quatro homens que moram no campo, movidos pela emoção eloqüente do empresário se adiantam pelo corredor do salão e colocam Luís Antonio nos ombros, e a platéia fica em pé e aplaudem, e aclamam em voz alta:
– Viva o senhor Luís!
– Viva!
No outro dia, a mídia anuncia que o discurso do empresário, o rei da estética, prega uma verdadeira lição de vida, e faz muita gente pensar e repensar sobre o orgulho, a prepotência e a mania de grandeza.
E suas últimas palavras, após inflamar o euforismo da platéia, foi um convite para o casamento do seu filho.
E o dia mágico, tão sonhado e esperado, enfim, chega. A igreja está o próprio Jardim do Éden, colorida numa mistura de variadas flores, um tapete vermelho é colocado no imenso corredor da igreja, no recinto, não mais há rico ou pobre; todos os rostos se misturam, formando um belo retrato da humanidade, onde nnão há lugar para diferenças sociais. No altar, os padrinhos e o padre todo entusiasmado a espera dos noivos. A noiva que está magnificamente bela irradiando simpatia, pisa no corredor da igreja, todos se levantam e a camponesa que foi um milagre divino da família de Luís Antonio é reverenciada com muitas honrarias; sob uma chuva de flores, inicia-se a marcha nupcial e o juramento de se amarem por toda vida, na alegria ou na dor até que a morte os separe, foi feito perante o altar. E assim Luís Antonio Godói do Nascimento teve o seu sonho realizado, viu o filho, o seu único herdeiro , Eduardo Augusto, se casar em uma igreja toda colorida de flores, a igreja estava repleta, muito embora não foi como ele sonhava. Na igreja, não tinha a alta sociedade, a noiva não era possuía bens,não era filha de um doutor ou de um empresário. A multidão estava meio a meio, toda mistura com granfinos e com os camponeses da região. A noiva era uma plebéia, era uma camponesa. Mas Luís Antonio estava irradiando felicidades junto com sua esposa, hoje ele é um cidadão amado por todos, porque agora sim o empresário é um homem rico por completo. O que a estética e os cosméticos com sua eficácia não conseguiram fazer, o amor conseguiu, foi arrancar as rugas da sua alma, e tudo isso foi graças a uma bondosa menina, uma camponesa.
E assim, caros leitores, chegamos ao fim de mais uma dramática história de amor.

Que Deus nos ilumine e nos dê sabedoria para que tenhamos uma alma bondosa.
Jair Garcia Martins, o Jair Padeiro.

Anúncios

Ações

Information

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: