Um amor selado no céu.

5 02 2018

Oi gente, um forte abraço.

O nosso último texto foi “Uma Camponesa”. O de hoje será, com toda certeza emocionantedramático, e em algum momento o deixará estupefato. Tentem entrar na história e imaginar os ambientes, as expressões e os sentimentos e de cada personagem. Veja nossa nova mensagem.

Era uma quarta-feira, nove e vinte da noite. O senhor Matias está se preparando para deitar quando sua esposa Eunice entra no quarto revirando uma bolsa:

– Matias, nós precisamos voltar lá na casa do seu irmão, eu esqueci meu remédio em cima da mesa da varanda.

– Já é quase dez horas Eunice, o tempo está fechado e é uma noite sem luar, não temos nenhuma visibilidade lá fora, e você sabe que o único caminho para a chácara dele é passando pelo fundo do vale. Aquele lugar é perigoso, receio ter que passar por lá.

– Então irei sozinha, pois não posso ficar sem meu remédio.

– De maneira alguma, sozinha você não pode ir.

– Já disse que preciso do remédio, Matias.

– Então tudo bem, irei com você, espere eu pegar uma lanterna. Porém, iremos pra lá, passaremos a noite e voltaremos apenas amanhã.

– Certo, eu só preciso do meu remédio.

Os dois saem rumo à casa do irmão que mora na chácara, o céu está insondável, trovões fazem estrondos e relâmpagos riscam os ares, ambos caminham guiados pela luz da lanterna, com os corações aflitos mediante pavoroso cenário noturno.

Por volta das onze horas o casal está passando no fundo do vale, são apenas mais 100 metros de caminhada e poderão avistar a porteira da chácara. Porém, eis que no meio do trajeto Eunice ouve algo muito estranho, ao que parece, o choro de uma criança vindo do meio dos bambus que cercavam o riacho. Assustada, chama pelo marido:

– Matias vem aqui, ouça, eu acho que está vindo dali. – Diz Eunice apontando para o bambuzal.

Os dois se aproximam e se deparam com um bebê recém-nascido envolto numa manta azul. Eunice se abaixa para pegar a criança, e com ela nos braços exclama a Matias:

– Pobrezinho, devem tê-lo abandonado, é apenas um recém-nascido, ainda está até com o cordão umbilical. E veja só que incrível, apesar de ser moreninho ele tem olhos verdes, que mãe cruel tem coragem de abandonar uma criança tão linda?!

– Tem toda razão, traga-a e vamos continuar, temos que entrar logo, o tempo está piorando.

Logo em seguida chegam à chácara e são recebidos pelo irmão de Matias e a esposa. Cerca de dez minutos e os céus desabam, fortes trovoadas, ventania, chuva pesada, uma violenta tempestade inicia.

Nesse mesmo momento, lá no sítio formosa, nascia Vânia, a primeira filha do casal, Senhor Ângelo e Senhora Sophia Ranieli, casal de camponeses já de certa idade, beirando os cinqüenta anos. Esta noite tempestuosa era simples começo de uma grande história.

Quinze anos se passaram e lá no sítio Formosa agora mora o Senhor Matias e sua família, sua esposa Eunice e seu filho de criação, Marcos, a quem todos tratavam por Marquinhos, que agora tinha quinze anos.

O Senhor Matias era o fiscal do sítio, e o filho apesar de ser ainda um adolescente já trabalhava na lavoura junto dos outros empregados.

O tempo parecia voar, o menino recém-nascido que estava lá no meio daqueles bambus deixado para morrer na tempestade que estava por vir, completara agora dezessete anos, tornou-se um rapaz forte e viril, trabalhador e muito educado. Fora criado com muito carinho pelos pais adotivos.

Lá no casarão, que tinha um estilo europeu estava Vânia, que era a única filha do casal de italianos, também com dezessete anos, a mesma idade de Marquinhos, ambos tinham agora a idade dos sonhos, dos anos dourados da vida, mas até então ainda não sabiam o que era namorar, ou amar alguém, ainda não tinham passado por uma desilusão, não sabiam o que era sofrer por amor ou curtir uma paixão.

Vânia e Marquinhos nunca tiveram a oportunidade de namorar, a rotina ali naquele sítio do italiano era trabalhar de cedo até o sol se pôr.

Enquanto Matias e Marquinhos trabalhavam na lavoura, o patrão era o retireiro do sítio, Ângelo era quem tirava todo o leite que era entregue na cooperativa, Sophia era a responsável pela produção de queijo e Vânia desde os treze anos começara a trabalhar junto ao pai, cuidando dos estábulos e do salão que era utilizado para tirar o leite, além de tratar e cuidar do gado.

Certo dia, por volta das seis da tarde, Marquinhos está debaixo da sombra de um jatobá que ficava as vistas do casarão. Após um dia todo de trabalho, desfrutava do ar fresco do fim da tarde, e pelas cordas de seu violão deslizava os dedos com leveza, como uma criança a brincar, e nas notas suaves que ressoavam por toda a fazenda, sendo levadas pelo vento, acrescia sua voz serena e entoava uma belíssima canção de amor.

Lá na casa do patrão todos estão sentados a varanda e o Sr. Ângelo está conversando com sua esposa:

– Sophia, eu já sou retireiro do sítio há muitos anos, gosto desse trabalho, foi ele que deu alicerces a nossa vida financeira, mas agora está ficando difícil pra mim, os anos se foram, olha a nossa filha, já está moça, tem dezessete anos, e quando ela nasceu nós já não éramos muito jovens. É difícil ter que aceitar, mas estamos ficando velhos, e pra mim o peso dos anos já está caindo sob meu corpo. Eu preciso colocar outra pessoa para trabalhar com a Vânia em meu lugar, mas o problema é “quem”, preciso de alguém em quem eu possa confiar.

A mulher ouve atentamente as palavras do esposo e lhe responde:

– Eu acho que a solução está ao alcance de nossos olhos – diz ela voltando o olhar para a direção do pé de jatobá – o filho do Seu Matias, Marquinhos, é um rapaz novo, mas é forte, robusto, educado e trabalhador. Mesmo sabendo que é filho adotivo trata com muito carinho e respeito seus pais.

– Que idiota eu sou Sophia, como não pensei nisso, amanhã mesmo vou conversar com o pai dele sobre isso.

No outro dia Ângelo conversa com o pai de Marquinhos e deixa tudo acertado, o rapaz agora passaria a trabalhar de retireiro junto à filha de seu Ângelo.

Segunda-feira, dez pras sete, o rapaz segue em direção ao estábulo, será seu primeiro dia no novo ofício. Ao chegar cumprimenta Vânia sem muitas delongas e logo começam a trabalhar.

– Marquinhos, tem muita coisa pra você aprender. Durante todo o dia de hoje irei estar te ensinando sobre todas as tarefas que temos para desempenhar aqui.

– Eu agradeço a ajuda Vânia.

E assim foi, por várias horas Vânia dedicou seu tempo ensinando a Marquinhos as principais tarefas da rotina ali no estábulo. Dentre a limpeza do local, ao cuidado com os animais e a retirada de leite que era o ponto principal. Ao fim da tarde, serviço terminado, ambos se despedem e Vânia completa:

– Espero que tenha gostado do serviço, o aguardo novamente amanhã pela manhã.

Ao chegar a sua casa, os pais de Marquinhos o indagam sobre o trabalho:

– Diga-nos como foi seu primeiro dia meu filho.

– Foi muito bom, o trabalho exige cuidado, mas não é nada muito difícil, e Vânia é um amor de pessoa! Muito atenciosa e simples de tudo, quem não a conhece nem imagina que seja filha do patrão.

Os pais ficam felizes com a resposta do filho. Enquanto isso, lá na casa de Ângelo e Sophia, uma pergunta semelhante é feita para Vânia:

– Nos dia Vânia, como foi seu primeiro dia de trabalho junto ao Marquinhos?

– Foi muito bom pai, não tive nenhuma dificuldade, tudo que eu lhe ensinava ele entendia e pegava o jeito fácil, mostrava muita dedicação e vontade de trabalhar, estou certa de que nos daremos muito bem, e o senhor pode ficar descansado agora, daremos conta do trabalho sem problemas.

A resposta da filha foi de grande felicidade para o casal, e o senhor Ângelo redargui:

– Que ótimo, agora terei mais tempo para ir à cidade, à cooperativa e também para descansar mais.

Quinze dias se passam, é um domingo, dia dos namorados. Marquinhos está debaixo do pé de Jatobá, são cinco da tarde, e como de costume ele está soltando a voz ao som do seu violão em uma linda canção de amor. Lá na imensa varanda do casarão europeu estão sentados Ângelo, Sophia e Vânia.

– Ouça como canta bonito este rapaz! É ótimo ouvi-lo cantando acompanhado por seu violão. – Diz Sophia para Ângelo e Vânia.

– Realmente, canta bonito. – Respondem.

Na manhã seguinte, Marquinhos chega as sete para mais um dia de trabalho. Cumprimenta Vânia e logo os dois começam a preparar tudo para começar a trabalhar.

Em certo momento, ambos estão sentados próximos, ordenhando as vacas quando Vânia resolve puxar assunto:

– Estávamos a te ouvir cantar ontem, parecia inspirado, cantou várias músicas românticas, era por causa da comemoração do dia não é?

– Aahh sim, ontem era dia dos namorados né? Mas não estava cantando aquelas por algum motivo especial ou coisa assim, é simplesmente o tipo de música que eu gosto…

– Entendi… (o silêncio paira por alguns segundos).

– Mas você tem namorada lá na cidade, não tem?

PARTE II

– Que isso Vânia, claro que não… Você nunca notou que quando meus pais vão à cidade, seja pra ir à igreja ou algum outro lugar eu fico em casa tocando violão ou lendo a bíblia? Eu só vou pra lá mesmo quando preciso comprar algo, fora isso, nada mais na cidade me interessa.

            Vânia volta seu rosto para o balde no chão e com a face invisível aos olhos de Marquinhos sorri levemente. Logo percebe que deve dizer algo pra não deixar o assunto morrer assim de repente, e começa a pensar no que, porém, após breves segundos Marquinhos devolve a pergunta feita por Vânia:

– E você, tem namorado lá na cidade? – pergunta Marcos sorrindo.

No que Vânia redargui:

            – Seu bobo, é claro que não. Eu também sempre fico aqui quando meu pai vai à Igreja, fico com minha mãe, e às vezes faço igual a você, passo a tarde em casa lendo a bíblia e depois vou dormir.

            Nesse momento ambos se olham, sorriem, e acontece o primeiro flerte.

            O pai de Marquinhos, assim como o pai de Vânia freqüentam comunidades religiosas conservadoras, por tal motivo, Vânia e Marquinhos não costumam ir à cidade com eles, pois não são completamente adeptos da mesma mentalidade religiosa, apesar de ambos serem tementes a Deus e lerem com freqüência a Bíblia.

Mais trinta dias se vão, é uma quarta-feira, cinco pras sete da manhã. Marquinhos chega para trabalhar e Vânia já está no salão, como de costume.

– Bom dia Vânia.

            – Bom dia Marquinhos.

Logo os dois começam a fazer suas tarefas, até que em certo momento sentam-se lado a lado para ordenhar as vacas. Marcos então puxa assunto:

– As coisas são sempre tão tranqüilas por aqui né?!

– Sim, todo dia a mesma rotina, nada muda.

– Às vezes sinto vontade de me mudar, procurar algo que eu goste de fazer, ter uma família quem sabe… Você não tem vontade de tentar algo novo Vânia?

– Eu já estou tão acostumada com essa tranqüilidade, nunca pensei em mudar… Mas ter uma família também é meu sonho.

O silêncio paira por alguns instantes, e logo Vânia acrescenta:

– Depois que você se casar, pretende ter quantos filhos Marquinhos?

– Eu gostaria de ter uma filha, de olhos azuis e longos cabelos dourados.

– Mas seus olhos não são azuis, são verdes.

– Mas os da mãe dela serão azuis.

Vânia sorri discretamente, um pouco tímida, mas logo acrescenta:

– Bom, já eu quero um menino, forte e esbelto como o pai.

Marcos então sorri e conclui:

– Bom, acho que um casal também não seria má idéia.

Ambos dão um sorriso singelo e no peito o coração dispara com aquele novo sentimento com o qual se deparavam.

E assim os dias se passavam, e enquanto Matias fiscalizava a lavoura, e Ângelo e Sophia iam à cidade, na cooperativa os dois trabalhavam felizes, sem nenhum incômodo, cuidando dos animais, tirando leite e cumprindo os demais afazeres até o findar do dia.

Dias depois Marquinhos chega para trabalhar e a moça diz pra ele:

– Marquinhos, depois do almoço nós vamos ter que procurar uma vaca que sumiu, ela deve estar lá naquele mato no pé do morro, ela já escapou algumas vezes e foi encontrada lá.

Depois do almoço o rapaz chega e o cavalo já está arriado. Vânia então diz:

            – Agora você monta que eu vou na garupa.

Logo, os dois chegam ao pé do morro, descem do cavalo e Marcos diz:

– Você fica vigiando o cavalo que eu vou entrar no mato pra ver se acho essa vaca fujona.

– Engraçadinho você né?! Nada disso, eu vou com você para procurar a vaca.

            – Mas você não tem medo de entrar comigo no meio do mato, só nós dois no meio desse mato, pode ser perigoso hein.

            – Haha, engraçadinho, nem pense bobagem.

Os dois sorriem.

            – Pode ficar tranqüila Vânia, vamos, vou te levar comigo.

E em seguida os dois rumam em meio ao mato, morro acima, logo depois a moça pára e mostra sinais de cansaço, e diz ao rapaz:

            – Ah Marquinhos, você anda muito rápido, eu já estou cansada, ande mais devagar sim?

            – Tudo bem, vamos diminuir o passo.

Nesse momento, enquanto sobem um trecho íngreme, o pé de Vânia escorrega e ela quase cai, tendo que apoiar a mão no chão para se recompor.

            – Vânia, você se machucou? Tome cuidado.

            – Estou bem, foi só um deslize.

            – Me dê sua mão.

            – O que?

            – Me dê sua mão, se você escorregar de novo eu irei te segurar. Vamos, só assim ficarei mais tranqüilo.

Um pouco sem jeito, Vânia estende o braço e Marquinhos segura sua mão, os dois estão agora a caminhar de mãos dadas. Por quase uma hora caminham assim, até que Vânia se mostra muito cansada e pede para parar:

            – Marquinhos, vamos descansar um pouco na sombra daquela árvore, estou muito cansada.

            – Então vamos, também já me cansei de andar.

Os dois sentam debaixo da árvore e se esquecem do tempo, e ali ficam rindo, conversando, felizes como duas crianças em um passeio ao bosque. De repente os dois ficam em silencio, trocam olhares e sorrisos singelos. Marcos então diz:

            – Como são lindos seus olhos azuis, parece que Deus tirou um pouquinho do azul celeste dos céus e colocou em seu olhar.

E com estas palavras, Marcos estica o braço e tira o boné de Vânia fazendo com que seus longos cabelos loiros escorram com liberdade, descendo até perto da cintura.

            – Nunca antes em minha vida conheci uma beleza tão doce e pura como a sua, não consigo mais evitar de me perder nos seus olhos, de imaginar a sensação de minhas mãos percorrendo por meio de seus cachos dourados. Vânia, estou apaixonado por ti, já há tempos venho te amando em segredo.

A moça então não consegue se segurar:

            – Marquinhos, eu também tenho resguardado em mim a paixão que teci por você, e ela queima dentro de mim cada vez que me encontro enamorada nos seus olhos verdes.

Não deu mais pra segurar as emoções, o casal de jovens se abraça e servem-se do primeiro beijo.

Meia hora depois da explosão de sentimentos, Vânia depara-se com a realidade:

            – Meu Deus, o que estamos fazendo Marquinhos? Isso jamais dará certo, meu pai jamais permitirá que eu me case com você. Minha mãe é muito bondosa e só quer minha felicidade, mas meu pai é um radicalista, não abre mão de sua fé e de nossa cultura européia, só permitiria que eu me casasse com um homem que pense da mesma forma e siga os mesmos ideais que ele. Por tais motivos, estamos condenados a sofrer por amor.

            – Meu pai também é assim, segundo sua religião, eu só deveria me casar com uma moça da mesma Igreja, mesmo que eu não freqüente junto a ele. Minha mãe também só quer me ver feliz, mas tenho certeza de que ele nunca mudará de idéia.

            – Eu acho que a gente tem que casar com quem a gente ama, nada pode destruir um amor puro que vem do nosso coração, nem religião, nem cultura, nada.

            – Vânia, o amor é a coisa mais bonita que pode nascer no coração de duas pessoas, é a primeira vez que estou amando e nunca senti tanta felicidade como agora, não desista do nosso amor Vânia, não sem lutar.

            – Eu não desistirei, meu coração também está repleto de felicidade. Faremos o seguinte Marquinhos: nos amaremos em segredo, tendo apenas Deus por testemunha, e se Ele permitir que fiquemos juntos, ninguém nunca irá nos separar.

Diante dessas palavras, ambos decidiram que iriam continuar se encontrando, e alimentando secretamente sua paixão proibida, longe dos olhares depreciativos de seus pais, para que seu amor não se tornasse amargo perante julgamentos religiosos ou culturais que nada tinham a ver com o sentimento puro que florescia em suas almas. E fizeram mais! Trocaram juras de amor, e prometeram se amar pra todo o sempre:

– Amaremos a Deus em primeiro lugar, e Ele permitirá que nós nos amemos eternamente.

PARTE III

Os dois descem da montanha e se deparam com uma agradável surpresa: ao lado do cavalo está a vaca pastando uma grama verdinha, abanando sua calda. Vaninha sorri e corre ao encontro da mesma, dizendo:

– Veja Marquinhos, como ela é mansinha! Me coloca em cima dela!

O rapaz carinhosamente atende ao pedido da moça. Monta em seu cavalo e segue puxando a vaca pela corda, cantando uma linda canção de Elvis Presley, This my girl.

Mais dois anos se vão, e para o casal de namorados, nem um dia sequer se passou, depois daquela tarde mágica, em que um se rendeu ao outro, e ambos se renderam ao amor, tendo por testemunha a face singela da natureza, amadrinhando aquele sentimento tão inexplicável que já brotara outrora em seus corações. É manhã de uma quinta-feira qualquer, Marcos está conversando com a mãe, falando sobre o namoro em oculto com Vânia, sem saber que o pai está de tocaia, pois já estava desconfiado. E por lástima ou simples capricho do destino, o caso é descoberto por Mathias.  A ira do homem religioso se acende e ele mais que imediatamente antes que o patrão descubra, toma uma decisão: vai levar o filho embora pra morar com o irmão lá na chácara onde ele foi encontrado, naquela noite tempestuosa, que receberam o menino como presente de Deus. O lugar fica a 180 km de distância. Sua permanência ali no sítio seria por mais três dias apenas, no domingo à tarde partiria, deixando pra traz o grande amor de sua vida. O moço se desespera, mas não da nenhuma demonstração, finge estar bem tranqüilo, mas o coração já marcado pelo amor que sente por Vânia está sangrando de dor. Uma sombra negra cobre seu íntimo de tristeza e agonia.

Na sexta-feira às sete horas exatas, Marcos chega para o seu último dia de trabalho com Vânia, aquele ser angelical, disfarçado de ser humano; seu único e eterno amor.  E antes de iniciar o trabalho diz para a moça que o amor em segredo fora descoberto pelo pai. A moça fica pálida, se entristece, quase não crê nas palavras que ela acabara de ouvir, e o moço continua a conversa com essas palavras:

         – Vâninha hoje será o nosso último dia de trabalho juntos, e temo que também possa ser a última vez que a verei. No domingo à tarde eu irei embora para bem longe, mas os céus, a lua e as estrelas serão testemunhas do nosso amor, e no futuro até a natureza falará desse sentimento tão meigo, tão puro; tudo isso ficará por testemunha se não tomarmos uma decisão até domingo. Vâninha, antes a morte a ter de me separar de você, nós temos que traçar um plano.

– Marquinhos, se eu tiver de me separar de você, também prefiro a morte. Você se lembra do nosso juramento de amor que fizemos lá naquela montanha? Já faz muitos anos, mas eu não esqueci, nós fizemos um juramento que só a morte iria nos separar.  Tínhamos apenas dezessete anos, e hoje, já com vinte e nove… há doze anos que alimentamos nossos sonhos, de ter uma família, de nos unir em matrimônio, há exatos 12 anos que nos amamos em segredo. Você se lembra que um dia eu te disse lá no estábulo que nós iríamos amar a Deus em primeiro lugar e que Ele iria cuidar do nosso amor? Pois bem, eu não quero quebrar nosso juramento, a hora é agora e não tem mais volta. Seu pai não aceitará nosso namoro, e assim que o meu descobrir será ainda pior nossa situação. Meu pai, em conversa com minha mãe certa vez disse, que eu só me casaria com alguém de outra doutrina por cima de seu cadáver.

Diante essas palavras os dois se abraçam e choram silenciosamente, com seus rostos cobertos de lágrimas e na alma um grito de tristeza oprimido pela dor. Não queriam dar o gosto àqueles que impediam sua felicidade de vê-los sofrendo.

E após todo o lamento, planejaram o que fariam diante tal situação.

         – Marquinhos, iremos para a cabana abandonada no pé da colina, no domingo venha até minha casa ao clarear do dia, estarei te esperando. Vou deixar tudo preparado, me levantarei de madrugada em silêncio, sem que ninguém perceba e vou escrever uma carta de despedida para meu pai, pois ele é o maior obstáculo que separa nosso amor. Vou colocar a carta sob a Bíblia Sagrada no capítulo treze de primeiro coríntios, pois esse capítulo que o apóstolo Paulo escreveu só fala de amor e isso é algo que meu pai nunca conheceu. Depois vou pegar água, duas taças de cristal e um frasco de veneno que meu pai usa para matar ratos na tuia, e te encontro lá fora. Você faça o mesmo em sua casa, deixe uma carta para seu pai em cima do mesmo capítulo da Bíblia que lhe falei, não se esqueça, 1coríntios capítulo 13.

O moço então aceita o plano; tudo acertado para seu último momento juntos, apenas mais uma gota de tempo suficiente para cumprir sua jura de nunca deixar que ninguém os separe.

Na calada da noite de domingo, Vânia se levanta e caminha pela casa em passos leves como uma brisa de outono. Sob a escrivaninha no canto da sala escreve uma carta que fica molhada de lágrimas, pega a Bíblia da estante, abre e sob o capítulo mencionado deixa suas últimas e amarguradas palavras  de despedida, emergidas do mais íntimo de seu âmago, destroçado, em frangalhos…pela crueldade e intolerância de um homem, que provavelmente nunca conhecera a verdadeira face do amor.

Na carta, a doce menina, já feita mulher, despi sua alma, fala sobre tudo que guardava em seu coração, sobre o que achava das crenças e costumes do  pai, sobre a mediocridade de seu radicalismo sem fundamento, e conta sobre todos os bons momentos que viveu secretamente com Marcos, seu grande amor durante todos estes anos. O homem que acalentara sua alma nas horas de tristeza, e que deixara ainda mais sublime os momentos que por si só já eram de felicidade. Por fim, se despede, pede perdão por sua atitude, mas diz não encontrar outra saída, e ao findar da carta menciona brevemente que seus “corpos” poderão ser encontrados na cabana abandonada na colina.

Vânia mal acabara de escrever a carta, Marquinhos chega. Ela pega as duas taças, o veneno e a água, os dois sobem a montanha e chegam até a cabana. O dia está clareando, ela abre a porta da velha casa que está abandonada por muitos anos e pega uma mesinha que está ali no canto da parede, já ruída pelos anos, uma mesa já bem frágil que mal consegue manter-se de pé; coloca em cima dela as duas taças com o veneno e depois se abraçam, trocam juras de amor e entram, do túnel do tempo trazem à tona todos os momentos felizes que viveram por doze anos em que eles se amaram secretamente, apenas Deus e sua magnitude por testemunha.

E nesse exato momento inicia-se um forte temporal, o céu se fecha. De repente o dia que estava clareando fica negro como a noite, relâmpagos e fortes trovões riscam o céu e estrondam as montanhas que cercam aquela cabana.

Lá no casarão, Seu Ângelo acorda com o temporal que abala a natureza, se levante e vai até a sala e se depara com a carta em cima da bíblia sagrada que está aberta no capítulo treze de primeiro aos coríntios.

E quando Ângelo acaba de ler a carta, chega Matias que também havia encontrada uma carta de despedida do filho. Os dois sobem a colina em desespero rumo à cabana, o tempo não dá trégua e sacode a natureza, grandes pedras rolam ribanceira abaixo, árvores quebram e galhos voam pelos ares, parecia uma cena de terror do saudoso mestre de suspense, Alfred Hitchcock. Lá no interior da cabana está o casal tão apaixonado ainda trocando juras de amor, tamanha é a emoção do momento feliz em que eles vivem que o pavor da catástrofe ambiental não lhes dá nenhum medo, nada mais para eles importa, nada mais para eles provoca pânico, o amor nesse momento fala alto, o que importa é a jura de amor que ambos fizeram no passado, de se amarem até a morte, e agora, eis que é chegado o momento exato para eles cumprirem tais promessas. Eles olham as taças com aquele veneno mortal e estendem a mão para pegar e brindar de forma trágica o seu amor pela última vez.

IV PARTE

De repente, em meio àquele vendaval tempestuoso ouvem-se vozes, gritando por Marcos e Vânia. Mais que imediatamente os dois correm na frente da cabana e olham pela fresta da janela, pois a porta está fortemente travada para que ninguém abra com facilidade, e vêem pelo clarão dos relâmpagos seus pais subindo ao morro em direção da cabana. Eles só têm uma decisão, terão de se esconderem, não há mais tempo para tomarem o veneno e Vânia diz para seu amado estas palavras:

         – Marquinhos, nós não podemos beber esse veneno aqui e morrer na frente de nossos pais, a tragédia seria muito forte, o nosso tempo é só alguns minutos, o frasco de veneno e água está em minha bolsa, vamos pular a janela do fundo e se esconder na gruta ali no pé do morro e lá nós tomaremos o veneno, com certeza eles irão lá para nos procurar e nos encontrarão.

– Sim, vamos, temos que ser rápidos!

Os dois então pulam a janela e correm em direção à gruta que fica a duzentos metros da cabana.

E no momento em que eles pulam a janela e saem em disparada rumo à gruta, chegam  Ângelo e Matias.

         – Vâniaaa! Marquinhoooos! Abram essa porta!

A porta não se abre. Ângelo então dá um chute na porta, Matias outro, e depois juntos conseguem arrombar, entram correndo e se deparam com a mesinha e em cima dela as duas taças envenenadas. Neste exato momento, sob a cabana um raio fulminante propaga dos céus. Um único instante e a cabana já não existia mais, se torna uma pilha de entulhos, o cenário é arrasador, cruel e o que se vê ali agora são dois corpos carbonizados estendidos ao chão.

Lá na casa de Eunice e Sophia começa o pânico, as duas encontram a carta, Eunice sobe em direção da casa de Sophia, a mesma desce em direção a casa de Eunice, as duas se encontram no meio do caminho com as cartas em mãos, e exprimem em voz de desespero –  “veja isso”, “olhe isso” – ,  apavoradas uma pra outra.

         – Nós temos que subir a colina agora e ir até a cabana. – Diz Sophia.

– Mas e esse vendaval? Vai nos arrastar Sophia!

– Não importa a tempestade, vamos subir uma segurando na outra.

E assim ambas fizeram, e em meio àquela tempestade as duas chegam até o local descrito pelo casal. No momento em que vão se aproximando do que sobrou daquele lugar a tempestade começa a se dissipar e o sol a despontar por detrás das montanhas dá luz a uma cena aterrorizante, os dois corpos castigados jogados ao chão em meio aquela catástrofe ambiental. Uma pequena brisa em forma de fumaça vai se esvaindo pelos ares, até a natureza que foi o motivo daquele cenário parecia se entristecer. O barulho cessou, a tempestade passou e veio a bonança, nem os pássaros cantam, tudo é silêncio ali na colina, mas as duas mulheres estão em pânico, vendo seus maridos mortos e sem encontrar seus filhos, imaginando que estejam sob os escombros daquele desastre.

Mas uma coisa chama a atenção das duas mulheres, e elas quase não creem no que se materializa bem diante de seus olhos. Sophia diz para Eunice:

         – Veja Eunice, como pode isso? A cabana virou um monte de entulhos, mas há uma mesinha velha e pensa pra cair de pé no centro de tudo, e olhe! Sob a mesa há duas taças!

         – Sophia, eu estou pasma diante do que vejo, isso é inexplicável, é claro que aqui houve um milagre.

– Então cadê nossos filhos?

– Vamos continuar procurando, eles devem estar bem.

Nesse momento por detrás das rochas úmidas e gélidas da gruta, os amantes sussurram algumas palavras:

– Marquinhos, a tempestade passou, veja que lindo está o dia, o sol brilha como se acabasse de nascer!

– Sim Vâninha, o dia agora está lindo, mas você ouviu o barulho daquele raio?

– Ouvi sim, me parece que ele caiu lá na cabana, vamos lá ver o que aconteceu?

– Vamos então, mas ah, e o veneno, ainda está com você?

– Sim, está aqui na bolsa, mas deixa isso pra lá por enquanto, primeiro vamos ver o que aconteceu.

Novamente um belo sorriso e os dois seguem abraçados rumo à cabana, e quando falta uns cinqüenta metros para chegar eles avistam Sophia e Eunice mexendo nos entulhos e não conseguem conter a emoção.

         – Mãe, nós estamos aqui!

As duas mulheres correm de braços abertos ao encontro dos filhos, os filhos correm de braços abertos ao encontro da mãe, e eles se abraçam, e o que se vê são lágrimas de tristezas e de emoção.  Sophia diz essas palavras:

         – Matias e Ângelo estão mortos, foram eletrocutados pelo raio.

– Mãe, nós já estávamos desconfiando que isso tinha acontecido, vimos quando o raio caiu na cabana. Nós sentimos muito.

Os quatro descem a colina rumo ao casarão, e no caminho Sophia avisa alguns funcionários sobre a tragédia ocorrida e pede ajuda pra lidar com a situação. Os empregados dizem que vão cuidar de tudo, porém, Marcos decide ir ajudar e pede pras mulheres irem esperar na casa.

No período da tarde já estão a velar o Seu Ângelo e Matias, uma multidão de pessoas que os conhecia, não como os homens que eram, mas como aparentavam ser, vestindo seus soberbos ternos aos domingos e indo à igreja com a bíblia debaixo do braço, conheciam a Palavra, citavam a Palavra, mas como papagaios que repetiam sem compreender, não viviam a Palavra, mas para os conhecidos eram “pessoas de Deus”. No final das contas, porém, não era o que os outros achavam que mudaria algo, Marcos e Sophia torciam arduamente para que seus pais tivessem sentindo na alma e se arrependidos ao lerem as cartas antes de subir aquela colina.

Como ambos foram velados juntos, os pastores de suas igrejas fizeram-se presentes e tentavam decidir de que forma cada um falaria daquele que conhecia, argumentavam sob a bíblia exposta num pedestal quando uma leve brisa virou algumas páginas e um texto sublinhado se expôs, concordaram então em ler juntos aquilo que para todos serviria – o capítulo 13 de 1° aos Coríntios.

1 Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.

2 E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.

3 E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.

4 O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.

5 Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal;

6 Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;

7 Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

8 O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;

9 Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;

10 Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.

11 Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.

12 Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.

13 Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.

 

Seis anos depois Sophia e Eunice estão lá na casinha do casarão cuidando da produção do queijo e lá no estábulo, um ao lado do outro está Vâninha e Marquinhos, tirando o leite que vai ser entregue na Cooperativa, e no terreiro brincam felizes duas crianças, uma loirinha dos olhos azuis e um moreninho dos olhos verdes. Vaninha então interrompe um pouco o serviço e fica a observar as crianças, com um sorriso muito doce em seu rosto. Marcos percebe na expressão da mulher que em sua mente transcorrem lembranças de um tempo em que ambos faziam apenas planos para um futuro distante, que agora se tornara realidade para os dois. Ele então se levanta e abraça-a, enquanto ela sussurra:

         – Deus nos presenteou com aquilo que mais queríamos. Você ainda se lembra, do que prometemos certa vez? “Amar a Deus em primeiro lugar e Ele cuidaria de tudo em nossas vidas”?

– É claro que me lembro, e foi exatamente o que aconteceu.

– Mas nós estávamos enganados em algo sabia?

– É mesmo? E em quê?

– Achávamos que nosso amor seria selado no céu com nossas mortes, mas ele já estava selado antes mesmo de nascermos.

Com essas palavras os dois sorriem e se beijam, ali naquele estábulo, o mesmo lugar que foi o princípio de tudo, o palco desse amor  tão lindo que nasceu em duas almas que tinham graça diante de Deus. No entanto, as cortinas desse espetáculo, chamado vida, não está na hora de se fecharem, meus caros. Os protagonistas desse enredo estão apenas iniciando a jornada; o caminho terá pedras, mas também terá flores. Então, caros leitores, não chegamos ao fim de uma história de amor; apenas nos despedimos por hora, dessa narrativa movida por um sentimento, o único, que ainda pode libertar a humanidade da destruição: o Amor!

         E assim caros leitores, nós despedimos dessa linda história de amor, uma história que foi Selada no Céu. E até a próxima, se Deus assim nos permitir!

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